“Em tempo de pessoas como Bolsonaro, Malafaia e Feliciano, entender essas questões é fundamental”, declara o psicólogo Maurício Rodrigues de Souza sobre sua pesquisa de doutorado, a qual resultou no livro “Experiência do Outro, Estranhamento de Si: Dimensões da Alteridade em Antropologia e Psicanálise”.
A obra será lançada nesta terça-feira, às 18h, com a realização de uma mesa-redonda com os professores Ernani Chaves e Heraldo Maués, no Sesc Boulevard, com entrada franca.
A seguir, leia um artigo exclusivo com o professor Ernani Chaves sobre o assunto:
"O Eu e o Outro" Ernani ChavesFaculdade de Filosofia da UFPA.
Respeitar, tolerar e amar! Talvez sejam esses um dos três verbos mais conjugados no mundo de hoje. Exigências de toda ordem e de todo lado, para que respeitemos os outros nas suas diferenças e singularidades, que toleremos suas escolhas e opções de vida e, principalmente, que os amemos, apesar de tudo. O exercício cotidiano desses verbos trariam consigo uma espécie de melhoramento moral, ao mesmo tempo em que poderiam apaziguar conflitos, resolver impasses e nos conduzir a um exercício pleno, no campo da política, da democracia. E, lá no fundo, no cerne de tudo, o que esse exercício nos promete de mais essencial e importante é, entretanto, uma outra coisa: é a possibilidade de acedermos à verdade do Outro. De podermos dizer “te respeito, porque te conheço, porque sei quem és, porque sou capaz de discernir em ti, na tua conduta, o que tens de bom e que o tens de ruim. Mas, mesmo assim, te amo por aquilo que és!” Essa fala tão cotidiana, tão comum, não se faz, entretanto, sem atropelos. Como se entre a palavra, o gesto e a ação houvesse um abismo que parece, muitas vezes, intransponível. Mas, a repetição excessiva dessas palavras tornadas mágicas, certamente nos consola, apazigua o desconforto, o mal-estar, a angústia que nos toma quando estamos diante do Outro, compelidos a respeitá-lo, tolerá-lo e amá-lo incondicionalmente. Para expressar essa gama de dificuldades, os latinos inventaram uma palavra: “alteridade”. Uma palavra que não apenas diz respeito à existência das diferenças entre eu e os outros, mas que também remete ao próprio fundamento da vida social: toda sociedade é um conjunto de “outros”. Por isso mesmo, essa experiência que é constitutiva de nossa existência comum é também, ao mesmo tempo, fonte permanente de tensões e conflitos. O livro de Mauricio de Souza Rodrigues, professor da Faculdade de Psicologia da UFPA, que foi originalmente sua tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo, trata justamente disso, isto é, do duplo registro da questão da “alteridade”, seja como fundamento da vida social, seja como fonte permanente de tensões e conflitos. Mas, essa questão, por sua vez – e é nisso que esse livro vai mais adiante – diz respeito a outro aspecto absolutamente importante da nossa cultura: esse desejo de conhecer os “outros”, de interrogar a “alteridade” também se transformou num desejo muito especial, qual seja, o de podermos constituir uma ciência, um saber científico, acerca dessa questão. Problema não menos importante, uma vez que constituído em torno da pergunta sobre a possibilidade de tal ciência vir a existir, uma ciência cujo objeto não seria mais “o homem” num sentido genérico e universal, mas o Outro, ou melhor “os outros”, situados historicamente num determinado tempo e espaço. Tarefa árdua, porque tal desejo, tal imperativo também se dá num determinado tempo, o do século XIX, ou seja, do século atravessado não só pela ideia de que o conhecimento científico é a única via habilitada para nos conduzir à verdade, mas também que tal via não se restringe ao conhecimento da natureza, mas também se dirige à vida social e política. Para nos apresentar essa questão e, ao mesmo tempo, nos introduzir nos seus impasses, esse livro recorta os dois saberes ou as duas ciências, a Antropologia e a Psicanálise, que levaram essa questão ao seu ponto mais radical. Uma radicalidade que poderia ser caracterizada por dois aspectos complementares: o primeiro, por procurarem romper com a dicotomia entre o eu que estuda e investiga e o outro que é o objeto desse estudo, dessa investigação, de tal modo que o princípio da “alteridade” sirva, de fato, como aquele que rege e fundamenta o processo investigativo, o estudo do “outro” é, ao mesmo tempo, o estudo do “eu”; o segundo, por implodirem, de dentro, isto é, do interior de sua própria formação histórica, os parâmetros que até então organizavam o ideal de cientificidade no século XIX. Isso não significou, evidentemente, abandonar o desejo de ser ciência, mas de renunciar a um certo modelo de ciência, até então tomando como verdadeiro e único possível. É nessa perspectiva que poderíamoschamar tanto a Antropologia, quanto a Psicanálise de “anticiências”. Em outras palavras, as tensões e conflitos decorrentes da nossa experiência comum com as “alteridades”, se tornam também tensões e conflitos no interior dessas “anticiências”, de tal modo que, grande parte de seu esforço continua sendo o de interrogar a si mesmas sobre seus próprios pressupostos, sobre o seu alcance efetivo e sobre, principalmente, as suas limitações. Nesse sentido, o livro do Maurício é exemplar, pois não só percorre essas tensões no interior da história da Antropologia, como também as entrevê com rigor no interior do dispositivo clínico construído e acionado pela Psicanálise. Em ambas se trata, a partir de um determinado momento, de questionar a própria “autoridade” desses investigadores e intérpretes, sejam os antropólogos, sejam os psicanalistas, para construírem um tal saber. Como também em ambas, se trata também, de um exercício de relativismo diante dos “outros”, de tal modo que nem os reduzamos ao que nós mesmos ou ao que a nossa cultura estabelecemos como parâmetros de vida e conduta e quem nem nos coloquemos num lugar separado, acima e além desse outro lugar, que é designado como o dos “outros”. Certamente que essas semelhanças que se pode apontar entre Antropologia e Psicanálise não exime as diferenças que historicamente se estabeleceram entre elas ou ainda as dificuldades que marcaram e marcam as tentativas de as fazerem dialogar. O livro do Mauricio aponta essas dificuldades, esses acordos e desacordos com bastante rigor. O importante, entretanto, é não só trazer à tona essas questões, mas também poder conectá-las com as urgências que o nosso presente nos impõe. Nessa perspectiva, o livro de Maurício também pode ser lido à luz do nosso presente. Um presente no qual, as questões relativas às “alteridades” estão no centro dos embates e das lutas políticas. Que estamos vivendo um momento de crescente intolerância, desrespeito e desamor (o que psicanaliticamente significa dizer, ódio, inveja, ressentimento, destrutibilidade), nos parece óbvio. Que não temos encontrado nem as palavras e nem as ações mais consequentes para resistir e combate-los, também nos parece óbvio. Por isso, lembro aqui, uma espécie de princípio não só metodológico, mas também ético, em torno do qual Antropologia e Psicanálise gravitam e que é destacado nesse livro: aquele da relação entre o estranho e o familiar. A “inquietante estranheza” que nos causa o que parece se opor a nós, às nossas crenças e convicções, que nos faz romper muitas vezes o fio tênue que separa a agressividade da violência, é muito mais o desconhecido horror, a angústia insuportável, que a “familiaridade” dessa estranheza nos provoca. Assim, o horror e a angústia são muito mais um sintoma, ou seja, o hóspede indesejado é um velho habitante de nossa própria casa. Não apenas da minha casa, no sentido do meu “interior” ou do meu “eu”, mas no sentido da cultura e da história que partilhamos com os “outros”.
(Diário do Pará)
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