Restos inúteis, refugo, algo descartável. Esse é o significado de “rebotalho”, termo que o fotógrafo Ionaldo Rodrigues emprestou para dar título à exposição que abre neste sábado, na galeria Kamara Kó, com curadoria de Mariano Klautau Filho.
Nas imagens colocadas à visitação, Ionaldo capta fragmentos de Belém descartados como coisas sem valor que reaparecem com outro significado, como evidências de uma cidade que se tornam elemento para apreciação estética da fotografia contemporânea.
Algumas obras dessa série de imagens já tinham sido apresentadas em março, durante a exposição coletiva “Gestos, Relatos, Escritas e Autoficções”, em Tiradentes, junto a outros 17 artistas de todo o país, também com curadoria de Mariano.
Agora o público pode seguir as imagens numa narrativa completa, com a seleção feita com o auxílio do curador. “Há tempos tinha o incentivo da galerista Makiko Akao para realizar uma exposição na Kamara Kó e essa vontade ganhou força com a leitura e edição que o Mariano fez a partir de um grupo grande de imagens produzidas por mim em vários períodos”, comenta Ionaldo.
Ele explica que, associadas às imagens da série “Rebotalho”, o público também poderá conferir outras ligadas à “Botânica do Asfalto”, impressas pela técnica de cianotipia, e “Drenagem”, feitas em papel salgado. Ambos os processos foram incorporados ao trabalho do artista a partir de uma pesquisa realizada em 2007 com processos de impressão fotográfica do século 19, viabilizada por uma bolsa do antigo Instituto de Artes do Pará.
FOTO PARA A HISTÓRIA
O interesse de Ionaldo em experimentar a fotografia a partir de diferentes formas de produção e impressão veio de oficinas com Miguel Chikaoka, Eduardo Kalif e Patrick Pardini, na Fotoativa, a partir de 2004. Desde aquele período, a prática aliou-se tanto à formação em Sociologia quanto às reflexões sobre o pensamento fotográfico e a estética contemporânea, geradas em oficinas ministradas pelo professor Ernani Chaves.
Desse conjunto de referências, combinaram-se tanto o interesse pela linguagem fotográfica como o trânsito atento pela cidade que, segundo o texto da exposição assinado por Mariano Klautau onze anos depois das primeiras incursões artísticas, “interessa-se menos pela flanêrie, hoje demasiadamente romantizada, e bem mais pelo ato de presteza do geólogo ou do historiador”.
Em “Rebotalho”, o artista põe em perspectiva crítica os restos de uma paisagem urbana. “Trata-se de um arquivo em processo que oscila entre a bela imagem de uma cidade feia e uma catalogação extensa de signos sem história”, diz Mariano.
“Entre o documento crítico e a perplexidade, o trabalho se põe à prova do olhar do espectador. O artista se expõe em um caminho bifurcado no qual temos tanto a qualidade plástica operada pelas camadas de luz e cor que indiciam a cidade sem fisionomia, quanto o documento crítico que guarda o resíduo fenomenológico da relação terna com seu espaço de origem”, pontua o curador.
VEJA
“Rebotalho”, obras de Ionaldo Rodrigues
Onde: Kamara Kó Galeria (Trav. Frutuoso Guimarães, 611, entre Gen. Gurjão e Riachuelo)
Abertura: Hoje, das 11h às 16h
Visitação: Amanhã, das 10h às 18h, e de 16 de junho a 11 de julho, de terças a sexta, das 15 às 19h, e aos sábados, das 10h às 13h.
Quanto: de graça
(Diário do Pará)
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