Sair das galerias e ocupar as ruas, entrando nas comunidades, transformando os lugares e as pessoas por onde passa. Esse novo olhar sobre a arte como movimento social e político é a proposta da ocupação artística “Aparelho”, levada para o Mercado e Porto do Sal, quase já chegando ao rio, durante a última edição do projeto Circular Campina. O grupo pretende passar a ocupar diversos espaços da cidade, com a participação de artistas que lidam com diversas linguagens, como P.P Condurú, Apoena Augusto, Valério Silveira, Marcelo Lelis, Elisa Arruda, Coletivo Pitiú, Pablo Mufarrej, Débora Flor, Teresa Maciel, Elaine Arruda, Talita Oliveira, Veronique Isabelle, Igor Oliveira, Débora Jodorowsky, Verônica Limma, Vitor Blanco, o grupo de choro Café com Leite , e Luiz Junior.
“Desde 2009 temos feito ações nesse espaço, interagindo com essa comunidade, tanto que temos com a gente um pintor, que é o Luiz Junior, que faz um trabalho de tipologia naval nas embarcações da região e agora participa conosco. Ele começou na ocupação da Oficina Santa Teresinha, que fizemos recentemente, e agora atua aqui no mercado conosco. Essa troca com a comunidade, a possibilidade de estar nesse lugar e interagir é o grande resultado. Tem o Dinho, que é líder da comunidade e tem um churrasquinho e participa. Aqui acontece um convívio que a gente não teria se não fosse essa relação”, explica Elaine Arruda, uma das artistas responsáveis pelo Aparelho, uma referência aos locais usados como ponto de encontro e resistência de ativistas pela democracia durante a ditadura militar, lugares onde nasciam projetos, ideias e modos de atuação política.
Bruno Ferreira, de apenas 6 anos, participou com entusiasmo da oficina de iniciação artística onde pintou pela primeira vez na vida. “Aqui é um arco-íris e aqui é uma canoa e eu gostei muito de fazer”, disse o menino, concentrado, enquanto dava os retoques finais no seu trabalho.
Nas paredes do mercado, obras de arte estavam por toda parte e alguns artistas ainda colavam imagens impressas em lambe-lambe na frente das casas de alguns moradores. Uma intervenção artísticas que também admitiu trabalhos de grafite e stêncil nas ruas, tudo com o olhar atento de quem mora no local e até com a participação de alguns interessados em ajudar a finalizar as obras. Até uma barbearia, que ocupa um dos boxes do mercado, estava sendo apresentada como instalação artística, por ser tão esteticamente interessante em meio a tudo que estava ali.
“É uma maneira da gente estar em contato. Durante a montagem, estava tendo som de aparelhagem e um bingo deles, e nós participamos. Aqui eles estão com a gente e isso é uma forma de quebrar essas barreiras muito cruéis. A arte tem uma função política. A gente não pode ser ingênuo e romântico em pensar que a arte está alheia a todo esse processo social que estamos vivendo. A gente se desloca com intuito de ter essa atuação política maior em uma área da cidade que é bem complicada e esquecida”, completou Elaine.
Durante um dia repleto de atividades, teve espaço para performances, intervenções, xilogravura, fotovaral e roda de choro com os músicos Marcelo Ramos (bandolim), Diego Santos (violão de sete cordas), Rafaela Bittencourt (pandeiro) e Carla Cabral (cavaquinho).
“A proposta do projeto é se integrar com o mercado e com a comunidade e isso é algo que nós já fazemos. O projeto Café com Leite quer ocupar a cidade. Já fazemos apresentações no Mercado de Carne do Ver-o-Peso, por exemplo. Não queremos chamar nenhum público, a ideia é se integrar com quem já está lá. Queremos que a cultura se revele nesses meios”, diz Carla Cabral.
Para ela, o choro, quando trazido para as comunidades, resgata sua identidade. “O choro é roda, é música popular e tem mais é que estar em ruas e nos mercados. Ele é a primeira música popular brasileira e queremos trazer ele de volta para onde ele começou”, completa a musicista.
O gerente comercial André Ribeiro tem participado das edições do projeto Circular Campina Cidade Velha e diz que incentiva parentes e amigos a comparecerem para conhecer melhor a cidade e o movimento artístico local. “Eu enxergava Belém de uma forma diferente. Não tinha ideia da produção artística local. Quem diria que a cidade tem tantas galerias e espaços legais? Esse projeto de ocupar o mercado é maravilhoso e eu acho que essa comunidade é mais receptiva com a arte do que muita gente de outros lugares e isso é bem legal”, comenta.
(Diário do Pará)
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