A rotina que se repete semana após semana, segunda-feira atrás de segunda-feira, faz com que as ruas sejam espaços de passagem, sem vida, sem nenhum outro sentido a não ser um caminho para se chegar a algum lugar. Para deixar a cidade menos cinza e para que esse caminho seja mais prazeroso, os artistas de rua, uma cultura que vem crescendo no Brasil, usam as vias como palco para seus trabalhos e trazem mais alegria e cor para esses caminhos.
Entre a marginalização, as produções alternativas e o começo de carreira, os artistas de rua são históricos na sociedade, presentes desde a Grécia Antiga. Também chamados de saltimbancos, os clowns, malabaristas, músicos de rua aproveitam os espaços abertos, de passagem ou de espera, para divulgar seu trabalho ou tirar o próprio sustento. Essa cultura é tão forte em países europeus que a Holanda reúne, anualmente, estátuas vivas de todo o mundo para um evento específico dedicado a esta arte, e para fazer shows em calçadas e metrôs de cidades como Paris, Londres e Nova York há regras a serem seguidas. A música de rua também já mudou a história. O jazz foi criado por trabalhadores negros, em regiões de New Orleans, Texas e Mississipi, nos Estados Unidos, que depois do expediente tocavam seus instrumentos na rua como uma maneira de esquecer o cotidiano cansativo.
No Brasil, a maioria dos artistas de rua tem uma imagem marginalizada, mas essa realidade tem mudado em algumas regiões. Em São Paulo, a grande movimentação de músicos, atores e demais manifestações artísticas em espaços públicos e abertos já criou até lei. Um site chamado artistasderua.com.br pretende dar informações sobre essas artes e mapear aqueles que se utilizam de esquinas e praças como palco na capital paulista.
Em Belém, por ser um frequente ponto no roteiro de artistas vindo de países da América do Sul rumo à Amazônia, podemos encontrar muitos malabaristas “hermanos” nos sinais da cidade ou músicos andinos na Praça da República nos domingos de sol. Mas falta mais. Seja como refúgio pela falta de espaços oficiais para apresentações, ou mesmo pela busca de plateia, falta aos artistas enxergarem os espaços a céu aberto como palco, e ao público compreender esses artistas com outros olhos. Afinal, é o encontro entre esses dois mundos que tornam o ir e vir das grandes cidades mais ameno e culturalmente interessante.
Música nas calçadas
Pensando nessa falta de espaços e em busca de oportunidades para shows, músicos e profissionais de comunicação de Belém se uniram para criar o “CityTrack – Música da Cidade”, cujo objetivo é a realização de shows em espaços abertos em Belém e cidades próximas, ocupando locais públicos de um modo geral e os registros em vídeo dessas apresentações serão disponibilizados on-line. “Nosso projeto tem como principal visão e objetivo pegar esse músico da internet, dos estúdios espalhados pela cidade, e colocá-lo na rua, para o público local poder conhecê-lo como produtor de cultura paraense”, explica o fotógrafo e publicitário Matheus Lima, um dos idealizadores do “CityTrack”.
“O projeto surgiu da necessidade de ter manifestações culturais na rua, mas não no sentido de ter grandes eventos ou projetos, porque acho que Belém é bem amparada neste sentido, sempre tem uma coisa legal acontecendo, mas realmente dos músicos irem pra rua e fazerem a sua história independente, tanto como uma forma de divulgar quanto de arrecadar fundos para alguma coisa específica, ou mesmo para chegar num público diferente e mostrar o seu trabalho”, explica o artista e publicitário Fil Alencar, destacando que as bandas precisam sair da zona de conforto e “dar a cara à tapa”, indo para a rua.
A ideia é não só fazer com que esses artistas comecem a ocupar espaços ociosos da cidade, mas que mostrem a nova música independente paraense a quem não a conhece. Nas duas últimas semanas, o “CityTrack” realizou uma ação no bairro do Comércio e outra no Skate Park, na Marambaia, e a recepção do público foi mais que positiva.
“As pessoas gostam, interagem, mas acho que elas precisam começar a entender a participação dos músicos ali nas ruas. Elas ainda veem isso como uma coisa inusitada e diferente, e não encaram como algo normal à paisagem urbana. Então eu acho que é isso que a gente vai tentar mudar, tanto para que mais músicos venham para as ruas, quanto também para que as pessoas se acostumem a ver esses trabalhos, que apoiem, comprem os materiais de merchandising das bandas, etc.”, justifica Fil.
O guitarrista e vocalista Leo Tavares, que toca na banda de rock de garagem Groover, avalia com entusiasmo a experiência de tocar no meio do bairro do Comércio. “Foi bem mais interessante do que imaginei. A reação das pessoas é realmente imprevisível. Nunca iria imaginar que, tocando sentado em uma esquina, eu seria abordado por um microfone ou pelos feirantes que estavam trabalhando por lá. Ficou aquele gostinho de quero mais”, explica o guitarrista, que também participa do projeto com a produtora de vídeo Kashimir. “Acho que o projeto tem o poder de fazer algo extremamente importante: despertar a curiosidade das pessoas em conhecer novos sons, em prestar mais atenção nos artistas da nossa cidade, e espero sinceramente que isso se converta em novos downloads das músicas e novas pessoas nos shows”, declara o artista. Além dele, João Lemos levou seu projeto instrumental Thunderjonez para o “City Track”.
“A gente crê muito que o público paraense vai apoiar essa iniciativa e vai pedir mais, vai querer mais. Até que não seja mais preciso existir um projeto para isso e os músicos sigam livremente para a rua mostrar seu trabalho”, completa Matheus Lima.
(Diário do Pará)
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