Quase uma década se passou desde que a artista visual Roberta Carvalho começou, de forma experimental, o projeto “Symbiosis”, que propõe um novo olhar para a natureza e a população amazônida. Quem passa pela rua não espera ser arrebatado por aquela cena, de começo estranha, depois intrigante e poética.
Uma imagem é projetada não em uma parede ou em uma fachada histórica, mas nas copas das árvores. Rostos e corpos vão se misturando à natureza, fazendo jus à etimologia da palavra simbiose, reapropriada de forma poética pela artista.
A instalação torna ser humano e natureza uma coisa só, relembrando um passado distante onde esse entendimento existia. O público poderá ver a intervenção neste sábado, às 19h30, na Praça Batista Campos, como parte da ação “Intervenções Visuais na Cidade”.
“Symbiosis” é a beleza da natureza sob a intervenção da tecnologia, tendo como resultado uma série de ações de projeção digital videográfica ou fotográfica nas copas das árvores nos espaços públicos da cidade.
Para Roberta, realizar uma intervenção em local público é uma das coisas mais interessantes nesse processo, diferente do impacto que uma obra ou intervenção tem em um ambiente fechado como uma galeria.
“Na rua você insere sua mensagem no fluxo das pessoas e não o contrário”, diz a artista visual, que gosta das reações surpresas e diferentes de cada passante.
Após o susto, a admiração. Assim foi quando em 1895 foi exibido o filme “A Chegada do Trem na Estação”, quando as pessoas pensaram que o trem poderia atropelá-las. A intervenção de Roberta não atropela, mas encanta.
A efemeridade está presente na intervenção proposta por ela, tanto nas imagens que se apagam quando a luz do projetor finda quanto nas pessoas que permanecem ou não ao se depararem com as projeções. Porém, a força de sua mensagem consegue estender seu tempo de vida, através de seu caráter poético e reflexivo.
“Sei que nem sempre as pessoas vão perceber a intervenção pelo lado político ou contestador. Se olharem de forma poética já é o bastante, pois a poesia do momento dá conta de transmitir a mensagem”, afirma Roberta.
Tudo começou antes do “boom” das videoprojeções que ganham espaço no cenário belenense. A artista visual já ousava um caminho pela arte-tecnologia, de forma experimental, e até rudimentar.
Ela viajou para comunidades ribeirinhas como a Ilha do Combu e Murucutu. Nesses lugares, interagiu com os moradores através de oficinas de arte e conversas.
Foi conhecendo as pessoas mais velhas do lugar, entendendo a importância de cada uma delas na construção da identidade daquela comunidade, e enxergando a natureza através do olhar deles, captando seus rostos, traduzindo seus sentimentos.
Além da face poética que o trabalho carrega, ele tem uma carga política, presente na maioria das intervenções urbanas. Segundo Roberta, o trabalho tem várias camadas e uma delas é dar visibilidade ao povo amazônida. “Comunidades como o Combu estão tão perto e ao mesmo tempo longe, pois eles vivenciam uma realidade diferente da que nós, da cidade, vivenciamos”, diz a artista.
Roberta foi vencedora de diversos prêmios, entre eles o Prêmio Diário Contemporâneo (2011). Foi Menção Honrosa no Salão de Pequenos Formatos (2006), e também venceu o Prêmio Microprojetos da Amazônia Legal (2010) da Funarte (MinC), que levou o projeto Symbiosis para ribeirinhos na Amazônia, além do Prêmio Funarte Mulheres nas Artes Visuais (2013).
Seu projeto já circulou por vários lugares do Brasil, entre eles, o Rio de Janeiro (Festival Multiplicidade). Também passou pela Martinica e Barcelona (como parte da exposição coletiva “Brasil Tierra Prometida”).
Além disso, a artista participou do projeto Grande Área da Funarte, na programação para a Copa do Mundo, e do Festival Paraty em Foco, um dos maiores festivais de fotografia do mundo, onde recebeu grande destaque sob o olhar de artistas e curadores internacionais. Agora a intervenção artística aporta em Belém, sua capital de origem.
Aprecie
Intervenções Urbanas na Cidade: Projeto Symbiosis de Roberta Carvalho
Quando: hoje, às 19h30
Onde: Praça Batista Campos
Quanto: de graça
(Diário do Pará)
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