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Pesquisa sobre vaqueiros do Marajó vira exposição

Os belos campos do Marajó e seus vaqueiros, que mostram destreza e habilidade com o cavalo e o rebanhos, são parte da vivência de Octavio Cardoso. A ilha ocupa um lugar especial no caminho do fotógrafo, que também fez alguns dos seus primeiros registros c

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Os belos campos do Marajó e seus vaqueiros, que mostram destreza e habilidade com o cavalo e o rebanhos, são parte da vivência de Octavio Cardoso. A ilha ocupa um lugar especial no caminho do fotógrafo, que também fez alguns dos seus primeiros registros com câmera por lá. Agora, ele completa mais de 30 anos desse trabalho com foco no homem, e na natureza típicos daquela região com a exposição “Minha Ilha – Campos Abertos do Marajó”, que abre hoje no museu Emílio Goeldi em Belém e é parte de um projeto contemplado com o XIV Prêmio Marc Ferrez de Fotografia 2014. As fotos são resultados de viagens aos municípios de Soure, Muaná e Cachoeira do Arari, onde o artista realizou a documentação da atividade do vaqueiro por meio de uma grande pesquisa imagética.

Em 1982, quando comprou sua primeira câmera semiprofissional, Octavio começou a viajar para retratar este ofício tão peculiar. Logo após, em 1984, quando iniciou os cursos de fotografia na Associação Fotoativa e passou a trabalhar de maneira profissional na área,recorda que o seu sétimo filme fotográfico já era resultado de viagens pelo Marajó. Octavio tem hoje um arquivo imenso de imagens que retratam o vaqueiro, os campos durante a seca e a cheia, o gado e o búfalo. São fotos que demonstram mudanças na vida deste homem amazônico ao longo do tempo.

O projeto incluiu também ações educativas para alunos do 9º ano das escolas Liceu Mestre Cardoso, em Icoaraci, e Adaltino Paraense, em Cachoeira do Arari – ocorridas no início do mês de março. A atividade foi realizada com uma exposição dessas fotos e alunos com deficiência visual tiveram uma experiência sensorial para “ver” as fotos a partir placas de cerâmica onde foram reproduzidas em relevo as fotografias (alunos que enxergam também tiveram essa mesma experiência de olhos vendados). Os alunos também participaram de uma oficina de fotografia, em que construíram câmeras artesanais e produziram as próprias imagens do local onde vivem e uma exposição, com o resultado pode ser vista no Liceu Mestre Cardoso até dia 19.

Em entrevista exclusiva, Octavio, que é editor de fotografia do DIÁRIO DO PARÁ, conta a importância dessa experiência na sua trajetória e de como o projeto de uma vida ficou ainda maior com a participação dos pequeninos.

Qual a importância de fazer mais essa exposição?

Eu já fiz exposições coletivas grandes com imagens do Marajó, inclusive com a Walda Marques e outros artistas,. e até já entrei em alguns salões com fotos do Marajó. Mas essa, em especial, é resultado de um trabalho pensado para ser só do Marajó e me dá a satisfação de poder ver o material organizado de uma maneira consistente. Todo esse tempo fotografando, não só na ilha, me dá hoje maturidade para apresentar um trabalho que me deixa satisfeito, mesmo sabendo que eu ainda não acabei. Esse trabalho não está terminado mas tem um corpo consistente para ser mostrado.

Para você, quem é o vaqueiro do Marajó?

De maneira geral, o povo marajoara é mais reservado. O vaqueiro também não fala muito sobre ele, então continua carregando um certo mistério para mim. Durante esse tempo, aprendi muito sobre como ele trabalha ou se comporta com relação a esse ambiente que ele vive, mas não sei o que ele pensa. Não sei o que é para ele amar um filho ou uma mulher, ou o que é para ele sonhar com o futuro. Eu confesso que ainda não consegui penetrar nessa alma como eu gostaria. Os vaqueiros têm uma certa religiosidade, que mistura o cristianismo católico e as crenças indígenas, com sua lendas, isso é tudo muito sutil e não é fácil de perceber. Eu ainda não sei quem é esse homem.

São 30 anos fazendo esses registros. Você percebeu mudanças?

Nesses 30 anos, o que mudou principalmente não foi a natureza em si, mas a relação desse homem com o mundo contemporâneo. As mudanças de tecnologia com a chegada da televisão, do telefone, da motocicleta, do motor de popa, deu a ele a facilidade de deslocamento. Isso já dá ao vaqueiro um trânsito nesse mundo urbano, realidade bem diferente do que a do próprio avô, por exemplo, tinha. O fato de viver essa relação próxima com a natureza não faz dele um homem igual ao homem da cidade, mesmo vivendo a 100km dela. Antes, ele vivia isolado e agora ficou mais próximo, mas esse fenômeno não é particular de lá, aconteceu no mundo todo. Mas é sempre bom lembrar que ele não é um homem da cidade.

Qual a importância do trabalho educativo nesse projeto?

Os resultados do trabalho educativo superaram as minhas expectativas. Não tinha grandes planos e não imaginava o que seria, porque não tenho experiência com educação. A equipe de arte-educação fez um trabalho eficiente que me trouxe muita satisfação, maior ainda quando você chega perto de um jovem e vê o entusiasmo dele participando de uma oficina. O mais importante é o resultado que foi o envolvimento das comunidades, escolas, professores, pais, alunos, a soma dessa energia torna a coisa muito mais prazerosa.

E o resultado com as crianças deficientes visuais neste projeto deixou você feliz?

Com os deficientes visuais a gente precisa que a exposição se prolongue por mais tempo para vermos melhor o resultado, mas os poucos deficientes que tiveram contato com a placa que reproduz as imagens gostaram bastante. O resultado do público, de uma forma mais ampla, vamos ver no Museu Goeldi. As placas em si já são lindas e elas na exposição são uma peça a parte. A ideia de relacionar tato, volume, com a cerâmica feita em Icoaraci e a relação que essa cerâmica tem com a antiga cerâmica marajoara agrega um monte de informação e de forças em prol de um resultado legal.

Que lugar ocupa a natureza em sua fotografia?

Uma das coisas que mais me motiva a fotografar é a possibilidade de reconstruir e reorganizar as coisas e nesse processo eu tento tornar o mundo mais agradável e harmonioso para mim. A ideia de leveza, a ideia de vazio, a procura de uma essência de um ser, a proximidade com algo intangível, essa busca existencial que todos os homens têm, sejam eles religiosos ou não, a busca de um sentido para a vida, para mim tudo isso se torna mais possível em contato com a natureza. A natureza entra como um elemento de composição e parceria para reconstruir uma realidade que se torna cada vez mais difícil em nosso dia a dia.

CONHEÇA
Abertura da exposição do projeto “Minha Ilha – Campos Abertos do Marajó”.
Abertura: Hoje, a partir das 10h.
Onde: Museu Paraense Emílio Goeldi (avenida Magalhães Barata, 376).
Quanto: Entrada franca. Visitação: de terça a sexta-feira, das 9h às 17h, e sábado, domingos e feriados, das 9h às 15h.

(Diário do Pará)

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