No final da entrevista que concedeu ao caderno VOCÊ, do Diário do Pará, na sede do Instituto Cultural Aliança Francesa de Belém, Michel Onfray, um senhor de 56 anos, puxa o celular com certo entusiasmo comedido e mostra fotografias de peças de decoração que enfeitam seu apartamento na França. São cocares, peças que foram usadas por curandeiros e membros sociais importantes em sociedades que foram consideradas pelos europeus, séculos atrás, como inferiores. Em seu último livro, “Cosmos”, Michel, que é considerado o mais importante filósofo francês vivo, não deixa de propor ideias que chocam os pesquisadores de universidades. Para ele, o segredo para o hedonismo, uma vida baseada no prazer e na felicidade, é o encontro com a natureza. E ele aponta que são os xamãs, membros de sociedades indígenas, os verdadeiros filósofos.
Entre a renúncia de teorias de Freud e do sistema de produção de conhecimento das universidades, o pesquisador já disparou, em cerca de 30 países, mais de 60 títulos assinados por ele e escritos em sua residência no interior da França. Aposta na vida simples como segredo para o sucesso na vida pessoal e acadêmica. Criou em 2002 um sistema universitário revolucionário em que todas as pessoas são bem-vindas para serem estudantes, sem precisar de taxa de inscrição, mensalidade, de títulos acadêmicos ou qualquer estudo precedente.
O pesquisador esteve visitando algumas cidades da América Latina e, em caminho à Caiena na Guiana Francesa, decidiu bater um papo com os belenenses, mas de passagem. A ideia é passar mais dias na Guiana, onde irá tentar visitar uma tribo indígena, num caminho de quatro horas de barco. As experiências e teorias vividas e escritas por este filósofo são, no mínimo, curiosas e pertinentes, criticadas e debatidas no mundo inteiro, fazendo com que as pessoas pensem sobre suas próprias vidas além da religião.
O que faz com que as pessoas não sejam hedonistas, não vivam para a felicidade?
É porque as civilizações não conseguem se constituir sem a repressão do prazer, por isso não conseguem aceitar o hedonismo. Funciona para todo o ocidente judeu cristão. Esse judeu-cristianismo fala que o prazer da carne é mal. Então, o erro para o cristão é renunciar esses prazeres do corpo. Por isso, para a civilização cristã o hedonismo é o inimigo para matar.
No teu último trabalho, “Cosmos”, que ainda não tem tradução para português, falas dessa relação do homem com a natureza. Esse seria um caminho para uma vida sem dor?
Sim, é uma proposta pós-cristã, que nos convida a tirar as lições não na Bíblia, mas no Cosmos, na natureza. É essa natureza preservada mesmo, onde nós estamos agora, mas venho do Chile e antes de São Paulo, e não existe mais contra-natureza do que São Paulo, e o Brasil tem os dois: a natureza preservada e as Megalópoles.
Outra relação que tu trabalhas é a de autonomia e liberdade. Essa discussão pode mudar o sistema em que vivemos hoje?
Você pode ser hedonista sob um ponto de vista individualista e sob um ponto de vista político. E, politicamente, hedonismo significa o melhor para o maior número de pessoas. Eu acho que é o partido de esquerda que pode fazer o melhor, promover maior felicidade para o maior número de pessoas. Porque o governo deve ser uma ferramenta para ajudar a compartilhar as riquezas e fazer um sistema mais igualitário a todos. É um pouco complicado, porque eu defendo o princípio da autogestão, feita pelas próprias pessoas, o que pressupõe uma democracia direta e representativa, local e departamental, como tem na França, e a ideia é que o estado possa garantir a realidade da igualdade entre todos.
E na Universidade Popular de Caen, criada por você, como funcionam lá essas relações de poder?
É um bom exemplo, porque a Universidade é um laboratório do que pode ser uma boa política. Somos todos voluntários, trabalhamos gratuitamente, o público vem e não se cobra dinheiro ou títulos ou diplomas. Os professores são indicados pelos outros professores e dessa forma se pode ser um professor pela universidade popular. Quem faz a gestão sou eu e mais uma gestora (que o acompanhava na viagem).
A gestão de vocês seria a mesma função do governo nessa política de autogestão?
Sim, seria isso. Nós poderíamos representar o governo, mas não apenas nós, porque os professores organizam seminários para as aulas sem precisar de autorização pra isso, porque, sendo só nós dois, isso seria um tipo de despotismo iluminado. O que acontece é mais uma autogestão: não fiscalizamos e não fazemos questão de pedir relatórios e acompanhar o que acontece.
Então, qualquer pessoa do mundo pode ser aluno da escola?
Sim, não importa a idade ou condição social, temos motoristas de caminhão, pessoas de serviço geral do hospital e o chefe de serviço do hospital na mesma sala, uma senhora era aposentada de serviços funerários e agora é aluna da escola.
Qual a importância das trocas de experiências nessas visitas na América Latina e na Amazônia, com outros pesquisadores?
Eu sou mais interessado em encontros com xamãs, do que com universitários, porque os xamãs levam uma sabedoria empírica, quando os universitários levam uma sabedoria teórica. Eu prefiro o discurso de um xamã que fala sobre a natureza, do que um universitário que fala da natureza a partir das palavras de outras pessoas.
Eu tenho no meu apartamento na França alguns enfeites de xamãs indígenas do Brasil. Eu acho que os xamãs são mais filósofos do que os filósofos ocidentais, por conta da vida na natureza mas também a sabedoria que eles carregam, em relação à cultura. No caso deles, a natureza não é contraditória com a cultura. Ao contrário, a cultura lhes permite entender a natureza. Quando no ocidente, a cultura é o que permite escapar da natureza.
(Gustavo Aguiar/Diário do Pará)
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