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Espetáculo resgata trajetória negra no Brasil

Paralela à história que, convencionalmente, aprendemos na escola, focada nos acontecimentos e fatos dos colonizadores portugueses, uma grande riqueza cultural de matriz africana é posta de lado. É visando resgatar o protagonismo negro, a partir de uma abo

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Paralela à história que, convencionalmente, aprendemos na escola, focada nos acontecimentos e fatos dos colonizadores portugueses, uma grande riqueza cultural de matriz africana é posta de lado. É visando resgatar o protagonismo negro, a partir de uma abordagem crítica, que o Grupo Bambarê - Arte e Cultura Negra, da Associação dos Filhos e Amigos do Ile Iya Omi Ase Ofá Kare (Afaia) entra em cartaz hoje com o espetáculo “Face Negra – A História Que Não Foi Contada”. Vencedora do 3º Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro Brasileira, com patrocínio da Petrobras, a nova temporada da peça começa no Teatro Margarida Schivasappa e segue no Teatro Universitário Cláudio Barradas.

Segundo Edson Catendê, responsável pela direção geral, arregimentação e concepção do espetáculo, discutir o papel ocupado pelos afrodescendentes na sociedade é fundamental. Apesar de ser significativamente negro, para Edson, o Brasil ainda é um país racista. Diferente da primeira temporada de “Face Negra”, a nova montagem oferece uma releitura mais aprofundada da história, usando elementos dramatúrgicos complexos para contar sua trama. “A primeira montagem era muito didática. Você tinha o narrador dando o texto enquanto as cenas iam acontecendo paralelamente. Agora, nós incluímos diálogos e outros elementos cênicos que dão mais ritmo e fluidez à peça”, comenta Catendê. De acordo com o diretor geral, o andamento do espetáculo é marcado pela interação com a plateia. “É uma forma que nós buscamos para manter o espectador envolvido com a história e, ao mesmo tempo, provocá-lo para que ele se sinta parte do enredo que estamos criando”, comenta.

Dividido em quatro atos, o espetáculo oferece um amplo cenário sociocultural e político da história negra. Partindo da África, berço da humanidade, a trama percorre os leilões de escravos e quilombos brasileiros. Depois, traz uma reflexão contundente a respeito da abolição da escravatura e suas consequências. Enfim, a narrativa chega ao panorama da situação atual dos negros brasileiros, lutando para ocupar espaços e ter reconhecidos direitos fundamentais.

Com nove atores em cena, sendo que alguns chegam a ocupar até quatro papéis, “Face Negra”, apesar de narrar uma saga densa, utiliza a comédia como recurso. “Em certos trechos, nós optamos pela leveza do humor para que o público sinta empatia e seja cativado pela história.”, afirma Catendê.

Escolas da rede municipal e estadual de ensino, comunidades de matriz africana, crianças e pessoas na terceira idade podem assistir ao espetáculo gratuitamente. No caso das escolas, é necessário enviar um e-mail de credenciamento. Para Catendê, políticas afirmativas como as que deram origem à “Face Negra” são necessárias para suprir desigualdades latentes no país. “O negro recebeu liberdade, mas lhe foram reservados a miséria, o subemprego, a discriminação social e a violência urbana das favelas. É claro que ainda é algo utópico, mas nós só vamos conseguir reverter esse quadro quando todas as diferenças forem sanadas e nós nos reconhecermos vivendo em uma democracia de fato. O racismo existe e ele não é velado, está explícito”, completa.

(Diário do Pará)

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