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Tradição democrática de ver o teatro no Auto

O que fez com que o Auto do Círio surgisse?Em 1993, o reitor da UFPA, Marcos Ximenes e a vice-reitora Zélia Amador começaram a pensar o projeto do Auto do Círio ao observarem que Belém ainda carecia de um espetáculo sobre o Círio de Nazaré que tivesse um

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O que fez com que o Auto do Círio surgisse?
Em 1993, o reitor da UFPA, Marcos Ximenes e a vice-reitora Zélia Amador começaram a pensar o projeto do Auto do Círio ao observarem que Belém ainda carecia de um espetáculo sobre o Círio de Nazaré que tivesse um traçado forte e significativo dos artistas da cidade. Eles lançaram a ideia ao Núcleo de Artes e à Escola de Teatro e Dança. Na época, a diretora do Núcleo era a Margareth Refkalevsky e eu havia assumido a direção da Escola. Convidamos o Amir Haddad [ator e diretor de teatro de Minas Gerais] para junto com a equipe conceber o espetáculo de rua. Queríamos desde o início criar um cortejo popular para homenagear a nossa padroeira durante a nossa festa maior que é o Círio, e assim reinterpretar esse fenômeno religioso na linguagem teatral.

Qual a importância de uma manifestação cultural popular como o Auto?
Em meu livro analiso esta vocação etnocenológica que Belém apresenta no engendramento de cortejos. Temos o Círio de Nazaré como a maior procissão católica do mundo, a riqueza e tradição das nossas escolas de samba com o Rancho Não Posso Me Amofiná, os bumbás e as quadrilhas juninas, o Arrastão do Pavulagem, dentre diversos cortejos que sublinham essa nossa vocação, diria ancestral, de celebrar na forma festiva e caminhante as diversas matrizes culturais e estéticas que definem a cultura paraense. Nesse contexto, o Auto do Círio celebra sua maioridade em 2015, reafirmando uma tradição criada pela academia que devolve à sociedade, como extensão universitária, as artes ensinadas, pensadas e pesquisadas em seu ambiente. Isso é de uma força política importantíssima. A UFPA, com esse projeto, celebra de forma democrática o Círio, a cidade e as ruas como lugar de comunhão festiva, democratização da arte e de força de nossa cidadania.

O corpo de atores é formado por profissionais e pessoas da sociedade. No que isso influencia o teatro popular paraense?
Essa é a grande força geradora desse espetáculo e sua contundência enquanto fenômeno cênico da contemporaneidade amazônica. Quando destaquei a força democrática da linguagem do teatro na rua como signo-marca do auto, minha reflexão brotou dessa imersão durante os quinze anos que estive na direção. O espetáculo atrai cada vez mais o cidadão comum, que muitas das vezes nunca fez teatro, mas que escolheu o auto como forma de expressar a sua fé e sua devoção. E esse cidadão comum passa a compreender o teatro, por essa porta que o espetáculo oferece à sociedade. Essa modalidade de atuante cresce a cada ano. Isso promove uma amálgama especial com os atores da Escola de Teatro, atores da cidade, e desenha essa forma plástica cênica e ritualística singularíssima do cortejo. Investiguei essas duas modalidades de atuantes em minha pesquisa, às quais denomino de ator-cidadão e ator-performático, que podemos entender melhor na leitura do livro.

Depois de 20 anos de história, qual a importância do Auto do Círio se manter dentro das festividades da Quadra Nazarena?
Decorrido esses 20 anos, podemos sublinhar com cores fortes e coloridas, no melhor entendimento carnavalesco, o que Zélia Amador afirma na apresentação do livro: mais uma vez o auto vive, vinga e se afirma como uma “tradição inventada”. Quando a sociedade abraça, se emociona, chora, durante o espetáculo, temos a certeza da força social e política que este projeto cênico deixou para a cidade, integrado de forma sagrada à nossa festa maior que se constituiu o Círio de Nazaré. Um espetáculo denso e festivo, pela força das multidões! A multidão que celebra em minha cidade a fé e devoção à Nossa Senhora de Nazaré.

(Diário do Pará)

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