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Chiquita é barrada na Festa do Círio

domingo, 28/06/2015, 13:07 - Atualizado em 28/06/2015, 20:10 - Autor:

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Chiquita Bacana foi uma personagem famosa das marchinhas de Carnaval. Aqui no Pará, a famosa “Chiquita Bacana” que “só faz o que manda seu coração”, existencialista e rebelde, ganhou “filhas”. Foi assim que surgiu, na década de 1970, a festa “Filhas da Chiquita”, também chamada popularmente de “Festa da Chiquita”, criada como uma celebração profana paralela ao Círio de Nossa Senhora de Nazaré, mas quase sempre envolta em polêmicas com a diretoria da festa religiosa, por acontecer logo depois da passagem da imagem da santa durante a procissão da Trasladação.


Em 2004, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) incluiu a Festa da Chiquita no processo de tombamento do Círio como patrimônio imaterial da humanidade, por considerar que o Círio de Nazaré é fruto de uma relação entre o sagrado e o profano, elementos que não são opostos, mas que se entrelaçam muitas vezes de maneira imperceptível.


Mas este mês, um projeto de lei foi apresentado na Câmara Municipal de Belém propondo que o Círio seja reconhecido como patrimônio cultural da cidade.


Diferente da ideia do Iphan, o projeto do vereador Victor Cunha (PTB), no entanto, só englobava as procissões do calendário oficial da festividade. O adendo que incluiu outras manifestações como o Auto do Círio e a Festa da Chiquita no projeto veio por parte da vereadora Sandra Batista (PCdoB).


No entanto, um veto do prefeito Zenaldo Coutinho excluiu a Festa da Chiquita do texto final. O projeto de lei foi aprovado no último dia 15, incluindo a romaria rodoviária, a romaria fluvial, a Trasladação, a procissão do Círio, a romaria do Recírio, a berlinda, os carros que participam da procissão, a corda dos promesseiros e o Auto do Círio.


Na mensagem de justificativa aos vereadores, Zenaldo Coutinho argumenta que não considera a Festa da Chiquita “elemento integrante das festividades religiosas, pois não faz parte da programação oficial do Círio. O fato de ser uma festa tradicional, e que ocorre às vésperas da maior procissão da cidade, não a faz elemento essencial do Círio”, diz o texto do veto.


A vereadora Sandra Batista discorda. Para ela, a Chiquita faz parte do Círio e deve ser tratada como uma manifestação cultural de cunho social e antropológico. “O Círio não é só uma manifestação religiosa, ele tem seu caráter profano e a Chiquita deve ser respeitada como a expressão de um povo, assim como o Auto do Círio”, opina.


Na opinião da vereadora, existe uma onda conservadora na Câmara Municipal que fez com que a proposta desde o início excluísse a festa por conta de um sentimento homofóbico. “Se a ideia fosse transformar o Círio em patrimônio religioso, eu não falaria nada, mas quando se fala em patrimônio cultural, se englobam mais coisas. Lamento muito que o prefeito tenha tido essa concepção preconceituosa”, desabafa Sandra.


A reportagem não conseguiu falar com o vereador Victor Cunha, autor do projeto, sobre a exclusão.


As tensões em torno da Chiquita não são novidade. Esse foi um dos temas, inclusive, que permeou o documentário “As Filhas da Chiquita”, de Priscilla Brasil. Identificada ao longo dos anos como um ato de resistência do movimento LGBTIQ (Lésbicas, Gays, Bis, Transgêneros, Intersexs e Queers), a festa enfrenta reações de quem acredita que ela destoa do clima do Círio.


Para o organizador da festa, o cantor Eloi Iglesias, a maior motivação é o preconceito. O mesmo motivo apontado por ele para a Festa da Chiquita ter ficado de fora da lei que reconhece o Círio de Nazaré como patrimônio cultural de Belém.


“Mesmo que seja um momento em que o Papa esteja tentando agregar todos, a Igreja daqui continua muito conservadora. Além de fomentar o ódio entre as pessoas, estamos retrocedendo. Estamos sendo crucificados diariamente, falta tolerância e respeito com o diferente” afirma Eloi.


E minimiza o veto. “A gente está no registro mais importante, feito pelo Iphan, um órgão sério de pesquisa. Esse tombamento da prefeitura não é sério, não tem assinatura de um historiador, não teve debate, foi uma ação de cima para baixo”, diz o cantor, que acredita que não foi levado em conta que o Círio não é apenas uma manifestação religiosa.


O DIÁRIO procurou a Diretoria da Festa do Círio de Nazaré para comentar a questão, mas nenhum representante quis se manifestar, alegando que não haveria o que falar sobre o assunto, já que a Chiquita não faz parte da programação oficial da festa religiosa.


O começo da segunda década do século 21 trouxe para a música paraense um fenômeno de ritmos que mostram que a região tem sua música eletrônica. Uma variada cartela de estilos formam esse movimento com variações do brega. Entram nessa lista o melody, tecnomelody e eletromelody, ritmos que arrastam multidões às festas de aparelhagem no Pará e que viraram a cara do Estado.


Mas e se um desses ritmos virasse patrimônio cultural imaterial do... Amapá? É isso que o deputado Antônio Furlan (PTB-AP) tentou fazer através de um projeto de lei que propunha a transformação do ritmo musical melody em patrimônio imaterial amapaense, revoltando paraenses que se sentiram logrados e amapaenses, que questionaram a proposta por não verem no ritmo uma manifestação tradicional de seu Estado.


Na última segunda-feira (22), representantes do “Marabaixo”, patrimônio cultural do Amapá desde 2008, se manifestaram contra o projeto. Eles argumentaram que o melody, apesar de ter uma cena forte no Amapá, que consome e produz música do estilo, é uma manifestação paraense. “O melody não tem raiz nenhuma com o Amapá. Ele é um movimento que veio do Pará. Patrimônio é algo ligado às nossas raízes. Que ligação o melody tem com a nossa cultura? Essa é uma proposta que afronta a cultura do Amapá, ferindo nossa história”, declarou a presidente da Associação Cultural Marabaixo do Laguinho, Daniela Ramos, para o portal Seles Nafes.


Segundo os artigos 215 e 216 da Constituição Federal de 1988, o patrimônio cultural imaterial engloba as práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer, celebrações, formas de expressões cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas, em lugares como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas. Diante da lei, o problema é definir o que cabe nessa definição, e que merece ser resguardado como parte da identidade cultural de uma comunidade.


Diz, também, a lei que define as regras para a definição de patrimônios protegidos que uma manifestação, para merecer tal título precisa estar enraizada no cotidiano das comunidades, vinculado ao seu território e às suas condições materiais de existência, além de ser transmitido de geração em geração, com constante recriação e apropriação pelos membros dessa comunidade.


Pará e Amapá têm uma história juntos, isso não dá para negar. Até setembro de 1943, as terras amapaenses pertenciam ao Pará, quando foram transformadas em território federal, e só bem depois se tornaram um Estado independente. Segundo o músico Manoel Cordeiro, que passou grande parte da infância e da adolescência no Amapá, musicalmente os dois lugares ainda estão de certa forma conectados, até porque o melody tem uma cena expressiva no Amapá.


“Estou acompanhando o debate e concordo que o ritmo seja paraense, mas vejo um ponto positivo em tudo isso. É muito bom ver como os artistas amapaenses ligados ao melody conseguiram se mobilizar. Espero que outros gêneros se mobilizem por lá para pleitear outras conquistas. Não quero debater se é justo ou não, quero apenas apontar que isso serve de exemplo para outros grupos, mostrando que a união é importante nessas questões”, opina Manoel Cordeiro, um dos responsáveis por introduzir a lambada no Pará.


Para William Love, vocalista da Gang do Eletro, a notícia da possibilidade do melody se tornar patrimônio imaterial do Amapá soa de início engraçada. “Sério que tá acontecendo isso? Não acredito, só pode ser um engano, porque é muito absurdo”, fala Will espantado.


“O ritmo é criado aqui no Pará, temos como comprovar isso. O Amapá tem uma cena de melody, mas isso é por conta de uma popularização do ritmo”, diz o integrante da Gang do Eletro, que já se apresentou várias vezes no Amapá em grandes festivais como o “Quebramar”.


Depois de toda a polêmica que repercutiu principalmente nas redes sociais, com direito a sátiras, o deputado Furlan decidiu rever o teor do projeto de lei. Agora a proposta é tentar tornar a Federação Amapaense dos Fãs Clubes e Equipes uma entidade de utilidade pública. O projeto deve ir à votação nesta segunda-feira, 29, e se for aprovado, permitirá à Federação assinar convênios oficiais e receber recursos públicos para desenvolver atividades sociais.


SOUND SYSTEM AMAZÔNICO


Uma variada cartela de estilos formam esse movimento “eletrônico” típico do Pará. O Estado virou um laboratório de experiências sonoras e, ao falar de melody, não se pode esquecer de falar do brega, que teve um de seus momentos de auge na produção e consumo no final da década de 1970 até a metade da década de 1980. Nessa época os compositores e artistas do gênero ganharam projeção nacional e vendiam um número assustador de discos.


Com o tempo a tecnologia foi tomando conta das produções, e foram surgindo as vertentes eletrônicas do brega, influenciadas pelas produções internacionais, firmando a estrutura de uma espécie de “sound system amazônico”.


Surgiram as “aparelhagens”, que hoje são festas com vários tipos de recursos sonoros e visuais, amparadas por uma superestrutura de som. Nessas festas, o “melody” está sempre presente, com uma das principais tendências do tecnobrega, com músicas cheia de tecladinhos inesquecíveis e teor romântico, na maioria das vezes embalada por um vocal feminino.


Com tudo isso, nos resta saber se os paraenses, incomodados em ver o melody migrando a divisa do Estado, vão querer assumi-lo como coisa sua para ser repassada de geração em geração.


Pássaro Junino ainda busca registro


Popular. Essa é uma das características do Pássaro Junino, manifestação paraense que existe há mais de cem anos, onde os brincantes encenam histórias cheias de conflitos familiares, vingança, dramas de amor, traições, tudo temperado por uma veia cômica com momentos de dança e canto.


Tanto os Pássaros Juninos, como os Cordões de Bichos são tradições que sobrevivem, mas que precisam que a


sociedade fique atenta à preservação desse teatro popular.


Para isso, os guardiões de pássaros (responsáveis pelos grupos), por meio de um abaixo-assinado, pediram políticas culturais para apoiar os grupos dessa manifestação genuinamente paraense. Em 2009, o professor João de Jesus Paes Loureiro redigiu uma carta que foi enviada ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan ) solicitando o registro da manifestação como patrimônio cultural imaterial.


Em 2013, a superintendência do Iphan no Pará lançou um edital para iniciar o estudo do Pássaro Junino com a participação da Associação Folclórica do Pará e dos guardiões dos pássaros, com um projeto de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo ao Desenvolvimento da Pesquisa (Fadesp) e encabeçado pelas professoras da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (Etdufpa), Olinda Charone e Inês Ribeiro.


Na última quarta-feira, Inês Ribeiro fez a entrega de um resultado parcial da pesquisa para o Inventário Nacional de Referências Culturais sobre os Pássaros Juninos, com a presença dos guardiões dos grupos. Foi a segunda reunião feita com eles desde o início de levantamento de dados.


Entre os dados apresentados, estão a história, as características e o acervo fotográfico envolvendo ensaios de figurino dos pássaros em Belém e outros lugares próximos.


A pesquisa também analisou outros aspectos da manifestação, como a constituição do texto dramático, o processo de construção dos ensaios nos barracões, das revoadas de pássaros e dos espetáculos realizados em teatros.


A previsão é que a primeira parte do levantamento seja entregue ao Iphan em outubro. Se a pesquisa for aprovada, ela continuará para abranger todo o Pará, com o objetivo de comprovar que o Pássaro Junino é um patrimônio cultural imaterial que merece ser preservado.


“A Belém do passado recebia companhias teatrais do Rio de Janeiro, do Teatro de revista, mas só quem tinha poder aquisitivo tinha acesso. Outra paixão eram as rádio novelas. Minha mãe adorava. E essas coisas foram influenciando os criadores de pássaros, foi uma espécie de mimese”, conta Inês, destacando o luxo presente nos figurinos dos espetáculos, que dispensam cenários elaborados.


Segundo a pesquisadora, o Pássaro Junino reflete a identidade do povo paraense. “Ele é um bem cultural que preserva a história do homem paraense. Além de ser a única manifestação de todo o Brasil que tem um teatro próprio, não foi importado de nenhum lugar”, afirma.


Para Inês, transformar os Pássaros em patrimônio cultural ajudará não só os grupos, mas também dará força para reconstruir o Teatro São Cristóvão, referência na apresentação de Pássaros nas décadas de 1950 a 1970.


(Diário do Pará)

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