Em “Inferno Verde”, livro de Alberto Rangel lançado em 1908, a floresta é descrita tragicamente como “desordenado entulho de galharias e folhagens” e que “parece toda ela lutar consigo mesma, a um tempo, conflagrada e em sossego”. Virginia Wolf, em “As Ondas”, de 1931, percebe a onda do mar na madrugada “suspirando como um ser adormecido cuja respiração vai e vem inconscientemente”. São escritas que enlaçam personagem e paisagem numa relação complexa e sensória provocando igual experiência no leitor.
O filme “Órfãos do Eldorado”, de Guilherme Coelho, inspirado na obra de Milton Hatoum, bebe nessa mesma dupla experiência: tanto literária quanto fenomenológica. Em uma cidade amazônica, Arminto (Daniel Oliveira) e Florita (Dira Paes) se reencontram, enredados por um antigo amor, obstruído pelo envolvimento dela com o pai de Arminto. Ambos são um nó passional que não desata, e arrastados por promessas não cumpridas têm na vibração das imagens de paisagem o ponto onde ocorre uma espécie de transfusão de energias trágicas.
A ficção exigiu de Coelho uma outra gramática, distinta de seu perfil de documentarista. Embora a estrutura narrativa do filme se organize linearmente, o diretor decidiu criar uma história que não fosse dada ao espectador de modo explícito. Com isso criou contrapontos que perturbam o espectador, que é puxado para dentro da cabeça - em redemoinho – de Arminto, que perde seu eixo ao longo do enredo, ainda que a história seja contada com início, meio e fim. A experiência mental do personagem está constantemente em transfusão com a floresta: vento na copa das árvores altas, águas turvas, praias de lama, pios de bicho. Os desvãos por onde cai por terra sua razão criam problemas no entendimento imediato da trama, geram obstáculos na apreensão racional do nó afetivo vivido entre os protagonistas.
No entanto, o diretor quis deliberadamente oferecer esse problema ao espectador no lugar de uma história cristalina. Optou por jogar com a experiência do personagem, dividi-la com o público e alcançou, a despeito de todos os riscos, a dimensão trágica dos personagens enlaçados por uma angústia sem saída, por uma libido feroz, feito a mata emaranhada, alta e fechada descrita por Rangel que parece “...lutar consigo mesma, a um tempo, conflagrada e em sossego.”
Arminto e Florita estão emparedados em uma relação dramática, espessa, que raramente é penetrada pela luz intensa da Amazônia idílica que está do lado de fora da mata, do lado de fora do casarão urbano onde habitam. Os protagonistas de “Orfãos do Eldorado” estão atados por uma história familiar, comum, abusiva que começa com ternura e sensualidade na infância e se desenvolve na idade adulta numa mistura explosiva de rancor, erotismo, humilhações e arrependimentos.
Para que essa intensidade chegasse ao espectador, Guilherme Coelho também ergueu sua mata fechada, seu território cromático, sonoro, gestual. Sem criar geografias delimitadas, mas atento e sensível ao ambiente equatorial, difícil de ser apreendido rapidamente, soube observar a monocromia da paisagem, entre os vários verdes escuros da mata sombreada e os diversos marrons do rio lamacento. Entendeu que tais matizes eram tanto a gramática do filme quanto os tons internos dos personagens. A mata artificial moldada pelo diretor nos engole para uma experiência sensorial com o mundo por meio dos seus personagens. Em dado momento da narrativa, pode se considerar a plástica do filme um tanto excessiva, mas cabe ao espectador recusar ou entregar-se a esse abismo: imagens de ritmos e tempos distintos que evidenciam um transe erótico com o mundo natural, como a vibração das folhas das árvores ou, em especial, os peixes no mercado, abertos ao toque das mãos e ao som do afiar das facas.
O cinema de ficção de Guilherme Coelho está mais próximo da escrita. Sua atmosfera visual se faz em camadas, portanto é texto que abre e enreda o espectador, como nas passagens de Rangel ou Wolf relacionadas à paisagem ou ainda no caráter trágico da história de Hatoum.
A experiência de leitor está nas entranhas do filme, lhe dá sustentação. No entanto, se há algo em “Orfãos do Eldorado” que poderia ser melhor desenvolvido é justamente o tempo e a duração desses estados de entrega à natureza e o preparo mais longo, para o espectador, da construção da angústia de Arminto. O filme permitiria ir mais fundo no abismo, arriscar-se no tempo dramático do protagonista para, no momento em que se desencadeia sua loucura, provocar mais empatia e consumar a experiência imersiva. Ainda assim, o fato é que o filme de Coelho nos envolve numa correnteza em que a narrativa, pontuada por elipses e buracos negros, nos confronta com os enigmas da cidade-floresta, e de seus habitantes, sobrecarregados pelo sofrimento passional. Todos os personagens que transitam na trama são sutis, circunspectos, constritos e parecem carregar um tipo de segredo ou desconfiança do mundo.
O filme nos apresenta uma Amazônia opaca, sem brilho, apesar de úmida. E quase sempre ensimesmada como suas matas fechadas. No entanto, há uma única luz que se acende a incomodar a desesperança dos seus personagens: a puta na beira do rio que paquera Arminto ilumina surpreendentemente o filme com seu olhar franco, sorridente e malicioso, como se zombasse do sofrimento absoluto e inútil de todos. Mariano Klautau Filho é fotógrafo, pesquisador, doutor em Artes Visuais pela ECA-USP, Mestre em Semiótica pela PUC-SP e professor de fotografia na Universidade da Amazônia. Curador independente, ele é responsável pela curadoria do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia.
(Mariano Klautau/Diário do Pará)
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