O que do outro fica em nós? Qual a medida da experiência para os afetos? Como pensar a arte a partir dos diálogos e de vivências? As questões postas são norteadoras para os artistas Débora Flor, Malu Teodoro, Randolpho Lamonier e Wellington Romário, os quatro residentes do projeto “Fotoativa em Residência – Dois de Cá, Dois de Lá”, que apresentam hoje, a partir das 19h, a exposição “Um tanto de nós”, no Museu da Universidade Federal do Pará (Mufpa). A entrada é franca.
Com curadoria de Armando Queiroz e Alexandre Sequeira, a mostra terá fotografias, instalações, objetos e rastros das pesquisas poéticas de cada um dos artistas – como algo ainda em curso. Os curadores acompanharam o processo de construção da residência, contemplada pelo Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais – 11ª Edição, do Ministério da Cultura, e que durou dez semanas, em Belém, reunindo dois artistas paraenses e dois de outros estados.
Cada um desenvolveu suas pesquisas de maneira peculiar: o tempo era medida errática, as águas dos rios viraram símbolos, o Marajó deixou de ser apenas uma ilha e até uma cena de violência serviu de ímpeto criativo. Sequeira explica que exatamente por estarem tão abertos ao diálogo, os quatro foram selecionados para compor o projeto, que é mais uma etapa de experimentação da Associação Fotoativa.
“Compreendo a associação como um lugar muito além o local onde se descobre a fotografia, mas da experiência sensível com o mundo. Este projeto vem com a marca muito forte dessa natureza. Queríamos que a residência ocorresse a partir das relações e acabamos selecionando, de forma natural, aqueles que estavam mais abertos, sem propostas fechadas”, explica Alexandre Sequeira.
PROCESSOS
Débora Flor é natural da capital paraense e durante a residência foi em busca do contato com crianças. O universo pueril, puro e singelo trouxe para a artista experiências relacionais que acabaram se tornando as próprias obras. Do Marajó, a menina Dandara de apenas 8 anos, foi quem a guiou. Durante as estadas na ilha, ela testou cianotipia – que é a impressão fotográfica, uma técnica artesanal, e com a ajuda da menina pintou um lençol.
“Pedi para que ela deitasse e imaginasse onde estava. Ela disse: no mangue. Então, peguei umas folhas e botei ao lado. Mas na hora da revelação, que precisa de muito sol, choveu. E ainda tentamos botar um guarda-chuva, mas depois esperamos o tempo do sol e o resultado ficou inesperado”, conta Débora. A peça será acompanhada de uma ambientação da casa de Dandara e de um livro de histórias – quase fantásticas – dos sonhos dela.
Wellington Romário, que também é de Belém, aproveitou para pesquisar e pensar na residência como encontros e surpresas. É o que ele chama de “deslizamento, que existe no momento em que tudo se borra”. Reuniu em sua casa os interessados em falar de sonhos, da vida, de mentiras e tirar da experiência alheia dados sentimentais para suas criações.
“Eu costumo dizer que o deslizamento existe no momento em que tudo se dilui. E habitar o museu com o propósito de morar por uns dias e a partir daquele endereço e nele montar um trabalho mais ‘visível’ é um deslizar e tanto. Tudo meio sem borda definida e quem for vai sentir as andanças e os encontros que fomos tendo, que fomos tecendo com o outro e com as tantas paisagens”, acredita.
Já Malu Teodoro é natural de Porto Velho, Roraima. E depois de dois anos em São Paulo, com um tempo no México, quis voltar à região Norte. A residência foi o pontapé para o despertar de muitas lembranças e sentimentos sobre a sua origem. Era a hora de perder a segurança diante das constatações já feitas.
“Durante o tempo em São Paulo, trabalhei muito com fotografia e vídeo, me sinto segura com isso. E aqui busquei perder essa certeza quanto ao fazer artístico, então, experimentei muito. Fiz cianotipia, apropriação de imagens. Mas o que mais me marcou foi o viver. Comentei com a minha mãe sobre a ida para Mosqueiro e ela disse que lá comeu uma caldeirada. E quando comi, pareceu mais gostosa”, revela.
Randolpho Lamonier, que é mineiro de Contagem, mas mora em Belo Horizonte, precisou de tempo para se saber em Belém. A residência foi um pretexto para estar aqui. O que deve haver lá? Ele quis saber. E foi pelas ruas e becos, do encontro com os marginais que se colocou à frente da capital. Um dia, uma faca, um assalto no maior cartão postal da cidade, o mercado do Ver-o-Peso. A experiência violenta trouxe certa sobriedade.
“Eu estava lá e fui assaltado. Depois quis saber quem era aquela pessoa. Cheguei a falar com outras pessoas, que também são ladrões de lá, e descobrimos quem havia levado meu celular. Eu só queria de volta meu chip que tinha há mais de dez anos. Mas vi que isso não tinha sentido. Mas de qualquer forma passei a buscá-lo. Tomei banho com ele duas vezes no banheiro público do mercado. Ele tem uma tatuagem no braço de um terço e é apelidado de ‘Oreia’”, conta.
(Diário do Pará)
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