Claro que eles não iam entrar na galeria de arte quietinhos. O ritmo deles é outro. Tudo pode virar uma grande brincadeira. Os estudantes, alguns bem pequenos, com idade entre 7 e 9 anos, e outros um pouco mais crescidinhos, com 10 a 12 anos, alunos da Escola Estadual José Alves Maia, se divertiram e puderam treinar uma coisa importante ao visitarem na última quinta-feira os espaços do VI Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia: o olhar.
“Essa é a primeira vez que eu entro em um museu e sabe o que me chamou atenção? As paredes. São lindas!”, disse Layany Pantoja, uma garota de 9 anos, estudante do 4º ano, enquanto visitava no Museu da Universidade Federal do Pará, que abriga a exposição da artista convidada, a cineasta Jorane Castro.
Para muitos colegas de Layany, essa também era a primeira vez que adentravam em um salão de arte e, por isso, se espalharam pelo ambiente atraídos pelas diversas imagens. Cada um escolheu logo uma favorita. Layany apontou para uma série que mostra um personagem ao telefone e disse que aquela fotografia havia chamado sua atenção, mesmo não sendo da forma que ela mais gosta, colorida.
“Ele parece estar preocupado quando recebe o telefonema e a foto mostra bem isso, mesmo sendo preto e branco. A gente consegue ver bem e entender”, completou a estudante, que quer continuar visitando outros espaços. “Sempre que alguém me trouxer eu quero vir e ver coisas novas”, finalizou.
Pode parecer simples a percepção da estudante, mas não deixa de ser a instigação de um olhar que ainda é pouco treinado nos métodos tradicionais de ensino. A verdade é que a arte ainda está muito distante das escolas e os alunos têm, nessas oportunidades, muitas vezes raras, a grande chance de desmistificar esses espaços e, aos poucos, descobrir quão acolhedores eles podem ser para os pensamentos, sentimentos e criatividade.
“Essa pessoa está sozinha, parece triste. Tá tudo escuro e ela é a única pessoa, ainda que meio embaçada, na foto”. Em uma simples descrição, Lorena Trindade, uma menina de 9 anos, explica sua escolha e contraria o que seria mais provável. Aponta uma foto mais escura em meio a muitas obras com cores e mais tradicionais feitas por Jorane.
Igor Oliveira, de 12 anos, descreve com mais riqueza de detalhes o que viu. “Essa foto é muito bonita. Tem uma árvore diferente e até a grama é tão bonita. Mesmo sendo em preto e branco a gente consegue imaginar o quanto ela é bonita na realidade. Acho que a estátua deste homem fica sempre aí, não colocaram só para fazer a foto, mas não sei, precisaria perguntar para a fotógrafa ,mas gostei muito do trabalho”, disse o garoto. Jayany Brito, 10 anos, não só admirou o trabalho da artista como fez questão de fotografar com seu celular a obra preferida. “Quero guardar esse momento especial e lembrar dele depois”, contou a estudante.
O passeio não terminou no Museu da UFPA. Os alunos seguiram para a Casa das 11 Janelas, onde puderam apreciar as obras de artistas selecionados, premiados e convidados do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. A entrada na sala da obra premiada foi o ponto alto da visita. As crianças se encantaram com o vídeo “Loess”, da artista Marise Maués, que presenta várias fotos sendo reproduzidas durante horas, representando de forma poética a atuação do tempo na natureza.
Eles bombardearam os monitores de perguntas para tentar entender a estética de Maués. Até um desafio foi lançado: até onde a água chegaria no rosto da mulher? Alguns poucos acertaram.
Na mesma sala, a obra “Movement”, de José Diniz inspirou as crianças a relacionarem céu, terra e mar com sentimentos. “A água muda mais rápido que o céu, assim como nossos sentimentos, que se modificam”, inspirou-se Heitor Amaral, de 9 anos.
A instalação de Dirceu Maués, “Horizonte Reverso”, é uma aula daquelas que a gente guarda na memória de forma bem gostosa. As crianças não conseguiam conter a ansiedade e esperar o término da explicação da monitora e já queriam interagir com o mosaico de caixas que projeta a imagem do rio e das árvores de cabeça para baixo no papel vegetal. Eles achavam que era desenho, mas logo descobriram que se tratava de uma espécie de câmera.
“Dá para eu fazer uma dessa em casa? Que legal!”, descobriu a pequena Lorena, que teve que ir por trás da obra para se certificar que era isso mesmo que acontecia. “É feito com uma caixa, uma lupa e papel vegetal e forma uma imagem tão linda!”, constatou.
Em um mundo tão bonito quanto as encantadoras obras que estão no Prêmio Diário Contemporâneo, as crianças estariam treinando esse olhar mais sensível à arte constantemente e já teriam descoberto que na fotografia o olhar pode eternizar um momento.
(Diário do Pará)
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