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Tradição mantida por mulheres

A bióloga Rúbia Goreth Maduro, 29, nasceu na comunidade de Aritapera e conta que, para as populações ribeirinhas locais, as cuias fazem parte do cotidiano, auxiliando atividades como pegar água do rio, tomar banho, cozinhar, consumir alimentos, tirar água

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A bióloga Rúbia Goreth Maduro, 29, nasceu na comunidade de Aritapera e conta que, para as populações ribeirinhas locais, as cuias fazem parte do cotidiano, auxiliando atividades como pegar água do rio, tomar banho, cozinhar, consumir alimentos, tirar água da canoa, decorar as paredes das casas, vasos de plantas, entre outras. O repertório de produtos vai de fruteiras, copos e jarras até braceletes, farinheiras e roupas. As cuias pintadas, diferente das produzidas com incisões, foram introduzidas no repertório estético das artesãs no século 20, padrão incorporado atualmente em grande parte da ornamentação considerada tradicional.

“As cuias fazem parte da história, especialmente de Aritapera, e as comunidades têm uma relação não só cultural como econômica e de modo de vida. Vivem em harmonia com a natureza, extraem sem dano e seus produtos dão retorno até na renda familiar. Na verdade, ainda não é tão relevante a parte econômica, mas a de preservar toda uma tradição. No núcleo familiar, pelo menos as mulheres se dedicam a isso, principalmente no inverno amazônico, quando estão mais em casa. E elas costumam contar com a ajuda de mais alguém em determinadas etapas”, explica.

Para Rúbia, foi ao sair da comunidade e revisitar sua história com olhar estrangeiro que ela entendeu o valor das cuias. “Sempre que minha mãe tinha um tempo vago estava fazendo algo de grafismo, ornamentação. Eu via muito isso, cresci vendo de uma forma mais distante, mas sabia que fazia parte da rotina das famílias. Saí para estudar e voltei para trabalhar com elas. Acabei fazendo minha tese de graduação sobre isso. Passei a ver com outro olhar, a dar ainda mais valor. E isso é uma questão importante hoje”, ressalta.

A afirmação da bióloga se deve ao fato de que o artesanato das cuias acaba perdendo o interesse entre os jovens que conseguem estudar ou têm uma oferta de emprego fora da comunidade. Muitos saem sem aprender esse jeito único de produzir a cuia, ficando a tradição apenas com as mulheres que são mães de família e permanecem ao longo da vida na comunidade. A oportunidade desse saber popular ganhar destaque como patrimônio brasileiro pode ser uma forma de manter viva a tradição e o interesse das pessoas, ela acredita.

ARTE DA ARTE

O artista visual Elciclei Araújo realizou em 2015 uma releitura contemporânea das cuias, apresentando sua exposição “Pitingas: Cuias Contemporâneas”, quase uma homenagem à cultura das cuias pintadas da comunidade de Aritapera e afirmou estar feliz com o reconhecimento da arte realizada pelas artesãs. “Conheço a associação e através da Rúbia e da mãe dela, Lélia, tive esse contato com as cuias originais do Baixo Amazonas. É claro que faço um trabalho diferente do delas, mas as cuias sempre estiveram presente na minha vida também”, diz.

A mãe de Elciclei sempre vendeu comidas típicas, que tradicionalmente usam cuias como suporte. “Eu morava em Trombetas e a via vendendo tacacá e tendo esse contato. As cuias me chamavam atenção, tanto a forma como é utilizada como o modo de fazer. Foi uma coisa natural. Mas a ideia de torná-las obras de arte partiu de uma provocação. Uma loja de decoração afirmou que queria de mim algo mais regional. Fiquei pensando e lembrei da cuia, mas a queria de uma forma mais natural, contemporânea”, descreve.

E por todos os lados a torcida é para que o registro seja aprovado. “Elas (artesãs) se sentem mais satisfeitas pelo processo que construíram ao longo de uma década trabalhando como uma associação. E virar pauta de uma reunião que pode definir o futuro das cuias como patrimônio do Brasil nos deixa muito felizes”, comemora. Foi a comunidade onde Rúbia nasceu que fez o pedido de registro à representação regional do Iphan, para que as cuias se tornassem patrimônio cultural. “Quatro anos depois, saber dessa reunião é ter a esperança do reconhecimento mais amplo, para as cuias, para elas (artesãs) e para o estado todo”, finaliza.

COMO NASCE A CUIA

Velha conhecida dos índios, a cuia é fruto da cuieira, cientificamente chamada Crescentia cujete e em tupi “Kuimbúka”, que significa concha de tirar água do pote. A cuia nada mais é que a casca do fruto. Após ser retirada da árvore, ela passa pela retirado o miolo, secagem e eliminação das imperfeições, que são lixadas com as escamas do pirarucu. Depois a cuia é tingida com o “cumatê”, tinta natural vermelho-escuro, extraída da casca da árvore conhecida como axuazeiro ou cumatezeiro.

Depois as cuias são postas para secar sobre jiraus, onde ocorre a fixação da tinta. Mas não é uma fixação simplesmente pelo vento e o sol. Também é passada urina sobre a pintura, o que permite uma aderência maior da tinta nas peças.

“Na verdade é o vapor da urina que é utilizado. Um forro de palha impede qualquer contato direto das cuias com a urina, da qual apenas se extrai a amônia. Sem isso, ao passar água nela, a tinta sai”, explica Rúbia. Após esse processo, as cuias são lavadas e ficam prontas para a etapa de ornamentação.

A elaboração estética demanda cuidadoso trabalho por parte das artesãs, que dispõem de suas habilidosas mãos para compor as peças. Elas tanto podem fazer incisões, traçando alguns padrões indígenas, com um grafismo tapajônico, diferente do que se faz no Marajó, por exemplo, ou as ainda mais tradicionais pinturas. Cada mulher tem maior habilidade em uma destas etapas, então elas costumam juntas produzir uma leva com cerca de 15 cuias, dividindo entre si as etapas. O processo completo para fazer uma cuia leva em média três dias de paciência, habilidade e amor às tradições indígenas.

(Diário do Pará)

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