"Eu acho que o humor é fundamental, principalmente nesse momento onde parece que as pessoas estãocom os nervos muito acirrados e tal. O humor é importante para as pessoas relaxarem”, defende o humorista Fernando Caruso, que passou por Belém em setembro, onde foi uma das atrações do festival Risonorte. Além dos inúmeros programas de humor no Multishow dos quais é redator, Caruso também dá aulas decomédia toda segunda-feira no Teatro Tablado, no Rio de Janeiro. Para ele, o essencial para ser um bomhumorista é ter bom ouvido. “Acho que você tem que ser muito atento com a plateia, saber do que as pessoas riem. Tem que ter esse ouvido muito atento porque não adianta você sozinho achar que tem graça”.
E para cada público, ele diz que existe um tipo de humor. “Se você fizer duas sessões diferentes aqui em Belém, vão ser dois públicos diferentes. É uma dança que o comediante tem que saber acompanhar, tem que ter essa suingada”. Mas será que é possível mesmo dar aulas de comédia? “Claro, existem muitastécnicas. Comédia nada mais é do que você se expressar. Às vezes você tem uma ideia e não consegueexplicar, daí chega uma pessoa e diz ‘olha, se você explicar dessa forma...’. O senso de humor é o que não dá para ensinar. O que vai dizer se a piada é engraçada é o senso de humor da piada e das pessoas que vão ouvir. É um aprendizado que vale para qualquer forma de arte. Eu posso ter em mente uma tela muito boa, mas não saber pintar. Você pode me ensinar a pintar, mas não me ensinar a ser artista”, é oque considera o humorista Osmar Júlio, do grupo “Em Pé na Rede”.
Quando o grupo começou a ganhar visibilidade, Osmar havia acabado de se formar em Direito e se recusoua deixar o humor de lado. Ele afirma que se perceber um comediante depende mesmo da prática e da vontade de fazer aquilo por prazer próprio, não apenas como mais uma profissão. “Acho que em todo grupo de amigos sempre tem um cara de quem todo mundo ri. Aqui [num espetáculode stand up comedy], o diferente é que tem um monte de gente que você nunca viu e precisa fazer rir. É um desafio muito maior, e é isso que a gente busca. Muitos comediantes bons e conhecidos hoje começaram se divertindo”.
A relação também é divertida para Caruso. “Eu não me sinto com a obrigação de ver piada em tudo. Comminha mulher, eu estou tentando fazer o tempo todo ela rir, acho que isso faz parte do nosso relacionamento. Não estou caçando graça em tudo quanto é lugar, mas de qualquer forma, quando ela aparece, eu cato, eu quero compartilhar, eu guardo”, conta.
RISO COMO FICÇÃO
Quanto aos limites, diz Osmar, está entre a realidade e a ficção. Para algumas piadas, ele acreditaque é necessário ter algo dele mesmo, algo real. Em outros momentos, não. “Algumas coisas só vão ter graça se você realmente acreditar, para você conseguir expressar seus sentimentos sobre aqueles assuntos. Outras, você pode nem achar tão engraçado, mas consegue passar e fazer as pessoasrirem. Quando a gente vai para outro estado, por exemplo, a gente pega dados de lá e faz piadas sobre. Eu não sou daqui, então talvez eu nem fosse rir se o cara contasse uma piada sobre isso, mas eu sei que o público aqui vai rir porque eu sei que aqui funciona”, explica.
No fim, tudo é ficção, e isso também não pode ser esquecido, completa. “As pessoas precisam ser conscientes de que quando a gente sobe no palco, está contando uma obra de ficção, isso aqui não é um documentário, eu não sou jornalista. Às vezes o comediante é processado porque falou determinadacoisa no palco. Mas se fosse num filme, não seria. Nos filmes as pessoas cometem crimes o tempo inteiro, são preconceituosas, mas nunca teve nenhum processo contra essas pessoas porque entendem que aquilo é uma obra de ficção. Nós somos atores fazendo piada, se você ri ou não, já é outrahistória”.
Comédia em Belém passa por nova fase
De modo totalmente independente, o cenário do stand up comedy (comédia em pé), ainda sobrevive emmeio a uma crise das casas de humor paraenses. Depois da grande influência que sofreram pelo cenário jovem do humor nacional, grupos como o “Em Pé Na Rede” surgiram em Belém e começaram a movimentar a cena da comédia, de modo alternativo aos espetáculos teatrais de humor. Novos nomes surgiram e apontam o surgimento de uma nova cena dos espetáculos de comédia em pé em Belém.
O humorista Eduardo Luz é novo integrante do grupo “Game Over”, que surgiu no início dessa década,hoje comandando por Davi Mansur, um dos veteranos do ramo na cidade. “Sempre achei muito legal entrarnum palco para fazer comédia e acho que ser humorista é uma profissão legal. Só que eu estava meio commedo de começar a fazer. Mas esse ano eu conheci o Davi, que me convidou pra integrar um show de standup só com gente nova”, lembra Eduardo. “Eu acho que como o stand up estourou, veio tudo quanto é nego querendo fazer comédia. E o brasileiro acha que tudo é engraçado, e muita gente começa a fazer piada de tiozão. Às vezes tu vais num show de comédia e vê que as pessoas riem até. Eu acho que caiu a qualidade por conta da grande quantidade de gente fazendo”, opina.
Eduardo e o grupo desenvolvem um show com histórias de cara limpa e jogos de improviso, ainda num processo de descoberta e de amadurecimento. Para ele, um dos problemas é encontrar lugares que promovam e que abracem os shows de stand up, e os grupos, que também se produzem, ainda estão garimpando pontos da cidade para recriar a cultura do riso.
Vendo a dificuldade, o estudante Sylvio Romero, que também é comediante, criou o “Festival de Stand Up”, evento mensal que ele realiza noTeatroWaldemar Henrique, em que ele mesmo produz os shows e convida outras pessoas para participarem do espetáculo. “Eu faço o convite para os comediantes de Belém, abro espaço para eles. Quando dá o público, rola um chachê pra galera, mas como é difícil fazer arte em Belém, dificilmente a gente consegue um bom cachê”, reclama o humorista, explicando que o evento é feito de forma colaborativa. Hoje haverá mais uma edição do festival, a partir de 11h.
Na visão de Eduardo, existe um público em Belém que frequenta esses espaços e que sempre enchem auditórios. E, além da qualidade dos textos, ele acredita que as pessoas têm se tornado mais críticas a assuntos e piadas que possam desqualificar etnias, orientações sexuais ou sexos, e por isso háuma certa cautela. “Eu escrevo sobre o que me identifico, o que eu tenho coragem e embasamento parafalar sobre. Eu acho que tem que ter embasamento e argumento pra falar. Não necessariamente pode ser verdade ou é a tua opinião o que tá no palco. Mas, sim, é uma piada”, argumenta Eduardo.
A busca pelo aperfeiçoamento os leva ao desenvolvimento da técnica com a prática, mas também com oaprendizado. O estudo do teatro é levando em consideração para a preparação do comediante no palco, concentração da respiração e melhor desempenho e o desenvolvimento de outras linguagens do humor, como a criação de personagens.
“Eu não me acho talentoso o suficiente para fazer personagem, mas quero me especializar nisso, fazer cursos. A gente tem um projeto de fazer esquetes, já conversamos com diretores de teatro, mas é só uma ideia ainda”, comenta o humorista Eduardo Luz. Mas ele comenta que “não precisa estudar teatro para fazer stand up. Não acho que é necessário”, finaliza.
(Laís Azevedo e Gustavo Aguiar/Diário do Pará)
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