Em muitas lendas, a natureza se confunde com o homem. Sempre histórias pitorescas, cheias de encantamento, elas contam a verdade de um povo e atravessam épocas com enredos cheios de metáforas.
Elas estão na cultura oral, nos filmes, nos livros e também são inspiração constante para os desfiles de carnaval. É exatamente uma lenda a inspiração da escola de samba X-9 Paulistana para o Carnaval de São Paulo de 2016, que homenageia Belém com o enredo “Açaí Guardiã: do Amor de Iaçá ao Esplendor de Belém do Pará”.
A escola está no grupo especial e se apresentará no dia 6 de fevereiro, no sambódromo do Anhembi.
A lenda do açaí conta a história de uma tribo indígena que sofria com a escassez de alimentos e, para enfrentar o período difícil, executava cada criança que nascia na aldeia.
O cacique acreditava que controlar o aumento populacional seria eficaz para enfrentar o problema, não se opondo nem à execução do próprio neto, filho de sua filha mais nova, Iaçá. A índia ficou tão desesperada com a morte do rebento que se pôs a chorar aos pés de uma palmeira, após ter uma visão do filho em pé ao lado da mesma árvore.
Chorou até morrer. Suas lágrimas semearam o fruto que hoje conhecemos como açaí, um anagrama de seu próprio nome, que até hoje alimenta os paraenses.
O samba-enredo da X-9 Paulistana apresentará essa lenda para o público e depois contará um pouco dos momentos históricos de Belém, interligando cada um deles pelo consumo do açaí, como fonte de força e coragem para os guerreiros de todas as épocas.
Dessa forma, o açaí será tratado não só como fruto que alimenta, mas como símbolo cultural, que carrega um punhado de significados.
Afinal, a alimentação é uma necessidade biológica, mas a forma como cada povo se relaciona com os alimentos geram fenômenos socioculturais. E é o que se observa na relação do paraense e de outros povos com o açaí. O enredo da Escola fala sobre isso, citando como a iguaria é usada de diversas formas na atualidade, virando matéria-prima para produtos de beleza e energético para os sarados em outros lugares do Brasil.
“Tudo começou quando conheci o açaí através de um amigo aqui em São Paulo. Fiquei curioso e comecei a pesquisar sobre o fruto e, claro, acabei conhecendo mais sobre Belém. A história da cidade é tão rica que vi um leque de opções para trabalhar no carnaval. A cidade também está perto de completar 400 anos, então juntei tudo isso”, conta o carnavalesco da X-9, André Machado.
“Acho interessante como o açaí é apreciado, do mais pobre ao mais rico. Além disso, o fruto faz parte da história de desenvolvimento da cidade, por isso na sinopse deste ano, a ideia foi contar momentos importantes de Belém, mas sempre mostrando que o açaí está presente. É uma satisfação homenagear um lugar de cultura tão rica, com artistas incríveis”, diz o carnavalesco.
André trabalha no mundo do carnaval desde os 13 anos e já atuou não só como carnavalesco, mas como figurinista, passando por várias escolas de samba, como a Caprichosos de Pilares, Imperador do Ipiranga, Mocidade Alegre, Nenê de Vila Matilde, Império de Casa Verde, Pérola Negra e Unidos dos Morros. Este será seu segundo ano como carnavalesco da X-9, que existe desde 1975.
Segundo ele, o desfile da X-9 promete emocionar e levar elementos de Belém para a avenida, relembrando lugares e manifestações importantes, como o Forte do Presépio, o Mercado do Ver-o-Peso, o Círio de Nossa Senhora Nazaré, as famosas mangueiras e a figura do caboclo. As alegorias e fantasias também prometem um show à parte, usando elementos como a semente do açaí e a folha do açaizeiro.
Escola faz concurso de samba-enredo
O samba-enredo ainda será escolhido. Para isso, a X-9 promoverá um concurso em que espera, inclusive, a participação de compositores do Pará.
Sobre as participações especiais, o carnavalesco adianta que as cantoras Fafá de Belém e Gaby Amarantos foram convidadas pela escola para desfilar, mas ambas ainda não confirmaram presença, por conta da agenda de shows.
Em 2013, as duas participaram do desfile da escola carioca Imperatriz Leopoldinense, que também homenageou o Pará, com o enredo “Pará, o Muiraquitã do Brasil”, que exaltava a cultura paraense, com referências como o Mercado do Ver-o-Peso, o tecnobrega e o Círio de Nazaré. A escola acabou em quarto lugar.
O Estado também foi fonte de inspiração para o carnaval carioca outras vezes, em diferentes épocas. Em 1998, o enredo “Pará: o Mundo Místico dos Caruanas nas Águas do Patu-Anu” levou a Beija-Flor à vitória, falando especialmente sobre a cultura marajoara.
O Círio também foi exaltado outras vezes: em 2004, pela Viradouro (“Pediu Pra Pará, Parou. Com a Viradouro, Para o Círio de Nazaré Eu Vou”) e em 1975, pela Estácio de Sá.
Um dos mais inesquecíveis carnavais e que até hoje tem o refrão entre os mais lembrados pelos amantes de samba-enredo está com “Peguei o Ita no Norte”, de 1993, quando a Acadêmicos do Salgueiro cantou a saída de migrantes de Belém em direção ao Rio de Janeiro. O refrão dizia: “Explode Coração na Maior Felicidade. É Lindo meu Salgueiro, contagiando e sacudindo essa cidade” e até hoje serve de inspiração às torcidas de futebol.
Pará nas garras do tigre
E não é só no carnaval paulista que os 400 anos de Belém vão render homenagens fora da capital paraense. A escola “Garras do Tigre”, de Nova Iguaçu, uma das agremiações do grupo de acesso do carnaval carioca, também falará sobre a cidade em 2016, com o samba-enredo “Belém do Pará, 400 Anos, Um Show de Brasilidade”.
A ideia de falar sobre Belém foi do carnavalesco da escola, Laércio Belém, que pelo nome já mostra sua origem. Para satisfazer o desejo de festejar sua terra querida, Laércio levou a ideia ao presidente da agremiação, Washington Martins, que se apaixonou pela história da cidade.
“O enredo fala de Belém, principalmente nos aspectos históricos e culinários. Estamos tendo o apoio de grupos indígenas que moram aqui no Rio, para não cairmos no erro de representar o índio de uma forma americanizada”, diz o presidente da escola.
Ano que vem, a Garras do Tigre planeja levar à avenida 600 brincantes, na maioria jovens provenientes das oficinas de passistas, mestre-sala e porta-bandeira ofertadas por eles como uma forma de combater a evasão escolar e a violência em Nova Iguaçu.
“Não somos só uma escola de samba, nos preocupamos com a parte social, principalmente porque vivemos em uma comunidade muito carente”, conta Washington.
(Diário do Pará)
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