Nada de utilizar a pedagogia das animações para ensinar a descobrir o mundo, ou mesmo para entreter e divertir crianças, fazendo que o imaginário se desenvolva. No “Animaldiçoados - Festival Internacional de Animação Sombria -, o público é formado de adultos, maiores de 18 anos, e a ideia é explorar o terror, o humor negro e o horror em histórias instigantes. O objetivo do Festival, que chega a sua 6ª edição em 2015 – a terceira em Belém – é promover essas obras nacionais e internacionais, como forma de divulgá-las e propagar esse tipo de produção, que ainda circula em telas alternativas. Além da capital paraense, São Paulo e Rio de Janeiro recebem a mostra.
A programação começa hoje no Cine Líbero Luxardo, e se estende até o dia 1º de novembro, com longas e curtas metragens. “A gente viu o projeto pela internet, desenvolvido por um produtor do Rio de Janeiro, que organiza esse evento há 6 anos. O que despertou o interesse para trazer esse festival é que o público vai ter acesso a essa produção de animação com pegada de terror, de horror e humor negro que não é muito recorrente”, conta o técnico em gestão cultural do Cinema Líbero Luxardo, João Cirilo.
O festival em Belém terá mais de 20 sessões, mas João lamenta que a programação ainda não traga produções com assinaturas de paraenses. “A gente tem produtores notáveis de animação em Belém e quando eles vêm pra assistir ao festival surge uma troca de conhecimento. E eu acho que é uma oportunidade pra perceber as técnicas de narrativas, abrindo possibilidades”, projeta. “As lendas e os mitos urbanos que a gente tem aqui são coisas que realmente dá para reproduzir em animação. Todo ano a mostra abre um período de inscrição, mas a gente nunca soube de pessoas de Belém participando”.
Aliens são destaque na programação
Este ano, o “Festival Animaldiçoados” traz, dentro do circuito, uma mostra específica com filmes sobre extraterrestres, um tema frequentemente explorado pela sétima arte. Abrindo esta edição do festival, a mostra “Buraco Negro” apresenta narrativas de crenças religiosas sobre o alcance humano a novas dimensões, e ainda traz uma retrospectiva dos melhores filmes sobre aliens e objetos extraterrestres não identificados que já passaram pelo circuito.
Outras mostra específica é “Galáxia de Brito”, apresentando três animações que foram produzidas de forma independente pelo artista plástico carioca André Brito, “Urlok de Otirb”, “Unhudo” e “Boabá”.
Ainda dentro da programação, o coreano “On The White Planet” (2014), de Hur Bum-Wook, e o espanhol “O Apóstolo” (2012), de Fernando Cortizo, são os longas-metragens que têm estreia no festival. O primeiro narra a história de um garoto que vive num plano onde tudo é preto e branco, já o segundo se prende na tensão de apresentar as desventuras de um fugitivo. A mostra também irá premiar o Melhor Filme Animaldiçoado Brasileiro, dentre as 62 animações selecionadas, julgadas pelo Centro Técnico Audiovisual do Ministério da Cultura.
Para o estudante do curso de Cinema e Audiovisual da UFPA, Arthur Alves, a linguagem da animação só abre mais possibilidades para o gênero do terror. “[O festival] é interessante levando em consideração que o maior apelo das animações, no geral, são o público infantil e o terror é, geralmente, para um público mais velho. Por outro lado, as possibilidades infinitas da animação combinam perfeitamente com o terror, e o imaginário amazônico é perfeito para esse tipo de abordagem, já que as lendas e mitos são tão surreais quando assustadores”, argumenta. O estudante conta que tem um projeto de animação engavetado, mas o fato de conter o tema adulto, mesmo não sendo o terror, tem criado receios de realização, pois a maioria dos editais contemplam apenas animações infantis ou animação seriada, divididas em capítulos. Ainda assim, ele vê na animação a chave para instigar o psicológico humano.
“Manipular o medo é manipular o psicológico, então, falando em produção, custa o mesmo fazer um minuto de animação de alguém atravessando a rua e de uma pessoa conversando com uma cobra gigante. A animação é o ideal, para mim, para lidar com o surreal, e o que é mais surreal que o psicológico?”, provoca.
(Gustavo Aguiar/Diário do Pará)
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