Ronaldo Bôscoli, letrista da Bossa Nova, coautor de O barquinho e um dos grandes conquistadores da história do Rio, estava num hospital, tratando-se de um tumor na próstata.
Seu parceiro Roberto Menescal foi visitá-lo. Ao entrar no quarto e ver Ronaldo na cama, atado a um vidro de sangue e a outro de soro, Menescal não se conteve. Começou a chorar. Mas Ronaldo nem o deixou continuar: “Vai de tinto ou vai de branco, Menesca?”
Conheci bem Ronaldo, fui seu amigo. Exceto por ter se casado com Elis Regina, não era um homem particularmente corajoso. Ao contrário, tinha medo de dentista, de avião e até de subir ao Pão de Açúcar pelo bondinho.
Por seu histórico, a hipótese de uma doença que lhe provocasse dor física ou qualquer incapacidade deveria ser-lhe intolerável. Mas, naquele momento, diante de Menescal, Ronaldo usou a grande arma contra o tumor: o humor. Isso pode ter me inspirado quando, anos depois, eu próprio me vi em apuros.
Em 2005, fui diagnosticado com um câncer de base de língua. O tratamento, sob o Dr. Jacob Kligerman, foi longo e difícil, mas bem-sucedido. Completei-o e, em 2006, sofri um infarto.
Aplicaram-me um stent e me mandaram para casa. Mas, em 2007, tive de me submeter a uma cirurgia que vinha conseguindo adiar, a de próstata. Passaram-se cinco anos, durante os quais quase me esqueci de que era mortal.
E, então, no domingo de Carnaval de 2012 — às 6h30 da tarde, no Leblon, com todos os blocos na rua e as vias fechadas —, tive uma encefalite viral que, essa, sim, podia ter me levado para o beleléu.
Engraçado, sempre que penso nessas passagens, associo-as a algum momento que, de um jeito ou de outro, provocou risos. Ao ouvir de Jacob o diagnóstico de câncer, minha primeira reação foi resmungar,
“Droga! Vou atrasar o livro!” — referindo-me ao livro Carmen — Uma Biografia, que estava finalmente começando a escrever depois de quatro anos de apuração e pesquisa. E atrasei mesmo — em dois meses —, mas, um dia, dei o livro por pronto, e ele saiu a tempo de ser um grande sucesso.
O tal infarto também não poderia ter vindo em pior hora. Dali a dois dias, uma quarta-feira, eu deveria estar atrás de uma mesa, na Travessa de Ipanema, recebendo os amigos e autografando exemplares de meu livro Tempestade de Ritmos — Jazz e Música Popular no Século XX.
O infarto levaria apenas dois dias para se resolver, mas, naquele momento, ninguém podia garantir isso — donde o evento deveria ser adiado. Mas, àquela altura, já não havia como disparar o desconvite pelo correio.
O jeito era plantar uma nota no jornal, mas que não tivesse um caráter muito dramático. O resultado foi esta que saiu na coluna de Ancelmo Gois: “Ruy Castro ficou tão empolgado com os três gols marcados por Obina pelo Flamengo neste fim de semana que teve um pequeno infarto. Com isso, fica adiada a noite de autógrafos de seu livro tal”.
Para quem não sabe: Obina era um goleador baiano que, já há meses no Flamengo, ainda não marcara nem um gol. E, de repente, naquele domingo, marcara três. Caso mesmo para infarto.
Mas nada superou a maneira com que, em meio a uma crise convulsiva provocada pela encefalite viral naquele domingo de Carnaval, fui transportado para a emergência do Hospital Miguel Couto.
se tira de casa um sujeito inconsciente, debatendo-se ferozmente e pesando mais de 100 quilos? Numa cadeira, claro, mas quem aguenta o peso? Os porteiros não estavam conseguindo.
Então um deles foi à rua, chamou um dos rapazes que desfilavam no Simpatia É Quase Amor e pediu-lhe ajuda. Com ele fazendo força, finalmente me puseram no carro. Bastou isso para que, ao acordar e ser informado do que se passara, eu chegasse à conclusão de que tinha ido para o hospital nos braços dos foliões.
(Diário do Pará)
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