O norte-americano Damon Nestor Ploumis é um nome reconhecido internacionalmente no cenário da ópera. Professor e cantor lírico, ele também tem atuado como diretor cênico em montagens destacadas no mundo inteiro. Durante essa semana, Damon desembarcou pela primeira vez em Belém, para ministrar um masterclass dentro da programação dos 120 anos do Instituto Estadual Carlos Gomes, no 1º Encontro de Canto da Amazônia.
No foco das explicações, Damon falou principalmente de porte e postura para apresentações líricas e de óperas, além de aperfeiçoamentos do canto. A aula teve como público cantores que participam do projeto Ópera Estúdio, um curso de extensão que se atém ao aperfeiçoamento da técnica vocal, desenvolvido no Instituto sob gerência da professora Jena Vieira.
Para Damon, os aspectos mais importantes para se aperfeiçoar num cantor lírico dependem do lugar onde ele atua. “Por exemplo, se for no norte da Europa, a parte da emoção, de se entregar, da expressão, do coração, é mais importante. A mesma coisa na Ásia. Eles têm técnica, mas parecem portas, de tão insensíveis. Já no Mediterrâneo ou na América Latina, as pessoas têm muita musicalidade, porque faz parte da cultura, por isso focar sempre no aspecto da técnica é o mais interessante para melhorar esse coração, essa expressão que esses cantores já têm”, diz o cantor, explicando que isso acaba sendo uma vantagem para os latinos. “É mais fácil ensinar técnica do que ensinar alguém como mostrar a sua emoção”, completa.
E o aprendizado da técnica ganha em momentos como um masterclass. “Nesse caso, você usa o aluno para demonstrar para os outros alunos com é que se faz. Então, o foco não é no aluno, mas na técnica. Já na aula de canto, se usa um aspecto da técnica e faz o aluno trabalhar só aquilo o tempo inteiro. No masterclass, eu trago mais detalhes para que os outros percebam aquilo, é mais exploratório”, explica.
E Damon vai contra o pensamento de que ópera é algo para as elites. Ele acredita, ao contrário, que ela representa o clímax de todas as artes do canto, mesmo para quem se dedica para música popular. “No meu estúdio [na Alemanha, onde mora atualmente], tem pessoas de mais de 50 países diferentes, e nenhuma forma de arte mobiliza tantas pessoas em tantos lugares do mundo em busca desse objetivo. A ópera é como se fosse um truque mágico. Você tem uma pessoa sem microfone que usa só o seu corpo para atravessar [o som] de uma orquestra e para que sete mil pessoas possam ouvi-la. É quase um atletismo, uma acrobacia da voz. Por isso que a técnica é tão importante”, reflete.
Em Belém, Damon encontrou muitos jovens, não necessariamente vindos de famílias que costumavam ver óperas ou cantar, mas todos com ansiedade de desenvolver sua performance.
E há espaço ainda para que a ópera exista de forma clássica ou a “modernização” é um processo natural? O cantor norte-americano tem uma opinião clara a respeito: “Há muitas controvérsias. A música em si não pode ser mudada, e o jeito de cantar também não pode ser mudado. Porém, têm sempre aquelas pessoas que querem fazer da forma antiga e tradicional, e gente, como na Alemanha, que sempre faz uma roupagem nova, eles estão sempre experimentando com coisas modernas. A parte cênica da ópera pode ser mudada, mas o jeito de cantar e a música, não”.
Damon só torce para que essa ânsia de modernizar não acabe desvirtuando o espetáculo. “Ás vezes acredito que nessas montagens modernas, eles já exageram e vão muito além. Ou não prestam atenção nenhuma sobre a intenção do compositor. E acho isso errado. Uma pessoa pode interpretar, mas a vontade do compositor, o que ele queria com a música, deve ser o mesma. Você pode comparar com a missa, que tem mudado, e não é a mesma que era há 50 anos atrás. Mas tem o mesmo sentido. Na Alemanha, eles sempre estão dando outros sentidos para as óperas”, critica.
(Diário do Pará)
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