Lanço um desafio: ouvir uma música do Molho Negro e não terminar com alguma frase grudada na cabeça. O rock radiofônico dos jovens João Lemos, Augusto Oliveira e Raony Pinheiro é harmonicamente equilibrado, tem a sujeira do rock, letras criativas e grudentas na medida e uma estética que não deixa de ser amazônica por sempre retratar de forma irônica e bem-humorada o cotidiano da cidade, mas que são também universais.
O fato é que os meninos saíram da garagem, ganharam o Brasil - falta apenas a região Sul para eles molharem todo país - e têm recebido elogios que dizem que se faz rock bom em Belém, sim. Confira a seguir a entrevista com o vocalista e guitarrista João Lemos.
P - Como surgiu a banda Molho Negro, fazendo rock de garagem na Amazônia?
R - Tudo começou comigo e com o Augusto. Resolvemos montar uma banda só nossa, depois do término da nossa antiga banda (Sincera), daí pegamos algumas músicas que tínhamos e fomos a Goiânia gravar no Rocklab com o Gustavo Vazquez. Em relação à sonoridade, o Molho Negro é basicamente um caminho natural do que nós já vínhamos fazendo e curtindo, não existiu um grande planejamento, foi basicamente pôr em prática todas aquelas influências.
P - São dois discos já lançados. Conte um pouco como foi esse processo de criação. A banda já nasceu pensando em fazer as próprias músicas?
R - Sim, na verdade sempre que pensamos em tocar, ou subir num palco, o principal é se divertir e dividir com as pessoas as próprias experiências e histórias. Tem sido legal e já gerou dois discos, o Molho Negro (2012) e o Lobo (2014). Em breve tem mais coisa chegando.
P - E sem usar carimbó nem guitarrada, nem um ritmo descaradamente paraense ou folclórico vocês se destacaram, inclusive com indicações em sites como uma das melhores bandas de rock nacional. A quê você atribui isso?
R - Bem, não sei exatamente a quê atribuir, fico feliz quando as pessoas se conectam com a banda. As músicas são muito simples e geralmente as pessoas pegam rápido os refrãos. Todas essas referências, principalmente a guitarrada, estão no sangue da maioria das pessoas que fazem música por aqui. Mesmo que não transpareça no som, isso acaba sendo uma boa vantagem, vir de um lugar com uma música tão rica.
P - De onde surge tanta criatividade e inspiração para essas letras irônicas e esses riffs gostosos de dançar?
R – Primeiramente, obrigado, né? Eu acho que o grande objetivo da gente é se divertir com as próprias histórias, sejam trágicas ou não. É tipo aquele sentimento de que, mesmo que esteja tudo dando errado e o circo pegando fogo, você fala alguma coisa idiota para aliviar o clima. A banda tem um pouquinho desse espírito, ninguém faz piada de propósito, mas, se soa debochado, acho que é um reflexo da nossa personalidade.
P - Vem disco novo por aí? Tem previsão? Alguma coisa que possa adiantar?
R - Vem, sim. Estamos em processo de composição. Ainda não sabemos onde vamos gravar nem quando, mas eu acredito que ano que vem já da para esperar novidades.
P - Hoje, depois de tantas conquistas, ser uma banda de rock na Amazônia é um título que cai mais leve ou mais pesado sobre os seus ombros?
R - As duas coisas. Eu adoro as bandas de rock daqui, então é uma responsabilidade muito grande quando colocam a gente como embaixadores de alguma nova cena, sendo que temos Turbo, Delinquentes, Blocked Bones, Blind for Giant e Aeroplano numa mesma cidade. Ao mesmo tempo, durante todo esse tempo de isolamento cultural que se tinha do Norte do país em relação ao resto - é recente o interesse do Sudeste pela cultura pop amazônica -, criou-se um sentimento de liberdade criativa muito bom. Ser daqui às vezes significa simplesmente poder fazer o que quiser sem se preocupar tanto com os moldes.
P - E não basta ser só a mente que cria músicas e as executa bem no palco. Vocês acabam acumulando funções, como divulgação, produção... É meio que assumir a responsabilidade toda, não é?
R - Sim, ser uma banda independente no Brasil e no mundo hoje é basicamente isso, assumir todas as funções que antes eram terceirizadas. Dá muito mais trabalho, porém o controle e os méritos passam a ser seus também. Particularmente, eu gosto muito desse formato músico-empreendedor.
(Nathalia Petta/Diário do Pará)
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