“Meu primeiro Círio foi em 1992, com uma câmera Olympus Trip. Lembro que tinha apenas um filme rebobinado de 24 exposições em preto e branco. Senti a emoção de ver um mar de pessoas e ao mesmo tempo querer fazer vários registros fotográficos. Eram muitas imagens que se formavam na minha cabeça, gestos, dor, emoção, pagadores de promessa, etc. Me senti na hora um verdadeiro Henri Cartier-Bresson, claro, longe de ser ele (risos). Mas infelizmente isso ficou apenas no meu olhar e nas lembranças, porque o resultado depois de revelado não era o que esperava”, conta o fotojornalista Mauro Ângelo. Ele é um dos participantes da mostra fotográfica “Círio: Luz Alada - A Visão dos Anjos”, que abre hoje no Sesc Boulevard, reunindo os olhares de 25 fotojornalistas sobre o Círio de Nazaré, tendo como tema um de seus principais ícones imagéticos: os anjos.
Marco Santos é outro nome da exposição. A primeira vez que ele fotografou o Círio foi em 1995, e diz que conseguiu boas imagens, apesar do nervosismo. “Nunca tinha encarado tanta gente reunida (risos)”, diz o fotógrafo, revelando que os anjinhos nazarenos estão entre seus temas favoritos. “Na foto em que o anjo está olhando para cima, é como se estivesse pedindo algo”, diz, referindo-se a uma de suas imagens na exposição.
Também na década de 1990, Rogério Uchoa teve sua primeira experiência de Círio. Na hora de captar os anjos, a tarefa não era tão fácil, mas prazerosa. “Nada é fácil nesta vida, e fotografar criança também não (risos). Mas aprendi que, se eu estiver sempre no mesmo ângulo dos meus problemas, nada mais será problema. Com crianças é a mesma coisa, se eu estiver na mesma linha deles, eles me aceitam e passam a se comunicar. Até porque eu tenho um brinquedo (a câmera) muito bacana”.
E, como fotojornalistas, é claro, sempre há a busca por uma imagem que sintetize o sentimento daquele grande evento de fé. “Fotografei o primeiro Círio há 19 anos. Para mim é uma verdadeira universidade de fotojornalismo. Minha primeira experiência foi um passo para 19 capas de Círio pelos jornais onde eu passei”, diz Fernando Araújo, para quem fotografar crianças já é quase uma certeza de belas imagens. “Ela (a criança) já tem um olhar maravilhoso.”
Olhar que traduz sentimentos e fé
Quem não tinha máquina ia ao Círio assim mesmo. “Eu comecei em 1998, quando trabalhava em um laboratório fotográfico na Presidente Vargas, e consegui pegar emprestada a máquina da loja”, conta Ricardo Amanajás. O fotojornalista ainda destaca que, além das crianças nos carros das promessas, existem outros anjos que pairam sobre a procissão e rendem assunto para os fotógrafos. “A dificuldade fica por conta do Círio em si, da locomoção e enquadramento que temos que disputar em um espaço com milhares de romeiros”,diz ele.
Esse “perrengue”, tem fotojornalista que só aprendeu depois de anos de experiência na fotografia. É o caso do paulistano Ney Marcondes, que também participa da exposição. “A primeira vez (que fotografou o Círio) foi em 2007 e foi incrível para mim, um paulistano, ter contato direto com esta que é a maior prova de devoção religiosa”, diz ele. “Quanto às crianças vestidas de anjo, as asas são de menor importância, já que são em seus olhos que as vejo como anjos. São olhares enigmáticos”, descreve o fotógrafo, que já coleciona dezenas de imagens desses pequenos romeiros.
“Fotografar anjos é observar o olhar de cada criança, sentir aquele momento de captar diversos anjinhos como se estivessem flutuando em um mar de pessoas. Tudo nos atrai a registrar esses momentos de alegria, tristeza, cansaço. Até mesmo um adulto vestido de anjo. Fotografar anjinhos é mantermos nossas esperanças e conquista, nos alimentarmos de seus pensamentos fazendo deles como se fossem verdadeiros anjos”, poetisa Mauro Ângelo.
Serviço
Mostra Círio | “Luz Alada - A Visão dos Anjos”
Imagens de Fernando Araújo, Marco Santos, Mauro Ângelo, Ney Marcondes, Ricardo Amanajás, Rogério Uchôa, Camila Lima, Cinthya Marques, Suely Nascimento, Úrsula Bahia, Alzyr Quaresma, Ary Souza, Cláudio Pinheiro, Elielson Silva, Everaldo Nascimento, Fernando Nobre, Igor Mota, Lucivaldo Sena, Marcelo Seabra, Paulo Amorim, Ricardo Lima, Salim Wariss, Sidney Oliveira, Tarso Sarraf e Wagner Santana.
Quando: Hoje, a partir das 10h
Onde: Sesc Boulevard (Boulevard Castilho França, em frente à Estação das Docas)
Quanto: entrada franca
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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