Faz parte da cultura do Círio de Nossa Senhora de Nazaré encontrar, em quase todas as esquinas do centro da cidade, um vendedor de camisetas temáticas da manifestação católica e cultural. Há muito tempo, as roupas deixaram de levar só as estampas do cartaz do Círio e agora são impressas com ilustrações diferenciadas da santa, da berlinda, todas por um preço em conta. Na hora da compra, vale pensar: quem será o autor da ilustração? A boa oferta pode esconder um direito violado, o da propriedade intelectual. E, todos os anos, ilustradores sofrem com esse problema.
O designer e ilustrador Emerson Coe conta que já é de praxe encontrar pessoas usando suas ilustrações estampadas em camisetas: todas não-autorizadas. Elas abrem as ferramentas de pesquisas e encontram na internet os desenhos, e por isso acham que não têm dono. “O cara começa a fazer para os amigos e depois está vendendo no Ver-o-Peso”, reclama o profissional, que este ano descobriu que muitos outros ilustradores também sofreram do mesmo mal.
Desrespeito desanima designers
O susto de Renata Segtowick foi grande. Ela estava assistindo à televisão quando viu uma reportagem sobre o Círio em que uma família inteira usava sua ilustração, também sem autorização para uso, estampada em camisetas. O caso foi mais grave porque parte do direito de uso foi vendida para uma marca de estampas paraense e pertencia a uma coleção temática lançada no ano passado. “Há três anos que isso vem acontecendo. Às vezes, eles plagiam, mudam uma coisa aqui e outra ali e usam. Mas ninguém pensa que o trabalho foi fruto de uma pesquisa e às vezes demora meses para fazer. Em um clique, as pessoas copiam e reproduzem sem a menor consciência. Dá uma tristeza e um desânimo absurdo”, declara a ilustradora.
Ela conta também que encontrou pessoas vendendo uma camiseta com um desenho assinado por ela pelo preço de R$ 15, sendo que ela mesma vendia a ilustração por mais do triplo daquele preço, o que desvaloriza o seu trabalho e ainda alimenta o lucro de outra pessoa. A justificativa que encontrou para entender esse fenômeno, que tem se tornado cada vez mais frequente, é o barateamento das máquinas de impressão. “Isso tem acontecido mais recentemente porque esse processo de reprodução em tecido ficou mais popular. Mas ninguém garante que os funcionários de grandes empresas terão a ética de não pegarem um desenho e reproduzir para a venda”, pensa Renata.
A lei federal de direitos autorais, publicada em 1998, entende que as obras intelectuais e artísticas são protegidas pelos direitos do autor para reivindicar os créditos, e é incisiva quando diz que ninguém pode reproduzir uma obra que não seja de domínio público ou que não tenha a permissão do autor. A lei também afirma que poderão ser aplicadas as penas cabíveis para quem violar os direitos autorais.
Emerson Coe já havia tentado processar as pessoas responsáveis por plágio, reprodução e comercialização de obras suas sem a devida autorização, mas foi vencido pelo cansaço, apesar de guardar as evidências e capturas de telas de postagens de venda no Facebook de camisetas com a sua ilustração. Já Renata se prepara para contratar um advogado para defendê-la no caso. Os dois também reclamam que o preço para registro dessas obras é muito superior ao que o trabalho com elas pode pagar.
(Gustavo Aguiar/Diário do Pará)
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