"Eu pensei em um release decente [material de divulgação que geralmente é passado às redações]... Algo que fale de elementos universais expressos através da música. Como o tempo, por exemplo. O estilo, o som, o ruído, a simbologia disso... o que constrói a música...". O músico paraense Pio Lobato, 43, um dos guitarristas mais importantes da música feita hoje no Brasil, fala. As palavras, frases, parágrafos, se sucedem, linha após linha, mas não há som. Há o silêncio - atravessado pelo estalar de teclas e por balões emoldurados pelos tons sobrepostos de azul da caixa de troca de mensagens.
"Quando a gente sai do Brasil e se depara com gente que te pergunta essas questões, percebe o quanto é provinciano", pondera, justificando e situando a urgência. "Não que a identidade local seja algo secundário... mas a abordagem mais comum [desse material que chega às redações explicando o que é a atual música paraense e o que fazem hoje os seus artistas] é que descrevam a música local como ferramenta de orgulho, de alguma identidade, e nada além disso... Como uma bandeira... Como se não houvesse bandeiras em todos os lugares".
É a urgência de sempre. Irrequieta, por vezes submersa no corolário do bom humor ácido, ou na postura taciturna - nem por isso menos verborrágica. É a mesma constante dos 22 anos de carreira como guitarrista e produtor, um dos principais responsáveis pela relevância hoje conferida ao gênero da “guitarrada” paraense no cenário nacional - um feito com grandes impactos para a atual cena autoral local e seu mais novo flerte com os palcos nacionais,construído com um dos mais respeitados trabalhos de experimentação pop e de releitura musical feitos hoje no Brasil, com projetos solo e ao lado do extinto grupo Cravo Carbono (1996-2008).
E agora, a urgência dilata-se sobre novas coordenadas pinçadas no tempo e no espaço. Por dois anos Pio Lobato trabalhou para lançar seu novo álbum. Um ano inteiro se passou apenas com a captação de patrocínios. Outro foi dedicado apenas à produção de "Pio Lobato", o "disco azul" do compositor, como já é apelidado, que finalmente ganhará seu lançamento esta sexta, 6, à noite (19h), no porão da loja Discosaoleo, do radialista e empresário Leo Bitar (na Travessa Campos Salles, 628, na Campina, em Belém).
"Pio Lobato" chega em um LP duplo, de 180 gramas, com tiragem limitada de 500 exemplares. O pedido mínimo para as empresas especializadas é de 300 unidades. São também mil CDs. São 16 faixas. Ao todo, 15 mais a extra que não está na lista do disco, "Batucada".
A masterização foi feita no Classic Master, estúdio renomado de São Paulo onde os trabalhos ficam sob responsabilidade do lendário Carlos Freitas, uma das autoridades nos assunto no país. O trabalho de Freitas foi duplo, porque é preciso uma masterização especial para vinil e outra para CD. São dois universos sonoros diferentes, que os bons ouvidos sabem bem diferenciar.
O quinto disco solo de Pio Lobato chega após sete anos sem lançamentos - antes vieram "Café" (2001), "Café 2" (2006), "Esboço" (2007) e "Tecnoguitarradas" (2007). Não foi um hiato. Em paralelo, ainda soavam pelo Brasil, e também em shows no exterior, os ecos do projeto “Mestres da Guitarrada”, pensado por Pio para reunir, ainda em 2003, os mestres Curica, Vieira de Barcarena e Aldo Sena. Assim, "Pio Lobato" chega como som que rompe tempo. A cor disso é a partida de um limiar azul, atravessando a volta grande do rio para fluir de novo. Muita água correu. Mais virá, ao que parece. Confira entrevista exclusiva cedida ao Você.
Em outros discos solo, não houve parceiros em músicas. A participação de Lucas Estrela no álbum então é uma novidade. Como é essa experiência... que inclusive está sendo materializada em um novo projeto musical, chamado 2x2?
Não, que eu lembre. Nas composições instrumentais, não. A ideia começou porque o Lucas é muito fã do “Tecnoguitarradas”[álbum de Pio Lobato de 2007]. Então ele começou a compor material próprio, e eu estava fazendo umas experiências. Propus a ele enviar uma melodia para ele criar o arranjo, e para a gente ir batendo bola através de arquivos na net. Ele elaborou o arranjo e eu entrei com timbragens na faixa 2x2. Até que levei para o estúdio e a música ganhou um corpo bacana. É um tecno, mas com tratamento VIP, mixada em canais independentes e tal. Eu tinha um esboço da música também, e a gente meio que misturou as coisas.
E como foi a experiência?
Eu gostei muito. A partir daí juntamos músicas, que têm mais ou menos o mesmo conceito, e a gente bolou o projeto 2x2, que a princípio será tocado por 2 guitarras e 2 notebooks.
Toda a tua discografia é baseada em CD, e numa era em que a digitalização facilitou muito a produção e o compartilhamento da produção independente. Como surgiu esse lance de fazer agora, além do CD, também a versão em vinil... O que você achou de fazer esse trabalho em discão?
A diferença do vinil é o tempo para ouvir a música. Você tem que se dispor a tal. E é como diferença da qualidade, como da foto no papel e sua versão na tela do computador.
O roteiro do disco foi pensado com isso na cabeça?
Sim. Totalmente
Para conduzir a audição? Nada de pular faixas...
Sim.
Do tipo, "ouça assim... é assim que eu quero"?
Não. É "assim que fica mais cômodo". A não ser o disco dois...
O que tem o dois?
O lado D funciona todo. É pensado como uma coisa só, tirando a faixa extra [Batucada]...
Vamos dizer assim... que todo disco tem um motivo inicial. Por vezes é uma pá de músicas feitas que precisam ser reunidas... Noutras pode ser numa nova leva produtiva, com base numa aventura criativa, com algum aparato técnico novo, novas experiências, como foi contigo com o Echoplex, os loops etc etc. Qual a liga inicial do disco "Pio Lobato"?
Algumas músicas, as do disco 1, foram pensadas como uma coletânea misturada com inéditas, porque eu não tinha "registro oficial" anterior. E esse é um disco finalmente "documentado", com registro oficial de músicas e ISRC [...]. Já o disco 2 se permite mexer mais com a linguagem... A ideia inicial era somente um CD. O vinil foi impulso do Léo [Léo Bitar, radialista e proprietário da loja e espaço cultural Discosaoleo]. E o vinil tem outro tempo de raciocínio com a música, que é muito mais próximo de como eu aprendi a ouvir música. É mais respeitoso, atento. Tem um gesto mecânico para pular as músicas... não basta dar o pit [risos]. Não tem controle remoto para vinil.
Então é a mídia que, digamos, você esperava? Para se ver, afinal, Pio Lobato como ele entende esse processo criativo? Passastes toda uma temporada produzindo em CD...
A gente só entende quando percebe o choque. Quando isso faz falta. Quando pega o vinil que gosta e vai ouvir de novo, porque a música te chamou. Vinil não é para preguiçoso. Dá trabalho manusear, cuidar. O som é mecânico. Na masterização em CD, por exemplo, o cara tem que dar os descontos de compressor excessivo do estúdio digital. No vinil a música ganha mais profundidade. Não fica aquele volume alto, chapado, ultracomprimido. A música tem que respirar, senão distorce e estraga. O vinil dá uma amaciada. Esse vinil 180 gramas é o que tem de melhor no país. É o mais grosso. Enfim... há um monte de detalhes técnicos que qualquer disco de vinil pode ter... mas acho que isso valoriza a música, que é o principal.
Em termos de momento de técnica, de tuas experiências e labutas com o aparato da guitarra... já vi o Pio do pedal zoom, o do Echoplex, o dos loops... Onde te situar hoje? O que estás burilando... Ou "Pio Lobato" é uma destilação do que já fizestes, um grande balanço?
Talvez seja o momento da construção da forma e da textura. Essa coisa de fazer música longa, de costurar os temas, dá um barato. É contar uma história, meio como um DJ, com roteiro fixo, mas onde se consegue manipular a música, mais do que atuar como apenas um repetidor... O que pode ter de novo nesse disco é o jeito de fazer. A receita, os ingredientes... Comparar música com comida e psicologia com futebol ajuda muito [risos].
Você vê esse disco como um balanço geral, Pio? Mesmo com tantas músicas novas? Ele parece com aquele momento em que se para, e olha para trás para dizer... caramba... olha o que eu fiz... Aí se suspira, pega um fôlego e segue adiante...
É uma mistura. Até porque precisa balizar algo de teu trabalho, de alguma forma, para quem conhece e para quem não o conhece. Um disco de regravações não faria sentido. Nem um só de inéditas, porque às vezes todas são inéditas para alguém...
Isso é importante, mas também é meio louco. Com tanta coisa disponível na web, digitalmente... muitas as pessoas ainda precisam ser balizadas, porque não viram nada, mas também não se interessam por nada... Que achas disso?
Porque isso é real. Cada um vive no seu mundinho. É capaz de olhar para o disco apenas por ser vinil... e descobrir que tem música dentro [risos]. A ideia inicial era lançar só o "Barco" [a faixa "O Barco que Afundou na Memória"] em vinil, num compacto. Surgiu essa ideia com o Léo Bitar porque essa música é maior. Ela foi concebida assim, meio fora de contexto. Fizemos inclusive arte e tudo mais.
Quantos minutos tem "O Barco que Afundou na Memória"?
Tinha no total 12 minutos e mais uns quebrados. Compacto é para 15 minutos. Por isso a ideia era fazer um compacto...
Ouvi vocês falando nos ensaios que é a música "longa" do show. Mas tens ideia de que não parece tanto? Eu tive essa impressão em todas as execuções que ouvi... Não parece uma "música longa". Parece do tamanho certo, redonda...
Então deu certo. Eu gostei dessa onda, de fazer os arranjos gradativos, estudar os climas...
São coisas que acontecem... "Faroeste Caboclo", do Legião Urbana, por exemplo, tem nove minutos... E tocou nas rádios. Era redonda... nem mais, nem menos...
Sim, exatamente. A ideia é que "O Barco que Afundou na Memória" fosse uma "Autobahn" de igarapé [referindo-se à música do grupo alemão Kraftwerk]. Começou assim, mas depois foi tomando o rumo dela. Foi ficando daquele jeito. E a gente só sabe se fizer.
Uma vez vi uma pessoa comentar, após um show seu, há dois anos: "Poxa, mas o Pio está com o mesmo show, as mesmas músicas... parece que nada mais aconteceu". O que você acha desse tipo de crítica? Até porque parece que há coisa nova agora, não?
Verdade. Cansa. Mas há coisa nova agora. Se o público está balizado, se guitarrada não é mais nenhuma novidade, a gente pode mexer na linguagem, sem receio de parecer distante.
Por muito tempo a figura "Pio Lobato" estava umbilicalmente ligada a inovação... a fronteiras, a novidades a se explorar em música daqui, do Brasil. Isso permanece? Para onde se vai agora, Pio?
Com um "cartão de visita" fica mais fácil dialogar, né? Me lembro que "Peixe Vivo" [segundo álbum da extinta banda Cravo Carbono, de 2001] abriu um monte de portas estéticas para a gente. Não tinha uma banda congelada naquele disco. O "Mundo-Açu" [primeiro disco da banda Cravo Carbono, de 1999] foi o cartão de visita. Pois esse "disco azul" é um cartão de visitas. Égua, chegar aos 43 anos e concretizar um cartão de visitas... Pelo menos é consistente e me agrada [risos].
Mas essa necessidade de apresentar sempre algo novo, na fronteira, pode ceder também a um estabelecimento de algo rico e bom. Afinal, o que já foi construído também é importante... como o Mestre Vieira de Barcarena...
Também. Mas agora eu estou na liga de costurar as ideias. Porque fazer apresentação de tocar, e parar pra blá-blá-blá é um pouco chato. E tocar direto também se torna incômodo, porque não se explicam as músicas. Quem ouve passa batido. Então, se fizer um musicão, logo acaba com a graça [risos]. É bom explicar só de uma vez e tchuns. É aquela coisa... a gente determina a intenção da "sequência máxima" e mete a cara... A diferença é costurar a sequência, de forma que se torne um todo coerente, vire narrativa. Estou nessa viagem agora. E isso a gente só pode saber na prática, tocando e testando.
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(DOL)
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