Forte do Castelo, Casa das Onze Janelas, Igreja do Carmo, Círio de Nazaré. Eles existem há tanto tempo e tão integrados à cidade e à vida das pessoas que poucas vezes paramos para pensar quanta história guardam, e que um dia integraram outros contextos: político, social e cultural.
Esse registro ressurge no livro “Evolução Histórica de Belém do Grão-Pará”, escrito pelo engenheiro Augusto Meira Filho. Esgotado há vários anos, sua reedição, em versão revista e ampliada, é um dos presentes pelos 400 anos de Belém. O lançamento será às 19h, no Atrium Quinta das Pedras Hotel, com a apresentação do duo de violão e piano formado por Salomão Habib e Paulo José Campos de Melo.
“Esse relançamento é em primeiro lugar para celebrar o centenário de nascimento do nosso pai”, diz o antropólogo Márcio Meira, filho do autor e organizador dessa nova edição. E a obra é mesmo uma das mais representativas da dedicação de Augusto Meira à Cidade das Mangueiras, ao percorrer 200 anos de sua história, desde seus primórdios até o ano de 1823, inspecionando a evolução urbanística da metrópole amazônica, defendendo sua vocação para o verde e para as belas construções, e fazendo um convite à reflexão sobre o patrimônio histórico da cidade e sua conservação.
Originalmente publicada em 1976, a obra retorna para comemorar, além dos 400 anos de Belém, os 40 anos da primeira edição e integra o aniversário de 150 anos do Museu Goeldi – instituição que guarda o acervo de Augusto Meira e os originais do livro. Márcio Meira acrescenta que a publicação traz o texto original na íntegra – atualizado de acordo com a nova ortografia e as normas técnicas –, e acrescido de imagens, além das que o autor utilizou na primeira edição, no sentido de enriquecer e embelezar a obra.
NOVO FORMATO
Algumas dessas novas ilustrações integradas ao livro eram desconhecidas do autor e mesmo dos brasileiros em geral. Também há documentos e ilustrações de que Augusto Meira tinha conhecimento, mas aos quais não tinha acesso como é possível hoje em dia. “Naquela época era mais difícil, muitas estavam em arquivos na Europa ou mesmo na Biblioteca Nacional do país. Conseguir uma cópia de qualidade era difícil também”, explica o organizador.
Por isso, algumas das ilustrações presentes na primeira edição foram mantidas nesta segunda, mas ao invés das cópias simples que o pai conseguiu, Márcio foi em busca dos originais e fez cópias em alta qualidade, algo que nem mesmo as gráficas da época do lançamento eram capazes de oferecer.
Entre as imagens inéditas, acrescidas para dar ainda mais valor ao livro, no sentido educacional e histórico, o organizador destaca uma encontrada na Europa. Trata-se de um rascunho que foi feito de Belém em 1640 por um anônimo holandês, “provavelmente um espião”, afirma Márcio.
“Nesse período, os holandeses ocuparam o Nordeste e São Luís e ele pode ter vindo para Belém, desenhou a aquarela com uma planta meio tosca, mas uma planta da cidade e dos desenhos conhecidos, é o mais antigo da cidade, datada de 1616. Quando meu pai fez o livro nem sabia que ele existia, esse documento só foi revelado no final da década de 1990, por um brasileiro”, conta Márcio Meira.
Além disso, há reproduções de imagens relacionadas ao arquiteto Antonio Landi que não estavam no original, um mapa desenhado por um jesuíta espanhol e alguns mapas antigos da Amazônia, colocados para contextualizar a cidade daquele período e mostrar o quanto Belém era significativa e importante naquele contexto do Grão-Pará.
Outra mudança importante é que os documentos presentes na primeira edição eram uma reprodução feita com tecnologia que tornava impossível a leitura. “Ele tinha toda boa intenção ao disponibilizá-los no livro, mas você não consegue ler. E ele ainda transcreveu todos os documentos. Nessa edição tirei estas reproduções, pois não tem sentido já que hoje você tem na internet acesso a eles pela Biblioteca Nacional. Mantive apenas a transcrição, que entrou no final do livro como anexo documental”, explica o organizador. Isso ajudou também a dinamizar a obra, facilitando a leitura.Agora a obra também está acrescida de algumas notas explicativas. “Digamos um jovem que tem 15 anos. Em trechos como o que ele fala de tal monumento onde ‘hoje funciona o quartel do Exército’, na verdade é o prédio onde nos dias atuais funciona o Museu da Casa das Onze Janelas. Assim, mantivemos o texto original, mas explicamos que o contexto em que a obra foi publicada pela primeira vez era a década de 1970 e a qual prédio ele se refere”, explica Márcio.
PAIXÃO
O livro é dividido em dez capítulos que cobrem até 1823.
“Esse livro, papai escreveu por mais de dez anos, começando em 1964. Ele era uma pessoa que tinha preocupação com preservação tanto com patrimônio edificado como o imaterial, as tradições, e o ambiental. Ele era muito militante da preservação do verde da cidade, dos parques e praças. Da forma como a cidade se tornou, evoluiu nos últimos 40 anos, essa cidade caótica, com problemas sociais e ambientais. Ele serve como uma contribuição para nós pensarmos um pouco sobre isso. É um livro sobre a cidade dos séculos 17 e 18, mas acho que todo livro de história é também um livro de hoje. Pode contribuir para refletir sobre como nós cuidamos e não cuidamos da cidade”, afirma Márcio.
O livro conta também com uma introdução do historiador Aldrin Moura de Figueiredo e texto sobre o autor assinado pela arquiteta Elna Trindade, admiradores do legado de Augusto Meira Filho, cuja biografia ilustrada também integra a obra, que se tornou assim um livro-álbum, que deve servir de instrumento de consulta, e material educativo.
GARANTA
Lançamento da edição comemorativa do livro “Evolução Histórica de Belém do Grão-Pará”, de Augusto Meira Filho
Quando: Hoje, às 19h
Onde: Atrium Quinta das Pedras Hotel (Praça do Arsenal – Cidade Velha)
Quanto: aberto ao público
(Laís Azevedo/Diário do Pará)
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