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Eventos homenageiam poeta Max Martins

Em junho de 1992, Max Martins lança em Belém um memorável experimento poético para os tempos corrompidos pela ansiedade. Mais do que um título, um projeto, uma ética, uma alternativa. “Para Ter Onde Ir”, um composto de poemas escritos na década de 1980, d

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Em junho de 1992, Max Martins lança em Belém um memorável experimento poético para os tempos corrompidos pela ansiedade. Mais do que um título, um projeto, uma ética, uma alternativa. “Para Ter Onde Ir”, um composto de poemas escritos na década de 1980, de diferentes e variados lugares para onde o poeta viajou e até mesmo chegou a residir por breves temporadas.

Esse procedimento de empreender viagens reais e não apenas imaginárias, leva filosoficamente a escrita de Max a enfrentar para além da continuidade e fim da viagem – um novo limiar e travessia: um outro extravio. Não só da nova fase da vida do poeta (uma vida que será, em verdade, toda escrita como livro de poesia – a linguagem que sempre buscou para si), mas também do que constitui e faz perpassar – imagem por imagem, um imprevisto e desorientado composto poético de temas, planos, impulsos, fragmentos que se movimentam, crescem e buscam independência em relação à obra realizada pelo poeta até ali.

Na década de 1980, Max entrava na casa dos 60 anos: quando o fim toma o lugar do todo de uma vida, mesmo da vida intensa do poeta. De início, ele publica dois livros arrojados: “O Risco Subscrito” (1980) e “A Fala Entre Parêntesis” (1982), escrito com Age de Carvalho. Um ano depois, exatamente na noite de 15 de dezembro de 1983, uma terça-feira, lança no hall do Theatro da Paz, sua obra-prima: “Caminho de Marahu”. Um acontecimento definitivo para o poeta e o espírito da cidade. Dizia-se naquela semana: “Todos lá. Todos lá”. E “todos” foram lá. Infelizmente faltam registros que remetam àquela noite. Contudo, há uma foto antológica do lançamento de “A Fala Entre Parêntesis”, nela se pode encontrar a confirmação do grande interesse que a poesia de Max despertava e como conquistava progressivamente não apenas espaço nas estantes, mas também o coração e o imaginário dos leitores. Um tempo pouco provável nos dias de hoje para a poesia em Belém, depois do desaparecimento definitivo do poeta, e pelas modificações introduzidas em nossa vida cotidiana, dominada pela tecnologia.

Max completava 60 anos. O vivido vivo, seu labirinto. E esse contexto irá se fixar em “Para Ter Onde Ir”. O poeta sabe que enfrenta a conclusão e dirige-se atento para ela – e começa a escrever um final, com tocante rudeza e sensibilidade. “Aos sessenta anos-sonhos de tua vida (portas/que se abrem e fecham/fecham e abrem/carcomidas)/ferve/a gordura e as unhas das palavras”. O poema “O Caldeirão” torna explícito, enfatiza, estrutura através de um viés simbólico/cultural uma espécie de somatória ou “fervura” do que foi o transcurso da vida do poeta. Ele não hesita em cindir, entornar o caldo, derramar o próprio sangue para preservar o apego (ou destino) à poesia e à lida poética. Quebra e enterra a obra para que esta talvez venha a ser tão original quanto sua árdua e improvável caminhada pelo mundo.

O poeta sente o passar dos anos. Sabe que a obra não pode envelhecer/fenecer, nem repetir-se deliberadamente. E quer dar a ela mais do que os traços ou rastros do “magro” e maravilhosamente “estranho” poeta de outrora. Para isso pensa e investiga as direções a seguir. Não se orienta mais pelos “excessos celestes” (poema ”Indo para o Sul”) como se todo destino fosse tão bom quanto qualquer outro. Os antigos saberes da natureza selvagem se tornam imensamente necessários. Da poesia de Edmond Jabès ao I Ching. É deles que coleta o que julga aconselhável para movimentar a escrita de um teor provisório.

Há um lugar, mas o que se almeja é o lento espaço. O ponto fulcral. Composto de bordas, desvios, fronteiras traçadas e apagadas, onde talvez se possa reengendrar uma existência simples, modesta e ao mesmo tempo livremente criativa. Uma espécie de viagem como de um passeio a pé: as pessoas que o poeta encontra, os lugares que visita, as reflexões literárias e filosóficas instigadas pelo que vê, sente e leva na mente por todo o caminho. Aí o espaço surge como uma espécie de palimpsesto de suas eloquentes, precisas e, por vezes, lúgubres meditações. O poeta torna-se secamente espirituoso a respeito da vida, velhice, decadência, morte, luto. E sobre memórias, esquecimentos, continuidades, resulta o entendimento de que nada permanece como era, nem desaparece completamente.

É sempre assim: a grande poesia parece tão improvável, tão inviável, tão ingênua. Contraria probabilidades hilariantes. Fosse um filme seria captado em granulado cinzento-e-branco para compor com as fotografias que ilustram o livro com imagens do poeta, feitas por Béla Borsodi; muito embora, de vez em quando, pequenos “flashes” coloridos de paisagens sejam impostos sobre essas imagens monocromáticas. Assim, forma-se o rosto de um outro que escreve o livro, como há também o rosto de um outro que o lê, dialogando entre si. E esses seres reencontrados, variados, “outrados” e diversos também são permanentemente expostos nos poemas como as entranhas de um mundo que o poeta inventa e revira até o dia derradeiro.

HOMENAGENS AO POETA

Amanhã, a Fundação Cultural do Pará presta uma homenagem ao poeta criador da Casa da Linguagem, que dá nome inclusive ao histórico coreto central do espaço que é referência em leitura e literatura , o coreto que fica dentro da Casa foi nomeado em homenagem ao poeta e escritor.

“Resolvemos fazer uma singela homenagem para abraçar o Max com poesia. Todos os filmes sobre ele serão exibidos ao longo do dia no auditório. As pessoas vão poder visitar a Casa e, no coreto, vamos fazer uma instalação com uma rede e um microfone, onde o dia inteiro, o visitante pode homenagear o Max, lendo poemas ou dando um depoimento”, convida Elaine Oliveira, coordenadora de Literatura e Expressão de identidade da Fundação Cultural do Pará, informando que o evento já é uma introdução às comemorações pelos 90 anos do poeta, em 2016, para quando estão sendo planejadas exposições e seminários – inclusive com a participação de professores doutorandos que estão fazendo pesquisa sobre o artista na Universidade de São Paulo – USP.

Veja a programação:
- “Microfone aberto” para leitura de poemas de Max Martins. De 10h às 18h, no Coreto Max Martins.
- Apresentação dos vídeos “Fazer Como os Pássaros – Max Martins” (Projeto Memórias/Unama) às 10h e 15h30; “A Rede” (direção James Bogan e Diógenes Leal) às 10h e 15h30; “A Sombra do Silêncio” (Núcleo de Oficinas Curro Velho), às 10h e 15h30; “Travessia: A Poética das Águas” (direção Jack Nilson) às 10h, e “O Tal Caminho” (direção Danielle Fonseca) às 10h. No auditório.
- Falas sobre Max Martins: Salier Castro e Jack Nilson, diretores do vídeo “Travessia: A Poética das Águas” e Danielle Fonseca - “O Tal Caminho”, às 16h, no auditório.
- Encerramento com a participação de Paulo Moura, ás 17h, no Coreto.

Roda poética sobre Max Martins
Quando: Amanhã, de 10h às 18h
Onde: Casa da Linguagem (Avenida Nazaré, esquina com Assis de Vasconcelos)
Quanto: Entrada franca

(Diário do Pará)

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