“Eu fui criado pela minha avó e hoje é ela quem precisa do meu cuidado, de colocar no colo mesmo. A coisa da nudez foi algo mais metafórico, sobre como a gente precisa se despir de todos os tabus e preconceitos para cuidar dela. Sobre como é ver alguém que um dia era cheia de saúde, ativa, de repente depender de você para tudo”, conta o artista visual Victor de La Rocque. Nos braços, primeiro carregou a avó, corpo frágil, cabelos brancos, como um dia ela o carregou ainda bebê. Depois, carregou o avô, em protesto pela censura de quem não aceita a primeira imagem.
Ele conta que foi um dos filhos de dona Maria Dora, sua avó (portanto, um de seus tios), quem entrou com um pedido de processo no Ministério Público contra a imagem que fazia parte do projeto “Auto-Retrato com a Minha Avó”, realizado em 2014. Uma das alegações para o processo é a de que o artista estaria produzindo “material pornográfico com incapaz/idoso”.
“Maria Dora foi a mulher que me criou desde pequeno. Hoje ela sofre de Alzheimer, doença esta que tem se mostrado um verdadeiro desafio de provações e resgates de afeto para minha família”, escreveu Victor em rede social.
A postagem marcou o dia em que o avô – também réu no processo – precisou prestar depoimento. “Quando minha avó começou a desenvolver Alzheimer, meu avô estava com dificuldades para cuidar dela sozinho. Minha mãe trabalha, eu faço mestrado em Porto Alegre, então minha mãe pediu que os dois fossem viver com ela e assim poderia ajudar melhor. Foi quando nós passamos a ter esse convívio diário com o problema, que o pai dela (Maria Dora) teve e a maioria dos sete irmãos dela também está desenvolvendo. Quando vim para passar férias em Belém e convivi com ela, esse projeto surgiu”, conta Victor.
O artista sempre teve o apoio do avô, Rubens Branco, marido de Maria Dora. A única exigência dele foi que as imagens não mostrassem as partes íntimas da mulher – e elas não foram mostradas, nem as dela, nem as de Victor. “Estes dias, dei continuidade ao trabalho realizando a segunda etapa do projeto com ‘Auto-Retrato com o Meu Avô’, aqui em Porto Alegre. Seu Rubens, com seus 85 anos de plena lucidez, desnudou-se como num ato de resistência a este possível processo da censura, além, claro, do afeto envolvido”, declara Victor.
POLÊMICA
Não é a primeira vez que um trabalho de Victor vira polêmica. Isso já havia acontecido em 2008 quando o artista levou ao Rio de Janeiro a performance “Gallus Sapiens”, na qual utilizava galinhas. Ambientalistas fizeram piquete e a obra não foi realizada – ele, a curadora da mostra e o diretor do museu foram processados. “A diferença é que agora é dentro da minha própria família, e acho que isso é fruto dessa onda conservadora que tem tomado conta do país. As fotos nem mesmo trazem uma nudez escancarada, e não era o nu que eu estava abordando, mas o despir preconceitos”.
A mãe de Victor, Kátia de La Rocque, conta que no início não entendeu o projeto, mas depois viu ali retratada sua própria experiência como cuidadora. “Você mesmo precisa se despir de tantas coisas para cuidar dessas pessoas. Eu vejo que as pessoas que condenaram as fotos estão preocupadas mais com a nudez que com a doença”, lamenta. “Aprovei a obra porque achei bonita, porque chama a atenção para a doença. Eu já cuidei de uma tia com Alzheimer. Futuramente sou eu quem vai ter. É um tratamento que custa caro, que exige muito da família. Eu digo que a contribuição do Victor foi essa. E as pessoas perguntam se eu faria um trabalho desse jeito, e digo que faria, com certeza”.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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