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O segredo da leitura está no incentivo

A professora Roberta Macedo já deu aulas em escolas municipais e estaduais, largou tudo para ter seu próprio curso de redação. Atuando no último estágio da formação básica de um aluno, percebeu como o hábito da leitura é quase inexistente entre a maioria

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A professora Roberta Macedo já deu aulas em escolas municipais e estaduais, largou tudo para ter seu próprio curso de redação. Atuando no último estágio da formação básica de um aluno, percebeu como o hábito da leitura é quase inexistente entre a maioria dos jovens – todos candidatos a exames como o Enem e o Prosel. “Eu tive que aumentar a duração das aulas, agora são cinco horas por dia, exatamente porque levo muita leitura para discutir, ler junto, sem isso falta argumentação para escrever uma redação”.

Que o diga Bianca Correa, hoje com 20 anos, tentando o vestibular pela terceira vez. “Nunca fui acostumada a ler, não tive o incentivo desde criança. Não tive na escola e em casa ninguém lê. A consequência disso é que tenho dificuldades com interpretação de texto. Eu tentei ler ‘O Pequeno Príncipe’, porque achei que devia ser interessante, e já tentei ler outros que eram importantes para a escola como Karl Marx, mas não consigo ter uma boa compreensão, então acabo desistindo. Outra dificuldade que tenho é com a velocidade de leitura, que também me faz desistir”, lamenta.

Maria Luiza, 16 anos, é o oposto, começou cedo, com a mãe lendo para ela, devora os livros com incrível facilidade. O único ponto em sua história se compara a de Bianca é que na escola também não viu a leitura receber grande atenção. “Na escola, quem está interessado vai atrás, mas quem não está não vai. E não vejo uma grande estratégia para fazer essa turma ler. É sempre ‘vamos estudar isso, leiam aquilo’, e a maioria prefere procurar resumo na internet. Talvez se eles começassem por textos mais curtos, de mais fácil compreensão, até os alunos terem esse hábito, nivelar por baixo, sabe?”, sugere a estudante.

A professora de redação diz que não é bem assim. “Existem projetos para incentivar a ler nas escolas, salas de leitura, o que não há é uma cultura de leitura entre os brasileiros. O professor muitas vezes tem a vontade de mostrar, mas falta aquela iniciação em família”. Para Roberta, a sala de aula é uma continuidade do que se aprende em casa, quando o processo é contrário, tendo que iniciar na escola, é mais difícil.

“Quando eu dava aulas pelo município, por exemplo, fazia leitura com os alunos, levava livros para eles, fazia gincanas, discutia sobre os temas dos livros para incentivá-los a refletir sobre o que leram. Um problema dessa falta de cultura no país é esse entendimento errôneo que as pessoas têm do que é de fato ler. Leitura não é decodificar um conjunto de letras, mas entender, pensar sobre o que está escrito. E essa leitura prazerosa, consciente, é muito difícil de ser obtido de uma pessoa que não vê os pais lendo, que não tem livros em casa”, afirma.

Roberta também discorda do uso de “leituras obrigatórias” como as apresentadas em todos os vestibulares do país como estratégia para ampliar ou formar leitores.

“Tudo que é obrigatório não é prazeroso. O aluno acaba indo para o resumo ou paga por um curso onde o professor vai entregar tudo mastigado. São raros os que se interessam de fato por aqueles livros, geralmente são estes que já liam muito antes de isso ser uma obrigação trazida pelo vestibular”, considera a professora.

A conclusão então é simples: quanto mais cedo, melhor; se os pais leem, os avós dão livros, os assuntos que interessam à criança são levados em consideração, a escola torna os livros objeto tão natural e presente quanto computadores e celulares, melhor ainda. “E, se ele não lê, leia para ele”, recomenda a professora.

(Lais Azevedo/Diário do Pará)

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