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Os dias amazônicos de Clarice

Um dos raros acontecimentos da vida de Clarice Lispector e que permanece desconhecido do grande público é sua estada de seis meses em Belém do Pará, coração da Amazônia. Em janeiro de 1943, a escritora acabava de lançar seu livro de estreia, “Perto do Cor

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Um dos raros acontecimentos da vida de Clarice Lispector e que permanece desconhecido do grande público é sua estada de seis meses em Belém do Pará, coração da Amazônia. Em janeiro de 1943, a escritora acabava de lançar seu livro de estreia, “Perto do Coração Selvagem” e, recém-casada, seguia para a capital paraense – a caminho de Nápoles, na Itália, onde acabaria por visitar as lavas ainda quentes do Vesúvio. Durante este evento, o gesto da escritora, registrado em uma fotografia em preto e branco, de se virar e olhar para trás, como um animal à espreita, acaba por deflagrar toda a história de um documentário ainda por vir.

“Ainda não foi definida a estrutura visual do documentário. Partimos de imagens de arquivos, fotografias, em geral, em preto e branco. Não sei se vamos partir para as entrevistas. Não gosto do estilo um tanto quanto reportagem para o documentário”, comenta Ney Ferraz Paiva, poeta paraense que mantém com a obra de Clarice uma relação de permanente criação. Recentemente, além de lançar um livro no qual há dois poemas em torno da escritora, decidiu realizar uma campanha para a realização de seu projeto “Estas Últimas Palavras ao Pé do Vesúvio, Documentário sobre Clarice Lispector”.

Atualmente, o projeto encontra-se em fase de pré-produção, levantando informações nas cartas trocadas entre Clarice e Lúcio Cardoso, para incluir no roteiro. Clarice era apaixonada por Lúcio, mas ele nunca correspondeu. Seguiram sendo amigos, sobretudo através das cartas que trocaram ao longo da vida. Morando em Belém, logo depois do lançamento de seu livro, a escritora recebeu de Lúcio a notícia de boa parte da crítica relacionada à sua obra. “O impacto que isso exerceu sobre ela foi decisivo para definir seus impulsos como escritora rumo a coisas ainda mais potentes que ela realizaria”, afirma Ney.

Em Belém, Clarice se recolheu no Central Hotel, onde ficou hospedada. E no filme as cenas são pensadas a partir da força que esse minúsculo espaço – um quarto de hotel – exerce sobre ela. O roteiro é dividido em três partes: a visita ao Vesúvio (1945), a estada em Belém (1944) e os efeitos de sua passagem pela cidade. Nesta última, serão mostrados na tela o fascínio que ela exerceu sobre os autores locais e a admiração que alguns destes despertaram nela – um misto de fascínio e tensão que se acentuou ao passo em que a obra de Clarice foi se constituindo e se confirmando como extraordinária.

O documentário investigará a escritora jovem, iniciante, “Orfeu desatento e inseguro”, cita Ney, mas que já se deixa marcar por uma escrita de subversão. Exibirá o cenário literário local, um período final do modernismo, onde se destacam os tais escritores que lhe causaram fascínio - e com sua presença também ficaram fascinados: Francisco Paulo Mendes, Bruno de Menezes, Dalcídio Jurandir, Ruy Barata, Paulo Plínio Abreu, Max Martins, Benedito Nunes, Eneida, Olga Savary e o jovem Mário Faustino.

De seu quarto, no centro da cidade, Clarice lê muito e recebe muitas cartas, além do amigo Lúcio Cardoso, Mário de Andrade também lhe escreve uma carta, que se extravia, e no filme expressará mais do que um mistério, “a condição de inacessibilidade e ruptura que sempre envolverá a vida e a obra de Clarice”, diz Ney. Sempre em trânsito, talvez o mais remoto em que a escritora tenha estado foi Belém. E, educada para casar e ser mãe, daqui recebia a noticia de que era apontada como a maior revelação literária do país por críticos de peso.

“Isso, de imediato, a paralisou. A empurrou para o limbo. Daí sua estada em Belém ter sido tão difícil e angustiante. Aqui ela precisou definir quem era e o que seria – e conseguiu”, considera Ney. De Belém, Clarice já saiu com as primeiras anotações para “O Lustre”, seu segundo livro. Por isso, o documentário será uma homenagem aos 70 anos da publicação de “Perto do Coração Selvagem”, mas também, os 70 anos da passagem de Clarice Lispector por Belém.

O roteirista já pensa quais locações poderia escolher na cidade. Clarice num certo ponto da Presidente Vargas, fumando, entre transeuntes. Ela na recepção do Central Hotel. Ela atravessando a Praça da República, com o marido, a caminho do consulado, cujo prédio ficava na Oswaldo Cruz, “e ainda hoje está lá, imponente”, comenta Ney. Para tanto, um projeto tão bonito no papel, solicita a contribuição financeira – qualquer valor – de todos os amantes ativos da obra de Clarice.

(Lais Azevedo/Diário do Pará)

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