A Bienal de Música Brasileira Contemporânea - realizada pela Fundação Nacional de Artes - Funarte/Ministério da Cultura, chega à sua 21ª edição para celebrar a inventividade e experimentação dos compositores brasileiros e saudar dois expoentes de nossa cultura - Mário de Andrade, nos 70 anos de sua morte e Hans-Joachim Koellreutter, no centenário de seu nascimento. O evento, no Rio de Janeiro, abriu dia 10 e prossegue até o dia 19 apresentando dez concertos com a participação de um coro, orquestras, intérpretes em solos e em várias formações vocais e instrumentais, incluindo música eletroacústica. Entre as atrações estão dois paraenses: Valério Fiel e Emanuel Cordeiro.
Todas as peças da Bienal são apresentadas em estreia mundial. Algumas são obras de autores contemplados no Prêmio Funarte de Composição Clássica 2014, como é o caso de “Transformações Uirapurinas”, de Emanuel Cordeiro, que será interpretada pela Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense (UFF), sob a regência de Simone Menezes e Claudio Cruz no domingo, 18. A outra parte do programa é formada por um conjunto de peças encomendadas pela Funarte especialmente para a Bienal. Elas foram selecionadas por um colegiado, formado por compositores que participaram de cinco ou mais Bienais, regentes e professores de composição em cursos universitários de música. E entre estes selecionados está Valério Fiel, atração no sábado, 17, com a peça encomendada “Funerais 3”.
ECLÉTICO
O programa como um todo mostra um panorama eclético. Não era assim nas primeiras edições da mostra, criada em 1975. Participantes veteranos, como o recifense Marlos Nobre, de 76 anos, e jovens como o paulistano Julian Maple, de 22, festejam a liberdade estética, embora tenham visões diferentes.
“Felizmente, superamos a patrulha estética que só considerava contemporânea a música feita segundo os ditames em voga na Europa e nos Estados Unidos. Há uma ampliação do conceito de contemporâneo, que antes era limitado a uma casta de pesquisadores, e não de criadores, e hoje é praticado por uma casta de criadores, e não de pesquisadores”, opina Nobre, que diz se referir à estética serial pregada pelo francês Pierre Boulez, ainda vivo. “Todo compositor que discordasse da lógica bouleziana era vítima de violenta injúria. Criaram-se os centros de doutrinação, destacando-se Darmstadt (na Alemanha), para onde afluíram jovens ávidos por entrar na panela da moda. Sabemos o resultado: as orquestras se fecharam, os intérpretes, salvo os amigos dos compositores, demostraram aversão, e o público se retraiu e odiou essa produção serial”, revela.
Maple, que apresenta a peça “Tuning” no dia 17, diz não ver “uma separação tão óbvia entre pesquisador e criador” e percebe forças do passado ainda em voga, mas elogia a pluralidade e se diz interessado em minimalismo e interações com meios eletrônicos. “Noto que o embate entre as linhas nacionalista e atonal, que dominou o cenário brasileiro no passado, ainda está presente, porém cada vez menos. Grande parte dos compositores com os quais eu tenho contato é bastante influenciada por alguns dogmas vanguardistas europeus de hiperintelectualização, talvez por termos um pensamento muito acadêmico no país. O problema é quando isso vira um padrão acadêmico estéril, porque música é arte, e não ciência”, diz o jovem, que especula sobre o futuro: “Devemos ver, cada vez mais, a interação da música clássica com as novas tecnologias e as mídias sociais”.*Com informações da Agência O Globo.
(Diário do Pará)
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