Este ano, Maria é encenada por Danielly Vasconcellos, 32, a bailarina que desde 2003 vê no Auto do Círio a melhor forma de um artista, como ela, fazer sua homenagem à Virgem de Nazaré. “A grande diferença é que, quando estou sobre o palco para um espetáculo, meu único comprometimento é com a minha dança. Aqui, envolve religiosidade, fé, devoção a Nossa Senhora. Aqui me comprometo a dançar para ela como minha forma de homenagem, que é a verdadeira forma de um artista participar do Círio”, diz. Com um leve adorno feito de arame, com luzes em volta, ela irradia sua luz na comissão de frente até chegar ao momento mais aguardado.
“Essa é a primeira vez que participo como Maria, grávida, e ainda será meu marido, Wanderlon Cruz, também bailarino, quem irá me coroar. Tudo o que espero são muitas bênçãos, penso o tempo todo na minha gravidez e nessa luz que ela emana. Espero que toda a simbologia dessa luz seja transmitida ao povo que acompanha o cortejo. Me sinto honrada em ser Maria, com quem nós temos essa proximidade, talvez por saber que ela foi mulher, uma pessoa de carne e osso, como nós”, diz Danielly.
E se a bailarina, adaptada aos palcos, se emociona, o que dizer da dona Luzia Cardoso, de 65 anos, que descobriu o Auto por acaso e mesmo sem ser artista continua a voltar todos os anos, desde 2001? Foi o irmão dela, que trabalhava na Feira do Ver-o-Peso, que contou de um movimento diferente ali pela Cidade Velha.
“Eu fiquei curiosa e convidei uma amiga pra gente vir olhar. Nesse ano (2000), eles davam para algumas pessoas na rua uma tocha pra gente participar”, recorda Luzia.
A alegria, as fantasias e o clima de carnaval conquistaram o coração da aposentada, que no ano seguinte começou a participar e já passou por diversos personagens e estações do cortejo. “Aqui a gente construiu uma família, há amigos que a gente só vê de ano em ano, mas sempre que reúne novamente, desde os ensaios, já é um espetáculo”, comemora a senhora, que pelo segundo ano assume uma vaguinha de destaque na encenação que acontece na varanda. E se emociona desde já sobre o papel.
“Me emocionei pelo que ela diz. Minha personagem é a mulher mais cética, que quer chamar a polícia, quer acabar com aquele barulho, a música do Auto, mas que tem ao lado um anjo que vai lhe mostrando a beleza desse cortejo, a fé das pessoas e sua devoção. As palavras da mulher então mudam e quase me fizeram chorar agora há pouco”, explica Luzia, antes de voltar para o ensaio e repetir a fala: “Agora eu sei o que move esse povo!”.
(Diário do Pará)
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