Guido já foi dirigido por nomes como Amir Haddad e Wolf Maya; participou das novelas “O Rei do Gado” e “Que Rei Sou Eu?”, passando também por filmes como “Carandiru” e “Outras Histórias”, de Pedro Bial – e paremos nesta referência. Isso porque foi durante o longa realizado pelo apresentador global que Guido se reencontrou com sua origem, e deu inicio à trilogia “Sertão”. Em Belém, chega pela primeira vez com o segundo espetáculo deste projeto, intitulado “Boi”, com direção de Hugo Rodas.
O espetáculo solo será apresentando nesta sexta e sábado, às 19h, no Centro Cultural Sesc Boulevard, com entrada gratuita. O ator, Guido Campos Correa, ainda ministra gratuitamente a oficina “O Ator Contemporâneo”, para atores e não atores, no sábado pela manhã, das 9h às 12h. A chegada de sua equipe ao Norte do país se deve ao Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz de 2014, com o qual foram contemplados pelo projeto “Boi na Estrada: Brasil Teatro” de turnê do espetáculo.
“Essa trilogia é uma volta às minhas origens”, define Guido. E foi depois de assistir ao primeiro espetáculo “A Terceira Margem do Rio”, baseado no conto homônimo de Guimarães Rosa e dirigido por Henrique Rodovalho, que o dramaturgo Miguel Jorge se inspirou para criar uma possível história pensada especialmente para o ator e sua companhia de origem goiana. “Fiz 15 anos com ‘A Terceira Margem’ e só então decidi que era hora de tirar da gaveta o presente do Miguel”, conta Guido.
Trata-se da história de Zé Argemiro, que, entre suas brincadeiras de menino da roça, tem como favorita a de montar na garupa do boi Dourado. Diferentemente da vida normal que levam os outros meninos da sua idade, Argemiro prefere a companhia dos bois. Tal particularidade começa a preocupar sua mãe, Maria, e, assim que ele cresce, ela trata logo de arranjar-lhe um casamento.
Entretanto, pouco tempo depois do casamento com a jovem Das Dores, esta começa a reclamar de que o boi Dourado recebe mais carinho e atenção que ela. Tal situação agrava-se cada vez mais, até que, enciumada e cheia de ódio, a esposa ameaça matar o boi Dourado. Sua decisão afeta profundamente Argemiro, desencadeando nele uma inesperada reação. Desencadeamento digno de uma visão kafkiana do mundo, em que a gente vive uma eterna metamorfose.
Trabalho solo e a redescoberta do ator
“Quando vi o texto, pensei ‘não sou tão criativo assim’. Quando trabalhei com Henrique, diretor do primeiro espetáculo, tinha uma super luz, superequipe, super texto, uma rampa enorme. E pensei ‘como vou fazer desse jeito?’ E foi quando tirei o Hugo da manga, o convidei para a direção e ele já chegou eliminando o cenário e trazendo dois tecidos que se transformam em tudo: toalha de mesa, roupa, véu, saia, calça”.
Outra mudança trazida pelo diretor afetou a própria forma de atuar do ator, trabalhando com o deboche, o exagero, coisas que Guido havia deixado para trás. “Ele trouxe tudo o que eu achei que não servia mais, e com toda a essência do sertão presente”, comenta o ator. “A plateia vai ver um espetáculo que traz para a cena códigos, símbolos, referências ao sertão tão presentes que acabamos não percebendo. E também é bacana para o público sentar e ver que existe um maluco e toda uma equipe trazendo nesse momento – de tecnologia, informações – uma forma de olhar, respirar, ver a fotografia do lugar onde todos nós nos sentimos protegidos: o nosso sertão”.
Para o ator, mais do que uma referência geográfico/cultural, este sertão pode ganhar novas conotações para o público. “Quando fui com o primeiro espetáculo para a Europa fiquei pensando: ‘onde o público vai pensar que é esse lugar? Eles vão entender o sertão? Isso é algo tão nosso...’. E percebei que esse lugar existe em todos os lugares – é onde nós reencontramos nossos ‘eus’, para onde fugimos para recomeçar”, diz Guido.
Em um palco, sozinho, com seus “5.2” anos de idade, o ator ainda mostra toda a energia e concentração necessária para ser muitos personagens: a mãe, a esposa, o boi, o sertanejo. E ser um ator em espetáculo solo, ele diz, é uma sensação quase óbvia, “é estar absolutamente só”. Mesmo que haja uma equipe toda ali, quando dá o terceiro sinal é necessário estar nessa zona solitária.
“Essa zona geográfica do Sertão é uma solidão. Você pensa que está voando sobre o planeta, solitário, mas na verdade percebe que tem um planeta sobre suas costas, e como pesa! Não pode dar dor de barriga, sair para respirar antes de voltar em outra cena, tudo tem que estar 100%: a voz, a energia, e principalmente, o olhar. Você precisa de 50 minutos de perfeição. Quando acaba, você só consegue pedir pelo amor de Deus um copo d’água e uma coxinha”,conta , bem humorado.
E se a luz falha, alguém levanta e vai embora? Bem, isso impacta diretamente o ator. “Em compensação, o solo dá mais plenitude por essa comunicação direta com a plateia”, garante. Para os artistas que tiverem a oportunidade de acompanhar a passagem da turnê por Belém, “Boi” é um espetáculo que coloca você de frente da função da palavra e do corpo. Para o público, ele traz essa humanidade e seu livre arbítrio.
“Sertão é infinito”, escreveu Guimarães Rosa. E é isso que Guido se propõe a provar em sua trilogia. Para o terceiro espetáculo, ainda em fase de construção, Guido adianta, pensa chamar de ‘Sertãohamlet’, assim, tudo junto. “Nele pretendo trazer o sertão do Ceará, de Nova Olinda... Mantenho a parceria com Hugo, como diretor, e com ele fecho geograficamente os três sertões brasileiros”, declara com felicidade.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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