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Pepeu: música para ultrapassar o tempo

Quando se tenta traçar um panorama musical brasileiro, uma das primeiras palavras que surgem é “diversidade”. Uma reunião de infinitas influências que deixa o resto do mundo interessadíssimo no que tem sido produzido para as bandas de cá. Samba, afoxé, ca

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Quando se tenta traçar um panorama musical brasileiro, uma das primeiras palavras que surgem é “diversidade”. Uma reunião de infinitas influências que deixa o resto do mundo interessadíssimo no que tem sido produzido para as bandas de cá. Samba, afoxé, carimbó, chorinho, muita malemolência e quentura dos ritmos do Pará e da Bahia são a cara do projeto “Conexão Brasil”, que celebrará a diversidade brasileira e a amizade entre Marco André e Pepeu Gomes e os percussionistas do Trio Manari, terça e quarta-feira, no Teatro Margarida Schivasappa. Antes dos shows, haverá uma oficina musical gratuita com os músicos, amanhã.

O DIÁRIO conversou com Pepeu Gomes, considerado um dos dez melhores guitarristas do mundo na categoria world music, e um dos criadores de uma das bandas mais impactantes do Brasil nos anos 1970, os “Novos Baianos”, que trouxe para a MPB uma estética anarquista e ousada, capaz de misturar bossa nova com riffs influenciados por Jimi Hendrix. Confira a entrevista exclusiva com Pepeu:

O projeto Conexão Brasil surgiu por conta da amizade entre músicos ou por uma inquietação de experimentar musicalmente?

Foram as duas coisas. O Marco André era meu amigo há muito tempo, a gente tinha que fazer alguma coisa junto. Então fizemos um show experimental e deu certo. Foi no Rio de Janeiro, em um teatro pequeno [acesse o QR Code abaixo e veja o vídeo do show na Caixa Cultural, junto com Pedro Luís]. A vibe foi muito boa e a gente viu que a conexão entre Belém e a Bahia funcionava e ficou superlegal.

Você tem uma história musical de experimentações. Nessa diversidade musical brasileira, o que mais tem te influenciado?

Gosto de experimentar tudo, sou um pesquisador, um alquimista musical. O tipo de cara que mistura Hendrix com Jacob do Bandolim. Isso sempre fez parte da minha carreira, da minha concepção e formação musical. Nos 10 anos que estive nos Novos Baianos, nunca tive medo de misturar, acho que a gente tem que cultivar a não vergonha de ser brasileiro.

Existe um preconceito entre os músicos em relação a misturar gêneros?

Se o músico brasileiro quer atravessar oceanos, tem que se atualizar e misturar as coisas. Somos o baú mais repleto de novidades do planeta, todo mundo vem aqui pegar influências e imagina só, nós temos isso de graça, dado pelos grandes mestres dos anos 1940, 1950 e 1960, um legado muito rico harmônica e ritmicamente. Sempre quis conquistar o mundo, sabe? [risos]. Voltei recentemente do Rock in Rio Las Vegas e a gente percebe o interesse pela música brasileira. Falo direto nos meus workshops que melhor do que estudar uma técnica, você deve inventar uma, investir na sua personalidade.

Você já conhecia música paraense antes do projeto?

Sim, com certeza. A música paraense é uma coisa que quero levar para fora. Sou muito fã do Manari, é um retrato atual da música de Belém, é muito forte ritmicamente falando e naturalmente falando. O mundo está precisando dessa naturalidade. A música está muito comercial, ela está se colocando de um jeito que está deixando de ser acessível. Todo mundo quer fazer música muito complicada. Temos que voltar para às nossas regionalidades. A internet tomou conta do planeta, a gente não tem mais controle da nossa obra, então temos que pensar muito no que estamos fazendo e fazer o melhor, fazer músicas que ultrapassem o tempo, que sejam eternas. Essa também não é a primeira vez que visito Belém. Adoro o Mercado do Ver-o-Peso, sou louco por açaí e umas outras coisas que vocês têm em comum com a gente, porque sou nordestino, e a gente adora comer coisas diferentes.

Seu disco mais recente é “Eu Não Procuro o Som” (2011). Tem previsão de lançamento de um novo álbum?

No dia 15 de julho lanço pelo selo do Sesc um disco com 16 músicas inéditas. Será um registro instrumental com várias coisas da minha carreira. Será a informação da minha formação musical. Estou cada vez mais correndo de encontro ao samba, choro, rock, frevo, sempre misturando. Não tenho pretensão nenhuma de conquistar nada, só quero fazer música, é isso que eu amo.

Levas algo, musicalmente falando, dos Novos Baianos para sua carreira solo?

A passagem pelos Novos Baianos foi a minha escola. Entrei com 17 anos no grupo, ele fez parte da minha maturidade como músico, como homem, como tudo. Esse aprendizado eu conservo. Meu sentimento é o seguinte: a música quando é bem feita, é eterna.

Você é um dos poucos artistas que conseguiram o feito de participar de todas as edições do Rock in Rio no Brasil. Como surgiu esse encontro para tocar em mais um, mas agora com a Baby?

Foi o nosso filho Pedro que arrumou esse encontro musical depois de 27 anos. E eu estou adorando. Temos umas, sei lá, trezentas músicas, mas vamos ter que escolher apenas doze para tocar, o que vai ser um desafio. Mas com certeza alguns sucessos que todo mundo pede dos Novos Baianos vão estar nesse repertório. A experiência está sendo ótima, porque quando é seu filho que está produzindo, você não precisa fazer tanta coisa [risos]. Além do mais, essa convivência familiar é muito bem-vinda.

(Diário do Pará)

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