“Minha paixão pelos livros começou na infância, quando meu pai – o dirigente comunista Raimundo Jinkings – abriu uma livraria em nossa casa, em Belém, após perder o emprego no Banco da Amazônia e ter os direitos políticos cassados pelo golpe militar de 1964. Eu praticamente nasci dentro de uma livraria. Cresci em meio aos livros e essa proximidade me fez ter contato com a leitura muito cedo”, conta a paraense Ivana Jinkings, a mais nova dos cinco filhos de Maria Isa e Raimundo Jinkings, fundadora e diretora da editora Boitempo, uma das mais importantes do Brasil, que acaba de completar 20 anos.
A livraria iniciada na casa onde Ivana cresceu, ela conta, era a alternativa encontrada pelo pai para sustentar a leva de filhos pequenos e parecia uma opção natural, já que o pai lia muito e tinha contato com as principais editoras do país. Ainda na década de 1960, ele participou, com o advogado Carlos Sampaio, da criação de uma editora chamada Boitempo. O empreendimento teve vida curta, pois os livros publicados eram apreendidos pelos militares logo depois de serem lançados. Mas, muitos anos mais tarde, no início da década de 1990, já vivendo em São Paulo, Ivana decidiu abrir sua própria casa editorial, resgarando o nome inspirado no poema de Carlos Drummond de Andrade. Foi, diz ela, uma forma de homenagear o pai, que morreu no mesmo ano de fundação da editora.
“O cenário, naquele momento, já não era dos mais otimistas para uma editora independente. O mercado editorial já estava, embora não tanto quanto agora, dominado pelos grandes grupos”, ela conta. Para uma editora que foi criada com dinheiro do FGTS e ajuda da família, a primeira empreitada foi publicar um texto inédito de Stendhal sobre Napoleão, que revela o lado “historiador político” do escritor. Assim, aos poucos, a Boitempo foi se firmando como editora de livros de ciências humanas, com um pé na sociologia, na história, na filosofia, na economia, na política e na cultura, sempre privilegiando o pensamento crítico. “A editora apostou na formação de um ‘catálogo de fundo’ consistente, um movimento contrário da maioria das editoras, que, por estarem sempre na busca de um novo best-seller, acabam relegando seu próprio catálogo ao esquecimento”, lamenta a diretora.Nesses vinte anos de existência, a Boitempo publicou mais de 400 livros, sem abrir mão da independência e do apuro editorial. Conseguiu conquistar solidez ao dominar as publicações do que se convencionou chamar de “pensamento crítico”. Tornou-se respeitada no mundo editorial – no Brasil e no exterior –, na academia e entre o público leitor.
Com uma equipe de 20 pessoas, ela publica em média 30 novos títulos por ano. “Fazemos um ‘barulho’ considerável no mundo dos livros”, orgulha-se Ivana, explicando que, com suas publicações, a Boitempo consegue manter um público bastante fiel nas universidades e nos meios mais “intelectualizados” da esquerda.
(Laís Azevedo/Diário do Pará)
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