O dia em que Ary Barroso visitou a Bahia pela primeira vez ficou marcado na história como o Dia Nacional do Samba. Isso há exatos 75 anos. E o ritmo, que se tornou a cara do Brasil, também viajou por todo o país ganhando sotaque próprio em cada canto onde chegou, misturando-se a outros gêneros e trazendo de tempos em tempos novas gerações de sambistas. Assim ele vai se renovando, no samba de raiz, no samba rock, no pagode, no chorinho. E em cada canto, um universo de compositores, instrumentistas, casas de show, agremiações e muitos fundos de quintais.
No universo que compreende a cidade de Belém, hoje despontam nomes como Gigi Furtado, Arthur Espíndola e Mariza Black, uma nova geração de intérpretes que veio inspirada pelo sucesso de compositores como Edmundo Souto, paraense que compôs o clássico “Andança”, em parceria com Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós, imortalizado pela rainha do samba Beth Carvalho; e Toninho Nascimento, que em parceria com Romildo, compôs os dois maiores sucessos de Clara Nunes: “Conto de Areia” e “Deusa dos Orixás”.
A história dos dois, inclusive, foi inspiração para Arthur Espíndola dar início a uma boa novidade para a cena musical paraense, o programa de TV “Amazônia Samba”. “Quando tomei conhecimento que Edmundo Souto e Toninho Nascimento, compositores que tiveram sambas gravados por grandes intérpretes da música popular brasileira, são paraenses, resolvi mergulhar nessa pesquisa e mostrar que na Amazônia também existe samba. É um ritmo brasileiro e, como a língua portuguesa, tem um sotaque diferente em cada região”, diz.
Mariza Black, que há 13 anos é intérprete de samba de raiz e samba enredo, conta que também teve suas referências, redutos e motivações para fazer do samba sua carreira. “ACasa do Gilson é a grande referência, e a Casa D’Noca vem há cinco anos fazendo um trabalho em torno do samba. Esse foi o meio de convívio no início da minha carreira, vendo o trabalho de pessoas como Neno Freitas, Tony Melodia e Bilão da Canção”, afirma.
O sambista Ademir da Marcação é um desses personagens que tem tentado resgatar o grupo com quem ele próprio fez história na década de 1980. “Nesse período existia no Brasil inteiro um movimento de samba muito forte, com Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal... E foi quando houve introdução do banjo no samba brasileiro”, destaca Ademir. No Pará, o sambista se uniu a Alcyr Guimarães, Osvaldo Garcia, Xaxá, Carlinhos Sabiá, Cibalena, Dito, Magé, Ronaldo Evangelista, Gilmar Brabo, Ney e Jorge Barão (já falecido), formando o grupo que puxaria a criação de muitos outros: o Manga Verde. Tornaram-se autores de um hino da cidade, o samba “Janela de Belém”. Este mês, após 11 anos inativos, eles voltam ao estúdio para regravar sucessos e dar vida a novas composições, anuncia Ademir.
Sobra amor, mas falta incentivo
“O samba é tudo: é arte, alegria. Eu tenho prazer em interpretar samba porque faz bem à alma. Meu samba tem amor”, declara-se Mariza Black. Mas à sombra de tanto amor dos artistas pelo ritmo está a falta de incentivo. Intérprete da escola de samba Caprichoso da Cidade Nova e da belenense Piratas da Batucada, Mariza destaca essa carência como uma das marcas que ferem as escolas de samba atualmente. “O carnaval, momento em que o samba ganha mais destaque, quase não tem mais o apoio do poder público”, denuncia.
O mesmo afirma Fernando Jakaré, campeão do carnaval pela primeira vez aos 19 anos, como intérprete da Bole Bole quando ela ainda era bloco e não escola de samba. “O interesse acho que vem desde a minha mãe, que era baiana de roda de samba, cresci nesse meio. Acho que está no sangue. Sou apaixonado pela irreverência, por Bezerra da Silva, pela alegria, pela batida. Mas às vezes não é fácil, na terra onde predomina o brega, ser sambista”, lamenta. “Aqui infelizmente o poder publico ainda não dá o espaço que deveria. Em Arthur Espíndula em vejo um menino em quem aposto muito e digo que veio para revolucionar o nosso samba. Ainda tem a Rafaela Travassos, Daniel Cardoso, Serginho Nóbrega e Juliana Franco, pra mim uma das melhores atualmente. Em contrapartida, o carnaval do ano que vem, já batendo à porta, ainda corre o risco de não se realizar”, critica.
Amazônia Samba
Toda Terça, às 19h, na TV Cultura, com reprise aos domingos, às 11h.
Para comemorar sambando
Rodas de Samba:
Pagode com Mestre Meia Noite e grupo Exporta Samba
Quando: Todo sábado, às 19h.
Pré-réveillon da Grande Família com Andrezinho Mocidade (ex-grupo Molejo)
Quando: Dia 5 (sábado), às 16h.
Show Fernando Jakaré – 27 anos de carreira
Quando: Dia 6 (domingo),
às 18h.
Onde: Sede da Grande Família (Rua Curuçá, próximo à Djalma Dutra, Telégrafo).
(Lais Azevedo/Diário do Pará)
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