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Carimbó recebe registro de patrimônio cultural

Amanhã será um dia especial para o carimbó, uma das mais importantes formas de expressão artísticas do Pará e região amazônica. Inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 11

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Amanhã será um dia especial para o carimbó, uma das mais importantes formas de expressão artísticas do Pará e região amazônica. Inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 11 de setembro de 2014, a manifestação cultural ganha amanhã, oficialmente, o título de patrimônio cultural brasileiro, em uma cerimônia às 18h, onde mestres e grupos de expressão, além de líderes da campanha que levou o carimbó a tal título, estarão presentes.

Não se trata só de formalizar e festejar o feito. Na ocasião também será instalado o Comitê Gestor da Salvaguarda do Carimbó, que será responsável por propor ações de valorização do carimbó.

Além dos grupos, os eventos terão a presença do diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan, TT Catalão, e de representantes de bens culturais registrados de outros estados, e acontecerão no Museu do Estado do Pará, na Cidade Velha.

“A solenidade consolida esse reconhecimento do carimbó como referência cultura no país”, declara Cyro Lins, técnico do DPI-Iphan no Pará.

Carimbó quer ser sustentável

Mais do que a entrega de um documento, “existe um significado político neste reconhecimento para cada mestre e grupo, cada pessoa que tira do próprio bolso o necessário para manter esse patrimônio vivo”, destaca Isaac Loureiro, coordenador da campanha pelo registro do carimbó. Para os integrantes dos grupos, este documento dá respaldo em suas lutas junto às esferas governamentais e incita debates sobre questões urgentes, como a salvaguarda de todos os elementos ligados ao carimbó.

“O carimbó sempre foi patrimônio. Na origem desse termo está que ‘patrimônio’ é aquilo que se herda dos pais. E a gente sempre cuidou dele como tal. Agora, o que está acontecendo é o reconhecimento dele pela estrutura governamental do país”, destaca Isaac Loureiro. Através desta afirmação de direitos, os mestres aguardam atitudes concretas que levem o carimbó a ter mais espaço nos veículos de comunicação, inclusão no calendário de eventos culturais, o registro e a transmissão de seus saberes, além de acabar com a imagem de marginalidade.

BALANÇO

O registro do carimbó como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, aprovado por unanimidade, ocorreu no dia 11 de setembro de 2014, em Brasília, pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, formado por representantes da União e sociedade civil.

Para Issac Loureiro, um balanço dessa luta pode ser feito de maneira subjetiva ou racional. “Hoje nossa própria percepção sobre o carimbó e nosso papel na cultura mudou. A luta nos fortaleceu, não aceitamos mais ser tratados com desrespeito”, diz ele.

Essa autoestima também se deve ao acolhimento que eles vêm recebendo e ao carinho do público. Mas, uma boa reflexão a ser feita, é que essa valorização está ocorrendo principalmente fora do Pará.

Seguindo o “lado racional”, fica claro que o caminho ainda é longo. Um exemplo disso é que nesse um ano e dois meses após o registro, de 150 grupos de carimbó, menos de cinco conseguiram gravar CD, e todos foram com recursos próprios ou em parceria com algum outro projeto. “Como um bem cultural baseado na música vai difundir sua produção sem ter nem como gravar um CD?”, questiona Isaac.

“E quando se trata de cachês, o mesmo continua ser proposto, tocar de graça, principalmente em eventos do governo e prefeituras. Já a banda que vem de fora não recebe só transporte e lanchinho”, completa Isaac.

OBJETIVOS

Para Cyro Lins, técnico do Iphan no Pará, um dos grandes desafios é abranger todo o Estado. “Alcançar o máximo possível de mestres e grupos com ações de valorização, capacitação, apoio, é o grande desafio. É um diálogo necessário até para que eles mesmos possam dizer quais são seus problemas, o que é mais urgente”, diz ele.

Mas Isaac também destaca que o Iphan assumiu uma responsabilidade grande, e precisa antes melhorar sua estrutura e orçamento “baixíssimo” - segundo ele, “algo em torno de R$ 700 mil - para a salvaguarda do patrimônio material e imaterial juntos.

“Por isso nosso esforço inclui pressionar Brasília e Ministério [da Cultura]. Eles não podem criar uma expectativa e depois dizer que não têm recurso, não têm gente suficiente no Iphan do Pará”, afirma.

A busca por organização e a elaboração de projetos também estão entre as metas. “Ninguém quer viver dependente, queremos buscar condições para a sustentabilidade. Uma vantagem destes dez anos de luta é que aprendemos bastante sobre auto-organização, o que nos deu expressão política, nos ensinou a conquistar muita coisa sem recurso nenhum”, comenta Isaac.

Nos próximos dias 19, 20 e 21 de novembro, mestres e representantes de grupos da campanha do carimbó passam pelo primeiro módulo de capacitação para a gestão e elaboração de projetos culturais. No segundo módulo, previsto para o mês de janeiro, sobre organização comunitária, contarão com a presença de representantes do samba de roda da Bahia – bem cultural com 10 anos de registro. No mesmo período, ocorrem as duas primeiras reuniões do Comitê Gestor da Salvaguarda do Carimbó, outro passo inédito e muito aguardado.

(Lais Azevedo/Diário do Pará)

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