Tiago Iorc é um dos poucos artistas de música midstream - aqueles que nem são tão populares e nem estão inseridos no cenário underground - que movimenta uma grande massa de fãs. E tudo indica que seu recente disco “Troco Likes”, essencialmente pop, veio definir sua direção na música brasileira. A melancolia de suas canções, com voz e violão, e das letras em inglês, que era uma marca registrada do artista, ficam de lado face a letras solares, de um pop engrossado com o violão de aço, em que se percebem traços do folk. Porém, desmembrando a mixagem e tirando os arranjos, ainda podemos perceber a mesma melancolia na doce voz, nas letras e nos solos do inseparável violão.
O show do novo disco chega a Belém hoje, no Teatro Gasômetro, e é uma súplica aos seus jovens fãs: saiam da internet e vão curtir suas vidas. A faixa “Era Sol Que Me Faltava”, que parafraseia um trocadilho surgido na própria internet, fala exatamente disso, para aproveitar o dia, ser feliz. “Muita gente conhece o meu trabalho pela internet, principalmente pelo YouTube. Eu gosto muito de me envolver com a produção de videoclipes para as minhas músicas, uma das principais formas de se conectar com o público hoje”, explica o artista, em entrevista exclusiva ao Você.
Afetos virtuais para suplantar carência
O show deste sábado chega completo, com um Tiago Iorc mais pop e mais próximo aos fãs. E além dos ingressos para assistir à apresentação, o público ainda pode comprar um espaço “meet and greet!, onde os fãs podes conversar com o artista e registrar o momento com fotografias e vídeos.
O novo trabalho surge com um tema que esses jovens, de quase todas as classes, entendem muito bem. O título “Troco Likes” parte desse acordo entre os internautas de “eu te curto e tu me curtes”, assunto que sempre chamou a atenção do compositor. “Enquanto fui amadurecendo o conceito do disco e escrevendo as músicas, foi ficando mais claro o quanto essa questão de ser quisto é importante pra gente. Ser gostado é significar. E significar para o outro é existir para nós mesmos. Mas chega a ser cômica essa carência exposta dessa forma tão banal, ainda mais nessa superficialidade. Como um comércio de sentidos sem sentido algum para a vida”, teoriza o artista.
Apesar dessa confusão de relacionamentos no mundo digital, o disco faz todo sentido, da primeira à última faixa, em uma coerência de produção musical munida de alguns hits, como “Eu Errei”, “Cataflor”, a delicada “Liberdade ou Solidão” e “Coisa Linda”. Para os que desconhecem o disco, um aviso prévio: grudam com frases e fonemas e refrãos que se repetem. Tiago ainda presenteia os ouvintes com a bela “Till I’m Old and Gray”, uma faixa bônus que fecha o disco e mostra que ainda existem resquícios do velho Iorc.
DE VOLTA A BELÉM
O artista pisou em solo paraense no ano passado, como grande atração das Seletivas Se Rasgum, e volta a Belém mais maduro. Chegando aos 30 anos no mês que vem, Tiago afirma que vive a música sem pressa, e é assim que leva a sua carreira. “Sempre busquei fazer escolhas que me nortearam para uma história que pudesse ser o meu projeto de vida. Esse último disco parece marcar mais uma virada. Sem dúvida, quero dividir coisas bonitas com as pessoas. Coisas que me inspiram e que possam inspirar aos outros também”, declara Tiago.
Existem muitos jovens que escrevem música pop delicada e com boas letras que se destacam na música contemporânea, e Tiago Iorc está nessa lista, se deixando levar pela simplicidade de escrever música para todos, para se inspirar e para encantar o público paraense.
O show talvez não seja o mais esperado pelo público que acompanha o artista desde o início da carreira, ou para aqueles que foram atraídos pelas regravações em voz suave como a clássica “My Girl”, do Temptations. Porém, ninguém vai perder a oportunidade, pois os ingressos estão se esgotando para uma lotação de 400 lugares no teatro. Quem sabe o artista dedica um momento mais intimista e se apega ao violão folk como antigamente.
(Gustavo Aguiar/Diário do Pará)
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