Lydia Barros não costuma ouvir tecnobrega no seu dia a dia, mas o conhece muito bem. A pesquisadora e jornalista pernambucana lançou recentemente em Recife a obra “O Tecnobrega no Contexto do Novo Paradigma de Legitimação Musical”, publicação que analisa o fenômeno musical de Belém do Pará, abordando principalmente a informalidade no processo de produção da música e transformação dela como negócio, tendo como principal ferramenta a internet.
“Embora seja um estilo musical que materializa um pensamento estético da periferia de Belém, influenciado pelo estilo de vida e cultura local, o tecnobrega está sintonizado com a atual produção musical global, periférica ou não, e com o próprio mercado fonográfico, seja paralelo ou institucional. Na base disso tudo está a abertura de novos nichos de mercado que emergiram com a difusão e acessibilidade das tecnologias. A indústria fonográfica da forma que conhecíamos acabou e as culturas digitalizadas passaram a impactar diretamente nesse cenário”, explica Lydia Barros, que trabalhou o tema durante uma pesquisa de doutorado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco.
O tecnobrega como objeto de pesquisa para Lydia mostrou muito sobre os fenômenos culturais periféricos atuais. Mesmo se tratando de uma manifestação que carrega um estigma social, se mantém à margem das indústrias culturais tradicionais, criando um mercado paralelo totalmente autônomo e conectado com as novas lógicas de consumo e da tecnologia digital - coisa que nós paraenses conhecemos muito bem.
“Trata-se de uma produção que merece respeito como construção cultural e como modelo de negócio, ainda que informal. É difícil abordar esse ‘objeto’ sem esbarrar nas questões de classe e nas hierarquias de gosto que se materializam no campo musical. Nesse sentido, o livro tem uma dimensão político-social forte, mas é o próprio tecnobrega que traz essa potência”, avalia.
Não é de hoje que a pesquisadora se debruça sobre o tema música e cultura na periferia. Ela começou ainda no mestrado, quando estudou o punk-rock no Alto José do Pinho, uma comunidade de Recife. No caso do tecnobrega, a pesquisadora viajou duas vezes até Belém, a primeira em 2008 e depois em 2011, para recolher depoimentos de produtores, DJs, cantores, jornalistas e outros personagens das “aparelhagens” na periferia de Belém. Em meio à pesquisa, ela também fez um estágio de doutoramento na McGill University, em Montreal (Canadá), onde entrou em contato com autores que a ajudaram na observação do objeto pesquisado. Entre as entrevistas realizadas para a pesquisa estão a cantora Gaby Amarantos, importante representante do tecnobrega paraense, hoje conhecida nacionalmente; o DJ e produtor Beto Metralha, responsável pelos remixes e samplers das primeiras aparelhagens realizadas em vários bairros da cidade; e outros importantes personagens da cena local.
Fenômeno não é isolado, nem novo, mas é tecnológico.
(Nathalia Petta/Diário do Pará)
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