O artista paraense Dirceu Maués, um dos vencedores do prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia este ano, descobriu a beleza da arte de escrever com a luz da maneira mais simples. Das tecnológicas câmeras digitais, ele fez o caminho inverso até a forma mais simples da fotografia, para mostrar que a beleza das cores e das imagens pode se construir sem além de um equipamento moderno.
Sua instalação “Horizonte Reverso” mostra esse resultado do trabalho que, desde 2003, têm como base pesquisas com a construção de câmeras artesanais e utilização de aparelhos precários. No dia em que mundialmente se celebra a fotografia artesanal, conhecido como Pinhole Day (uma referência ao “buraco da agulha” por onde passa a luz nas câmeras artesanais), o artista prova que, mais importante que o instrumento, é o olhar.
“Comecei a fotografar com câmeras analógicas, aquelas com filme, e trabalhei em jornal impresso durante um tempo, mas retomei meu trabalho autoral usando pinhole. Essa é uma técnica que desde o início já me interessava. Eu ministrava oficinas e sempre tive o desejo de fazer algum trabalho com pinhole, por acreditar que ele nos dá grandes possibilidades de criação. Acabei construindo uma câmera que usava filme, e não papel, como suporte e passei a utilizá-la trocando os filtros, experimentando e viajando, sentindo essa liberdade tão grande”, explica o artista.
O trabalho premiado de Maués consiste em uma pequena parede construída a partir do empilhamento de câmeras escuras que apontam para o mesmo lugar: uma pequena cadeira iluminada. A imagem da cadeira, e tudo a sua volta, é projetada sobre o papel vegetal contido no interior das caixas, revelando um mundo de ponta cabeça. Aqui a experiência da imagem perfaz um caminho de volta, em direção à imaterialidade, ao desejo que precedia a imagem fotográfica como a conhecemos – ou a conhecíamos alguns anos atrás. Um mundo dentro de uma caixa.
“Nessa técnica e nesse trabalho existe uma certa magia, que eu acho que é a que encantava os precursores da fotografia. Ali você tem uma multiplicação de coisas e acabo usando a câmera como elemento de construção e interferindo no lugar, chamando a atenção para o que não se via. Fazendo você perceber coisas que, no olhar cotidiano, não se percebe. Optei pela instalação justamente para fazer esse deslocamento do olhar”, pontua Dirceu.
Ele, que começou com um projeto documental chamado “Ver-O-Peso pelo Furo da Agulha”, que propunha experimentar essas possibilidades da câmera pinhole, viveu intensamente a construção desses equipamentos que o possibilitaram a criar em formatos diversos de imagem. “O pinhole não é ultrapassado. O grande barato é vê-lo como algo que pode somar com técnicas novas. Nunca fui muito purista de usar só ele e sim o pinhole somado a programas de edição, vídeos, esculturas, pinturas”, esclarece.
Das câmeras artesanais, Dirceu Maués voltou para as câmeras obscuras para entender ainda mais a essência da formação da imagem. “Essas imagens das câmeras obscuras encantavam as pessoas e despertavam a vontade de fixar imagens. A fotografia surge no momento em que foi possível fixar a imagem que já existia e que se via dentro da câmera obscura”, pontua Dirceu. “Acabei chegando neste trabalho com câmeras obscuras para pensar o dispositivo e suas possibilidades e não ficar preso a algo que já vem com tudo programado. Tem uma certa diversão na criação do dispositivo visando alcançar algo mais”, completa o fotógrafo.
(Diário do Pará)
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