Pelas ruas da vila balneária de Alter do Chão, no município de Santarém, oeste paraense, o estandarte da Santíssima Trindade, símbolo do Çairé, é conduzido pelos personagens da festa, o juiz e a juíza, a saraipora, os mordomos e as moças da fita.
Da Praia do Cajueiro, parte a procissão de canoas e barcos até a floresta do Lago Verde, em busca de dois mastros que serão erguidos na Praça do Çairé alguns dias depois. Durante o trajeto, é servida a tarubá, bebida indígena fermentada.
Os rituais de hasteamento e de derrubada dos mastros são marcados pela competição entre homens e mulheres.
Íntimo destes rituais seculares, o artista plástico santareno Egon Pacheco dá novo significado aos objetos coletivos dessa manifestação cultural e imprime sua marca, a partir do que trouxe na memória, em esculturas, objetos e registros. Tudo reunido na exposição “Salve! Tu o Dizes”, um dos projetos vencedores do Prêmio Banco da Amazônia de Artes Visuais 2015, e que pode ser visitada no Espaço Cultural Banco da Amazônia, com entrada franca, até 19 de junho.
“Tenho minhas atividades concentradas em Santarém e costumo trabalhar com grandes séries. Esta é fundamentada na cultura popular e é a mais antiga que tenho. Foi com ela que comecei a desenvolver minha obra mais autoral. Tenho proximidade com os mestres do Çairé e a série nasceu principalmente de conversas e considerações trocadas com eles”, diz o artista.
A mostra traz o Çairé de raízes tradicionais, bem diferente daquele mais turístico, feito da disputa entre os botos Tucuxi e Cor de Rosa. Nesse contexto mais religioso e tradicional, considera Egon, são muito marcantes as relações comunitárias que produzem uma cultura viva e colorida, cheia de elementos simbólicos. “É nessas relações que o Çairé atinge sua plenitude, nessa divisão das comidas, do jogar frutas no mar”, avalia.
Com curadoria de Lila Bemerguy, a exposição é composta por obras resultantes também de um trabalho minucioso de pesquisa feito ao longo de 16 anos e das idas e vindas do artista à vila de Alter do Chão.
Nos trabalhos que compõem a mostra, o público reconhecerá o mastro, as varinhas, as bandeiras, as lanças, os estandartes e outros objetos que fazem parte do rito da festa, porém repassados pelo prisma da arte contemporânea.
“O Çairé é o principal elemento simbólico da festa. É um estandarte de madeira com fitas coloridas e adornado com flores de cetim trazendo uma ligação com o dilúvio e a Paixão de Cristo também. Todos esse elementos vão denotar a presença do sagrado e do profano. Mas é importante ressaltar que essa é uma exposição de arte contemporânea. Dos movimentos da dança, traduzimos no que em artes visuais é chamado performance; de seu objetos nascem as esculturas, e assim por diante”.
Para o Banco da Amazônia, a exposição “Salve! Tu o Dizes” vem não somente para valorizar as raízes culturais santarenas, mas também para celebrar a beleza e a produção da arte contemporânea paraense, por isso a aprovação no edital.
O artista Egon se diz feliz pela iniciativa que o patrocinou. “Esse projeto do Banco da Amazônia inspira a arte contemporânea e ajuda a descentralizar os artistas, trazendo obras de gente de várias cidades, não só da capital paraense, fazendo com que a arte do Estado como um todo se desenvolva”, elogia.
SERVIÇO
Exposição “Salve! Tu o Dizes”
Quando: Até 19/06, de segunda a sexta, das 9h às 17h.
Onde: Espaço Cultural Banco da Amazônia (Av. Presidente Vargas, nº 800 – Campina)
Quanto: de graça.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar