Eles tiveram um começo modesto, um grupo de amigos que queria a oportunidade de ver os artistas que gostavam e que nunca chegavam a Belém. Primeiro, vieram as festas que passaram mesclar bandas locais e atrações de fora. O embrião para o festival, que já elencou nos seus palcos medalhões como Tom Zé, Moraes Moreira, Jards Macalé e Odair José, e bandas como Pato Fu, Mundo Livre SA, Nação Zumbi, Mulheres Negras e Móveis Coloniais de Acaju, sempre dando uma boa referência da cena independente nacional.
Dez anos depois, a trajetória chama atenção de produtores, jornalistas, músicos e empresários do ramo. O projeto do festival para 2016 foi aprovado em primeiro lugar no Prêmio Funarte de Programação Continuada para a Música Popular 2015, na frente de outros grandes e estabelecidos festivais de música que participaram do edital, como o Bananada, de Goiás, e o Recbeat, de Recife.
Entre os louros e a incerteza da produção cultural, um dos diretores da festa, o jornalista e produtor Marcelo Damaso concedeu entrevista a Gustavo Aguiar sobre essa trajetória e as realizações que 2015 trouxe.
Quando vocês começaram a pensar a edição de 10 anos de festival, o que te passou pela cabeça de desafios e possibilidades para esse aniversário?
O primeiro desafio era conseguir patrocínio para não apenas fazer a 10ª edição, mas a edição seguinte. Contamos com editais e patrocínios que são fundamentais para a realização do evento. E todo ano, a batalha é a mesma. Nunca temos certeza de que há uma próxima edição garantida, mesmo no caso de passar num edital como o da Funarte, em que ficamos em 1º lugar, pois não sabemos quando podemos contar com o recurso. Os editais do Governo do Pará precisam de uma revisão urgente, pois contamos muito pouco com eles para a aprovação e depois captação. E só conseguimos colocar projetos em edital nacional que conta com isenção da empresa local. É essa a maior dificuldade. Fizemos uma 10ª edição grande por conta da data, mas nossos patrocínios não cobriam o festival. Mesmo assim ficamos contentes com a comemoração, com todos os shows, exposição fotográfica etc.
Que lembranças mais fortes dessa trajetória essa edição especial resgatou para ti?
A ausência do Thiago Araújo foi algo bem marcante. A homenagem que prestamos na exposição fotográfica, a aparição dele nas projeções feitas pelo Luan Rodrigues, a mãe dele trabalhando no nosso backstage. Foi uma mistura de emoções por ser a 10ª edição. Mas outras lembranças boas também foram as bandas que voltaram, os discursos em cima do palco, em entrevistas. Foi bonito ver os Móveis Coloniais de Acaju, Autoramas, Cabaret, A Euterpia, Eletrola e, principalmente, a Dona Onete cantando parabéns. Parando para pensar agora, foi uma edição muito emocionante mesmo.
Qual é a maior missão e o compromisso que o festival tem hoje com Belém?
Formar público para a nova música brasileira, que não precisa de jabá e do empurrão de empresários interessados somente no dinheiro. Nós trabalhamos para fortalecer a música autoral em todas as suas vertentes, fazendo com que jornalistas, produtores e pessoas ligadas ao mercado ajudem a alavancar cada vez mais essa produção.
O que 2015 trouxe de importante e novo para quem faz o Se Rasgum?
Acho que a gente sempre aprende uma coisa a cada edição. Sempre quando tudo está sob controle é porque tem alguma coisa errada. A gente acha que já sabe como fazer todas as coisas, mas se depara com uma pequena falha de produção e sabemos que ainda temos muito o que aprender. Fazer produção cultural é sempre uma surpresa e um grande aprendizado. Ninguém aprende isso na faculdade, num curso técnico. Todo ano tem uma ou outra surpresa boa e ruim, e a gente obviamente cresce com as boas.
Como é que enxergas as possibilidades de mudanças no cenário musical e cultural da cidade em 2016?
Eu não consigo prever muita coisa, pois são anos tentando avançar com esse mercado no Pará, mas as coisas têm acontecido, sim. A nossa música já é uma das mais expressivas do país e tanto músicos quanto produtores e jornalistas sabem disso. A grande massa ainda corre atrás de uma nova estrela, mas essas coisas não somam um mercado, só alimentam modismo. A crise é grande e não me parece que vem coisa boa tanto da esfera federal quanto estadual e municipal. Então 2016 vai ser de luta independente, de boas ideias dentro de economia criativa relacionadas ao mercado musical.
De que forma essa premiação da Funarte irá ajudar a construir grandes eventos de Belém, Se Rasgum e Conexão Belém?
Teve também a Casa do Gilson. O prêmio é um incentivo a projetos que contribuem diretamente com o desenvolvimento cultural da cidade. Os dois eventos aprovados e a Casa do Gilson já existem, então o que o prêmio ajudará é na manutenção desses projetos. A construção desse cenário vem junto com esses projetos, deles nascem outros.
O que pode ter sido levado em consideração para que o Se Rasgum ficasse na liderança desse prêmio, na tua opinião? Por que achas que o festival merecia?
Eu, sinceramente, fiquei bem surpreso com isso. Ao longo dos anos viemos nos esforçando e dando o melhor da gente na elaboração do Festival Se Rasgum, mas acho que outros festivais mereciam mais esse primeiro lugar. No entanto, a comissão artística julgou que nós merecíamos. A gente só pode ficar muito honrado com isso, mas não envaidecido. Sabemos que outros festivais pelo Brasil também mereciam.
(Diário do Pará)
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