“O meu tem preguicinha”. Ainda assim, ela tenta incentivar. “Sempre compro livros pra ele. Ele lê, mas nem sempre volta pra reler aquele livro, diz que não gostou. Já percebei que ele gosta mais de livros com ilustração, então procuro comprar desses. Eu tive dificuldade com ele e achava que estava atrasado na leitura, então contratamos uma professora pra trabalhar só a leitura. Agora ele desenrola tranquilo”, conta a jornalista Camila Barros, mãe do Marco Antônio. Hoje com seis anos, faz dois que o garoto recebe apoio da professora particular, já mostrando bons avanços.
Mas quantas vezes os pais realmente param para dar atenção a essa parte do desenvolvimento dos filhos? “Se eles não falam corretamente, se o dente não nasceu ainda, se ficar de pé para eles está mais difícil, procuram logo um médico, querem saber se é normal e o que podem fazer. Deveriam ter a mesma atitude quando o assunto é o interesse dos filhos pela leitura”, afirma a professora Joana Carneiro, da rede pública de ensino.
Quem se tornou mãe ou pai antes dos anos 2000 já agradece a sorte de ter sofrido menos com a concorrência desleal de tanta tecnologia durante a infância dos filhos.
“Quando ela nasceu, em 1999, não era uma época tanto de internet. Esses bebês de depois já vão direto para tablet, joguinhos. Então tive a preocupação de dar livros, e quando pequena ela ganhava muitos, da avó, do pai”, conta a servidora pública Helena Saria, mãe da Maria Luiza, hoje com 16 anos.
Para ela, nesses primeiros anos de infância, os livros ainda não têm papel formador, “Tudo é reconhecimento, não tem um discurso naquela literatura, era a vaquinha que fazia mú”, diz, sobre livros com bichinhos e objetos. “O primeiro livro que a gente leu junto e que ela ficou muito impressionada pelo conteúdo realmente foi ‘A Volta ao Mundo em 80 Dias’. Era um livro mágico, que te transportava para outro mundo. Ela devia ter uns cinco anos”, conta Helena.
Sobre a própria formação como leitora, a mãe de Maria Luiza diz que recebeu estímulo, mas de forma muito diferente. “Os meus pais não tinham hábito de ler, era mais a minha avó. Foi uma formação mais tardia, lá pela adolescência, por causa da escola e da avó. Mas depois que tu tomas aquela pílula azul, aquele gosto pela leitura, que tu sabes que o conhecimento está ali, já vais buscar sozinho. Depois, quando fui fazer curso de francês, aos 16, isso já abriu portas para filósofos, intelectuais, que já te levam pra outra linha de leitura”.
Enfim, uma geração ainda mais distante daquela a qual Marco Antônio pertence. “A gente vive no meio de tanta tecnologia e fazer uma criança ler um livro é uma batalha porque o joguinho ou um vídeo é mais interessante para eles. O meu filho adora jogos, tablet, celular... Fica difícil tirar tudo dele. Mas sempre procuro dar livros. É bem difícil. Usei uma estratégia com ele. Ele tinha que aprender a ler para ler o que diziam os jogos que ele gostava de jogar”, conta Camila.
E assim, as mães fazem de tudo, menos desistir. “Ele está sendo alfabetizado, tem seis anos ainda. Vejo que é indispensável para a formação dele conhecer as palavras, compreender o que ele lê... Enriquece culturalmente e tem que começar pequenininho pra pegar gosto. Não quero que ele leia apenas por obrigação, pra passar de ano na escola. Quero que seja um hábito prazeroso, que ele leia porque gosta”, diz Camila.
“Educar um filho de forma que ele goste de ler faz toda a diferença”, garante Helena, defendendo um dos grandes ensinamentos trazidos com os livros – entender o desconhecido. “Quando você lê algo que não é tua historia, o teu meio, isso cria um sentimento de empatia com o desconhecido, de entender outras realidades”, diz Helena. “De austeridade”, completa a filha, Maria Luiza. “Está vendo? Ela já me corrige”, brinca Helena, e sintetiza: “A leitura ensina que o outro é digno de respeito e isso faz toda diferença na formação de seres humanos”.
Foi um hábito que Maria Luiza garante, lhe deixou boas lembranças e ensinamentos. “O primeiro livro que me vem é ‘O Pequeno Príncipe’. Lembro porque foi o primeiro que eu li totalmente sozinha”, diz ela. Sempre com um livro na bolsa, a mãe encontra “O Estrangeiro”, de Albert Camus pelas coisas da filha. “Em alguns amigos vejo esse interesse muito mais e em outros nem um pouco. Depende muito da criação, eu acho”, diz Maria Luiza.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar