Rafael Soares teve um instante inesperado em sua vida – um palhaço, sem conhecê-lo, entrou no ônibus e lhe disse: “Rafael, cara de papel, demorei, mas cheguei”. Foi daí que resolveu formar com amigos o Circo Invisível e escreveu o primeiro espetáculo do grupo: “Le Temps et le Amour”. Nele, fala do amor arquitetado pelo universo, que pode fazer duas pessoas se encontrarem em qualquer esquina, como num encontro marcado – mesmo que demorado – para retomar uma relação de afeto muito antiga, talvez vinda de outras vidas.
A estreia do espetáculo, que também marca a estreia do Circo Invisível nos palcos, será neste sábado, às 20h, no Teatro Experimental Waldemar Henrique. Com substancial simbolismo, “Le Temps et le Amour” mostra desde a delicadeza da origem do amor até a dor da separação; desde os primeiros carinhos entre os neandertais até a liquidez dos corações virtuais entre os contemporâneos. Cercada por histórias paralelas, sua protagonista aventura-se buscando seu amor em locais que vão além do espaço-tempo da Terra.
“Durante os ensaios, novas ideias foram surgindo e nós, os outros membros do grupo, fomos adaptando, moldando esta dramaturgia criada pelo Rafael”, conta Amanda Monteiro, que integra o elenco ao lado de Caio Bentes, Diego Leal, Eliane Gomes, Isabela Lima, Patrick Marques, Rafael Soares, Renato Baena, Ruber Sarmento e Thaíza Teixeira.
Apesar de ser um elenco formado por jovens, todos já tinham alguma experiência com o teatro ou com o circo e a maioria já possuía seu clown (seu palhaço), o que dá também um tom humorístico ao espetáculo. Mas seus integrantes são bem enfáticos ao afirmar que o Circo Invisível não é só um grupo de teatro, tampouco se define apenas como circense. “Toda e qualquer expressão artística é bem-vinda na hora de preparar os espetáculos. Não se assuste se um dia um trapezista falar com você e tocar um instrumento ao mesmo tempo, ou se um palhaço lhe fizer chorar, sorrindo. Peter Brook, Yoshi Oida e Meyerhold, filmes europeus e as musicas de Bach são algumas de nossas referências”, descreve Amanda.
Yoshi Oida está presente em algumas cenas de “Le Temps et le Amour” através de uma de sua mais importantes criações, o Teatro Nô, ensinando a “extrair o máximo de significação com o mínimo de expressão”. Já Meyerhold, teórico e técnico que desenvolveu a biomecânica para o teatro, foi ponto chave na preparação dos movimentos e jogos de máscaras realizados para este espetáculo. “Uma de nossas características é de usar poucos objetos cenográficos, focando na atuação, um dos motivos para o nome do grupo ser Circo Invisível”, explica Amanda.
Por ser o teatro um tipo de arte que pode reunir todas as outras artes – atuação, música, dança, circo, cinema – a ideia do grupo é conversar com todas, ainda que neste primeiro espetáculo o elemento circense seja o mais presente através da figura do palhaço. “Ele está presente em movimentos, piadas, brincadeiras de clown, e a cena que mais retrata isso é uma que aborda o amor juvenil na escola, mas é melhor não falar muito porque senão sai spoiler”, brinca Amanda, e convida o público: “Nosso objetivo vai além dos aplausos. Se quem nos assiste voltar para casa refletindo sobre o que viu sobre o palco, quem ganha é a arte. E é isso que desejamos”.
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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