Maestro na Capela Musical Pontifícia Sistina, do Vaticano, o Monsenhor Marcos Pavan, um brasileiro de 52 anos, prepara as crianças que compõem as vozes brancas (parte aguda) do coro que canta nas missas do Papa Francisco. Nascido em São Paulo, ele chegou a Roma em 1991 para fazer liturgia, assumindo o papel de regente das vozes brancas sete anos depois. “Eu sempre gostei de música, cantei em corais, estudava piano e quando fui estudar no colégio São Bento, em São Paulo, onde os monges beneditinos cantam gregoriano todo dia, conheci esse tipo de canto e me apaixonei”, explica.
Ainda no Brasil, o regente estudou por muitos anos com a madre Maria do Redentor, cujo nome real é Eleanor Florence Dewey, uma inglesa especialista em canto gregoriano. Depois, teve a oportunidade de estudar por alguns meses no Mosteiro de São Pedro de Solesmes, na França, um dos mais conhecidos neste gênero musical. “Desde então, venho me dedicando ao canto gregoriano, à arte do canto para a liturgia católica”, declara o monsenhor, que esteve recentemente no Brasil para participar do Encontro Internacional de Canto Gregoriano de Belém e falou ao Você um pouco sobre o surgimento, a importância e o ensino deste gênero musical que ecoa aos céus.
Quando surgiu o canto gregoriano?O canto gregoriano foi composto até por volta do século 9, quando o repertório se completou. Junto com a liturgia da Igreja, que também estava se formando, o canto gregoriano foi dando origem a livros de repertório para missa, para os ritos sacramentais, procissões...
Existe, então, apenas um número determinado de cantos?Sim, esse é um repertório fechado, então quando a Igreja cria uma nova festa litúrgica, um novo santo, e então se compõem os textos da missa para ele, o que a gente faz é adaptar de alguns cantos já existentes e colocar o texto desse novo santo. É um trabalho de adaptação, porque não existe o compositor para canto gregoriano, nem nunca existiu. A gente não sabe quem compôs cada peça de canto gregoriano, essa informação se perde logo no primeiro milênio.
É muito difícil aprendê-lo?A dificuldade, quando a gente tem que estudar, é que esses livros são escritos com uma notação musical muito antiga, a chamada notação semiológica, que a gente hoje tem dificuldade de entender, então tem que estudar muito. Não eram as notinhas em cima das linhas, mas sinais de acentuação em cima das palavras e você tinha que entender o que esses sinais queriam dizer do ponto de vista musical.
Além das igrejas, onde podemos ouvir um bom canto gregoriano?Existem muitos discos de canto gregoriano. Na internet também é possível ouvir e existem coros famosos. Para começar, o canto gregoriano é uma oração, então os primeiros que realmente cantam são os monges, monjas, os freis, aqueles que vivem em conventos uma vida litúrgica intensa. O Mosteiro de São Pedro de Solesmes, na França, e o Mosteiro de Santo Domingo de Silos, do norte da Espanha, são famosos pela tradição gregoriana. Aqui mesmo, em Belém, tem duas ou três entidades que têm canto gregoriano.
O que te apaixonou nesta arte?A beleza das melodias, a capacidade que elas têm, como em nenhuma outra forma musical, de ser um veículo para a oração. O canto gregoriano é composto sobre os textos sagrados, alguns textos litúrgicos, então ele parte da oração e é voltado à oração. Você, quando canta o gregoriano, está rezando. E não tem nenhum canto como ele que te ajude a compreender a palavra de Deus e a rezar.
Como uma arte, ele influenciou outras?O canto gregoriano é a forma de música conhecida mais antiga que a gente tem no Ocidente. Então, toda música clássica até a popular vêm da prática do canto gregoriano no primeiro milênio. Não são apenas os religiosos que cantam gregoriano, todos os músicos que querem ter uma formação séria têm que estudar o canto gregoriano, porque a nossa música ocidental vem daí.
(Laís Azevedo/Diário do Pará)
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