O gênio do cinema mundial Charles Chaplin não só soube encantar o mundo com seus roteiros, temas e frases que surpreendiam o público no início do século 20, mas também lidar com uma mudança enorme para a dramaturgia: as câmeras e telas, o que era um tiro certeiro na mente e nos corações daqueles que se encantavam com o cinema mudo. O público agora é substituído por lentes e saber trabalhar com esse novo ponto de visão é uma dificuldade enfrentada até hoje por aqueles que tiveram a formação com base no teatro, como os artistas paraenses. Aos poucos, a diminuição do custo da produção audiovisual e os grupos alternativos de cinema e vídeo vão possibilitando a atuação para grandes telas de cinema e pequenas telinhas de celular.
Para ajudar a formar esse corpo de atores e diretores e prepará-los para saber lidar com as câmeras, o paulista Christian Duurvoort, um dos preparadores de elenco da Rede Globo de Televisão, com formação francesa e holandesa, vem a Belém ministrar uma oficina de preparação de elenco para audiovisual, que inclui diferentes linguagens como cinema, televisão, vídeo para internet, entre outros. De acordo com o paulista, o principal passo da preparação de elenco é o autoconhecimento do corpo e da mente. O conteúdo da oficina, que vai ser realizada na Casa das Artes, de 30 de novembro a 4 de dezembro, é direcionado para trabalhar com as câmeras, a partir da técnica do “Ator Imaginário”, desenvolvida por ele. “A técnica parte do princípio da ação de gerar ação e emoção. E uma técnica que precisa da conscientização daquilo que se propõe a fazer e a se deixar fazer. É necessário perceber as ações espontâneas do imaginário popular para entender como agem as pessoas e ter o discernimento da consciência do que você produz com a sua imagem”, explica Christian, que é diretor, preparador de elenco e ator. Ele conta que a sua formação foi no teatro físico, que deixa de colocar em foco o caminho psicológico e se propõe ao caminho que trabalha com as imagens.
A oficina é fruto de seus estudos e suas experiências, principalmente sobre o “ator brasileiro” assunto de suas pesquisas, sobre o qual Christian afirma existir déficit de títulos acadêmicos. “Há muito material debruçado sobre o ator do teatro, mas pouca coisa inovadora, e dentro do audiovisual menos ainda. E os trabalhos interessantes realizados são pautados no psicológico e pouco no prático”, diz.
Preparação se reflete no produto final
O trabalho do profissional de preparador de elenco é pouco conhecido, mas é um dos responsáveis pelo resultado final da interpretação das peças, filmes, telenovelas e outras apresentações. Ao lado do diretor, ou muitas vezes a mesma pessoa, esse profissional tem a missão de “garantir e propiciar que haja uma qualidade de atuação homogênea na equipe de elenco e que os atores e a direção possam explorar a potencialidade da dramaturgia e um aproveitamento maior do processo, desvendando as dificuldades e as possibilidades de aprofundamento dos atores com o roteiro e encontrando soluções e propostas para a atuação. É realmente um aprimoramento da comunicação da atuação que melhora o produto final e provoca uma série de resultados”, explica o diretor.
A partir de atividades, aulas e leitura do roteiro, a preparação de elenco propõe desenvolver o autoconhecimento do ator para encontrar os meios de interpretar o papel que é proposto a ele. “O autoconhecimento é entender como funciona o seu corpo, como você funciona enquanto indivíduo, os seus valores pessoais, como dialogar com a obra, e de que maneira eu me posiciono diante disso”, esclarece Christian Duurvoort, que estudou nas escolas Amsterdamse Mimeschool, na Holanda, e École Jacques Lecoq, na França. Christian exemplifica esse processo narrando o relacionamento interpessoal em sites de redes sociais como o Facebook. Pra ele, o fato de curtir e compartilhar assuntos que não se sabe o que são o que tem a ver com si mesmo é exatamente o que um ator não deve fazer, mas sim conhecer o que faz, numa mudança que necessita que ele saia da zona de conforto e esteja na zona de conflito, sempre.
(Gustavo Aguiar/Diário do Pará)
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