Ultrapassando gerações há mais de 30 anos nos palcos, o Titãs continua em atividade com muitas ideias e discussões sociais e políticas. O último disco, “Nheengatu”, foi lançado em 2014 com 14 faixas, depois de cinco anos sem gravar, formado da mais pura levada rock and roll da banda oitentista. O trabalho foi elogiado por críticos e pelo público dos paulistas, muito comparado com a energia que trouxe o “Cabeça de Dinossauro”, terceiro álbum dos Titãs, lançado em 1986 e relançado em 2012 com as versões demo das faixas. Em 1986, a banda questionava “para quê polícia?”; em 2014, eles gritam: “você também é explorado, fardado”, logo na primeira música do disco novo.
O sucesso foi tão grande e o show tão bem avaliado pelos integrantes que o disco ganhou um DVD, gravado em abril deste ano, no Audio Club em São Paulo. O DVD traz 23 músicas ao vivo, mas o contrato previa um show com 19, até a música “Sonífera Ilha”. De acordo com vocalista e tecladista Sérgio Britto, em entrevista exclusiva ao Você, além do repertório ensaiado para a noite, a banda ainda tocou mais oito clássicos que o público pedia, e que entraram no DVD como extras.
O guitarrista responsável pelos riffs enérgicos e por parte das novas composições do Titãs, Tony Bellotto, diz que o show do “Nheengatu” traz uma força imagética e é visualmente bonito. “Foi um disco que teve uma receptividade boa, tanto do público quanto da crítica por a gente, depois de tantos anos, conseguir fazer uma coisa nova com tanta relevância e força criativa. O disco aconteceu e levou vários prêmios. No show, começamos a usar uma maquiagem inspirada na que usamos no clipe de ‘Fardado’. Tocamos as primeiras três músicas com aquelas máscaras. O show ficou visualmente muito legal pelas máscaras e pelo cenário. A gente achou que estava visualmente bonito, um show muito interessante”, conta Tony Bellotto, também em conversa ao DIÁRIO.
O Titãs é responsável pela afirmação do rock brasileiro como uma linguagem musical de cunho discursivo e político. Nascida em plena ditadura militar, o cenário da época favorecia as produções que dialogassem direto com a realidade do povo. Os anos se passaram, o país é praticamente outro e mesmo assim o disco surge contemporâneo, com olhares voltados a um momento importante do país que vive em meio a uma das maiores investigações sobre corrupção de toda a história.
“Acima de tudo, nós somos cidadãos. Desde o começo tivemos uma atitude crítica e questionadora, inclusive somos reconhecidos por isso. A gente gosta de compor motivados por essas situações. Agora, no ‘Nheengatu’, a gente vive um outro momento e o disco também fala do Brasil. E quando a gente fala do Brasil atual, acaba falando dessa nova situação política que o país vive”, argumenta Tony Bellotto.
A música “Fardado” dá bem o tom do novo trabalho do Titãs, que deixou de circular por alguns espaços da imprensa exatamente pela posição crítica ao atual cenário político brasileiro. Sérgio Britto lembra que a banda sempre teve uma reputação de engajada, pelas letras com envolvimento social, mas que alguns temas são novidades no repertório. “Acho que é uma fase de descoberta da nossa sonoridade. São novas produções, novos assuntos, temas que a gente nunca tratou na vida, como violência contra a mulher. São letras que a gente tem feito ultimamente de forma mais aberta. E o disco surgiu dessa forma mais enérgica e crítica porque a gente fez mais ou menos um pacto, estava todo mundo a fim de fazer a mesma coisa”, explica Sérgio Britto.
(Gustavo Aguiar/Diário do Pará)
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