A dupla paulista Sax In The Beats é um exemplo de sucesso de artistas que começaram tocando em calçadas. Trajando terno e cabeças de animais, eles agregaram o humor à música e trouxeram a linguagem teatral para interagir com a plateia - e afirmam que aquilo que fazem é promover entretenimento democrático.
O projeto começou como um trabalho paralelo de outras bandas e da profissão de publicitário do baterista John Paiva. Ele conta que a ideia surgiu para ver se o trabalho de rua era viável ou não do ponto de vista financeiro e de receptividade do público. “A gente foi com essa ideia de quebrar a rotina das pessoas, principalmente em São Paulo, que é uma cidade bem estressante, onde ninguém para um minuto. É correria o dia inteiro”, explica John, que largou a publicidade e hoje vive de música graças à parceria com Nilton Cézar.
Lançado em 2012, o projeto começou a conquistar a simpatia dos paulistanos depois que eles assumiram o nome, a fantasia e incluiram a comédia ao trabalho. Nilton toca o sax de terno e com uma cabeça de urso panda; John comanda a bateria com uma cabeça de cavalo. Dessa forma criaram os personagens PandaSax e CavaloBeats que interagem com o público nos shows. Hoje, grande parte da renda da dupla vem das apresentações que fazem em eventos, aniversários, festas corporativas entre outros (o duo tocou em Belém dentro do evento Lá Fora Pop Up, uma feira gastronômica instalada no Shopping Bosque Grão-Pará). Mas nem pensar em sair das ruas.
“A banda faz, em média, de cinco a seis eventos por mês, e a gente enxerga a rua hoje como uma vitrine do nosso trabalho. O dinheiro que a gente ganha na rua é só para pagar alguns custos, mas ela continua sendo muito importante, porque é de onde vem a maioria dos trabalhos. A gente vive de música porque a rua proporcionou isso para a gente”, admite John. “A gente poderia muito bem estar em outros lugares, mas está ali porque quer compartilhar algo legal para ganhar algo em troca, que é a divulgação, dinheiro, palmas, aplausos e sorrisos, e isso motiva muito a gente a continuar o trabalho. Às vezes, as pessoas não têm grana para assistir a um show no teatro, mas ela pode assistir na rua; às vezes, a pessoa tem dinheiro mas não tem tempo, e no caminho dela tem esse shows. O legal de tocar na rua é de poder quebrar a rotina das pessoas e ter esse retorno sincero”, conta.
Apesar de não se considerarem artistas de rua, mas sim músicos que fazem das vias e locais abertos o seu palco democrático, os músicos valorizam esses espaços pela variedade de públicos. “Quando a gente está tocando, tem criança assistindo, tem adulto, tem idoso, tem adolescente, todos os tipos de pessoas. Ao mesmo tempo em que tem um empresário, tem o empregado dele, tem rico, pobre, preto, branco, tem skatista, tem patricinha, tem playboy, tem senhorinha, tem todo mundo. A gente consegue ver essa diferença de público e acaba agradando a todos.
Havia uma peça no meio do caminho
A técnica de enfermagem Rosana Barros veio do Rio de Janeiro para conhecer pela primeira vez Belém. Em meio a mapas turísticos e uma volta na praça Dom Pedro II, ela não esperava encontrar uma peça de teatro entre árvores e gramados. Curiosa, resolveu sentar na calçada mesmo e apreciar a peça “Trunfo”, que vem percorrendo praças da cidade.
“Não costumo ir a teatro na minha cidade, mas acho que essas atividades ao ar livre me estimulariam bastante”, disse Rosana. Em cena, Marina Trindade, Katherine Valente e Inaê Nascimento, as protagonistas, jogam as cartas de tarô para o público e tecem sua narrativa sobre as cartas sorteadas. É aí que se inicia um texto de significados que ganham formas nas técnicas circenses.
O motorista Renildo Monteiro não achou que ia sair da sua casa para ver uma peça de teatro. Ele acompanhava a família em uma cerimônia de formatura e, quando passavam pela praça, resolveram parar para conferir. “Vi essa movimentação, esses aparelhos parecidos com coisa de circo e me encantei. Achei legal ver as coisas serem feitas aqui em plena praça. Tem até morador de rua que passa e olha”, destacou o motorista. “O que mais me chama atenção é a inspiração das artistas, a concentração para fazer algo tão bonito. Esse modelo que lembra o circo despertou memórias da minha infância”, disse a formanda Nilcilene Nascimento, que acompanhava Renildo.
Para a funcionária pública Cilene Nabiça, o teatro é um espaço de encontro entre arte e público e nada melhor que esse encontro se dê nas ruas. “O teatro é o primeiro movimento que busca o público, que busca contato. Interessante mesmo que ele aconteça nas ruas, no trajeto das pessoas, nos espaços públicos. Isso é democratização da arte. Trazer uma peça para essa praça que é um não-lugar, cheia de trajetórias, desencontros, desafetos, é ressignificá-la”, disse ao término do espetáculo que apareceu ao acaso em sua rotina, enquanto atravessava a praça.
(Diário do Pará)
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