Eliane Band já tinha ido ao Nepal, país asiático, por três vezes. “O Oriente me fascina desde a adolescência, quando sonhava ver o Himalaia”, diz ela, referindo-se à mais alta cadeia montanhosa do mundo, a qual se estende até o planalto tibetano. Um dia, a bem-sucedida promotora de eventos decidiu abandonar a vida que tinha no Brasil para passar três meses fazendo um curso de filosofia no país. “Precisava me reinventar, me nutrir, ver outros pontos de vista, precisava dar uma virada na minha vida. Apesar de viver uma vida absolutamente satisfatória, eu tinha uma inquietação interna. Pedi demissão e fui. Acabei passando um ano estudando, depois decidi viajar sozinha pela Ásia”.
A jornada acabou registrada no livro de fotografias “Mundos Esquecidos - Uma Jornada Através da Ásia” (Luste Editores). Nele, Eliane conta, através de imagens, histórias de povos asiáticos pouco conhecidos e suas tradições preservadas em quase total isolamento pelos interiores de lugares como a China, Vietnã, Nepal, Mianmar, Laos, Indonésia e Índia. “O livro retrata meu encantamento e respeito por esses mundos. Por tudo o que nós do Ocidente perdemos pelo caminho, deixamos passar, como compaixão, integridade, respeito pelos mais velhos”, diz Eliane.
Viajando sozinha a maior parte do tempo, a brasileira conheceu muitas pessoas, moradores e outros viajantes, pelo caminho. Uma das viagens mais difíceis, conta, foi à China, onde em alguns momentos contou com a companhia de uma amiga. “Eu montava uma espécie de base em uma cidade pequena, mas com estrutura mínima, e de lá partia em busca dessas etnias isoladas. Houve situações em que tive que dormir no carro e coisas desse tipo. Eu usava transporte local a maior parte do tempo, interagia com as pessoas, passei alguns períodos longos morando em determinados locais”, conta.
Entre as diversas descobertas, destaca sua primeira ida ao Laos, país que faz fronteira com o sul da China. “Me marcou muito o povo indígena Akha, que vive nas montanhas do Laos e da Tailândia, na Ásia, era uma comunidade muito autêntica, que me fez cada vez mais ir em busca dessas etnias que ainda mantém uma tradição de indumentária, que contam suas histórias através do bordado. Eles tem muitas subdivisões, de 28 a 30, são muito ricos simbolicamente. Pelas vestimentas, você sabe de que classe social são, em que região moram. Na entrada dos vilarejos existe o chamado ‘Portal dos Espíritos’, feito para protegê-los”,
conta Eliane.
A própria fotografia, que agora colabora para que ela compartilhe sua experiência, nasceu do impacto que este encontro com mundos tão diferentes causaram em sua vida. “O Ladakh também se mostrou um lugar incrível, conhecido como pequeno Tibet, foi onde comecei a ficar fascinada ao ponto de querer fotografar tudo. Ali as pessoas vivem em condições muito difíceis, faz -40°C a maior parte do ano, mas elas são de uma integridade e bondade enormes – coisas que aqui no Ocidente eu já não reconhecia”, diz ela.
Após viver três anos naquela região, Eliane quer mostrar ao mundo o que viu e aprendeu com pessoas que preservam suas tradições, vivem em harmonia, possuem um altruísmo genuíno e são felizes – apesar das condições de pobreza. “Em um vilarejo, onde mulheres bordavam, um rapaz chinês passou vendendo várias coisas. Uma das bordadeiras não tinha agulha e também não tinha dinheiro para comprar. Vi ela cortar um pedaço do próprio cabelo e dar a ele. Quando ele abriu um saco para guardar, lá dentro estava cheio de cabelo; entendi então que aquela tinha sido uma moeda de troca. Ao voltar para sua cidade ele poderia fazer perucas para vender”.
Assim, mais do que lindas imagens, sua intenção era trazer a história e a tradição refletidas nos rostos marcados destas minorias étnicas que estão escondidas no interior asiático, suas paisagens deslumbrantes, personagens inesquecíveis e narrativas marcantes. “As mulheres da tribo Palaung usam cintos para se manterem ligadas à terra; as crianças da etnia Yao usam chapéus que, segundo as tradições, protegem-nas dos maus espíritos”, exemplifica, Eliana, sobre os diversos simbolismos mostrados em “Mundos Esquecidos”.
As fotos selecionadas para compor o livro receberam tratamento básico. Eliane queria que fossem fiéis aos lugares e às situações vividas pelos personagens. “Meu objetivo é preservar a realidade daqueles povos, por isso as interferências foram sutis”, explica. No próximo dia 17 de outubro, ela irá voltar ao Oriente para uma nova temporada. Desta vez, tentará o sonho de conhecer e conviver com a cultura da Mongólia. “Quero ver os nômades da Mongólia, os caçadores com águia; eles ainda viajam de forma muito preservada, pegam os cavalos, suas casas e partem; quero muito ver uma dessas caravanas”, já sonha.
Quanto a “Mundos Esquecidos”, lançado nesta quinta-feira, com texto da jornalista Julia Laks, Eliane modestamente o recomenda ao leitor. “Acho que a gente não tem muita ideia de como é a vida e a cultura na Ásia – esses mundos isolados, as riquezas de suas tradições, aqui do Brasil não temos esse alcance. Acho que o leitor vai se enriquecer com essa cultura, esse olhar generoso que eles têm, seus pontos de vista são muito bons pra gente. Se eu estivesse no lugar do leitor, esse seria um livro que me interessaria muito, tanto pelas histórias quanto pela beleza dos lugares registrados em fotografia”, recomenda.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar