“Eu precisava encontrar uma forma de registrar o tempo em uma obra. Mas como fazer através da escrita e do som? Foi aí que nasceram os pergaminhos”. A ideia do maestro mineiro Antônio da Cunha se tornou um verdadeiro presente artístico em homenagem aos 400 anos de Belém. “Pergaminhos remetem ao tempo e, nas ‘sonoras’, o telespectador é transportado às diferentes épocas”, diz.
O texto, impresso em cinco páginas de papel reciclado, é impecável, com a assinatura de João de Jesus Paes Loureiro, que usou sua liberdade poética para falar da quatrocentona, resumindo exclusivamente em “Belém – Uma autopoética Musical”. Loureiro descreve seu olhar diferenciado voltado para a arte, música e poesia. Algo pessoal, íntimo. “Quando falo de Belém nos meus poemas, o que vejo é o vitral de uma Belém imaginária, que se superpõe pela devaneante memória a essa que hoje se mostra real”, diz um trecho da obra.
Para Antônio da Cunha, o poeta fala de uma Belém possível, utópica, mas também real, que o autor viveu e que as pessoas amam, se emocionam. A particularidade do poeta escolhido a dedo pelo maestro torna compreensível no momento que une com 23 músicas eruditas gravadas em um DVD. “Quando você lê e escuta, você compreende a ligação musical do texto com as músicas”, reforça o maestro. As sonoras que também remetem ao tempo, da fundação de Belém, no século 17, aos dias de hoje.
Foram divididas em três momentos: Semeadura, Janela e Pertencimento. O primeiro momento foi gravado na Igreja do Carmo, músicas contando sobre “o primeiro grão”, semeado por monges mercedários. Janela foi gravada na Sala de Música Antiga do Instituto Carlos Gomes, lembrando o século XVIII, quando as músicas do mundo entraram na cidade. “Remete as pessoas que cantam músicas antigas em suas casas e essas saem pelas janelas”. Por último, os três recentes séculos que se misturam em ‘Pertencimento’. Às vezes se escuta uma modinha do século 19, outras do século 20. Nessa terceira fase, as músicas foram feitas de um piano meia cauda vienense de 1929, dentro do Anima, estúdio próprio do maestro Antônio, localizado no terraço do seu apartamento, no Marco - dedicado à empresa Compasso Livre.
“É um trabalho absolutamente acústico. Como se estivesse assistindo a um espetáculo sentando dentro de uma sala. De repente a voz some e o piano aparece. Essa delicadeza é própria do tempo de Belém, do som dentro da cidade”, explica o maestro. “Precisava realmente que tivesse uma carga de significação para que falasse sobre o tempo”, reforça.
PROJETO
A ideia da obra surgiu em meados de setembro de 2015. Até o trabalho pronto, foram apenas três meses, que envolveu 17 músicos, 3 pesquisadores e um ator, todos paraenses. Um empenho especial da impressão do papel feito pela equipe do Curro Velho. Ao total, foram 5 mil pergaminhos produzidos, numa tiragem de mil obras. “Aqui, tem a mão humana. Tudo foi feito com muito zelo. Não tem máquina. Foi tudo artesanal”. Também não houve muito tempo para ensaios, porém, o resultado final é indiscutível e que atende o público que possui gosto por literatura, história e música.
Antes dos pergaminhos, a empresa desenvolveu outros trabalhos semelhantes, como o Pulsares, feito por um trio musical realizado no estúdio, que existe há 3 anos, e que também teve tiragem exclusiva, levado às pessoas como brinde cultural de empresas. Todo o trabalho desenvolvido pelo maestro não tem patrocínio: é custeado por recursos próprios. O presente para Belém exigiu um investimento de aproximadamente R$ 45 mil. Por isso, se tornou um dos desafios do idealizador. “Pagamos o preço de mercado nacional”, afirma Antônio da Cunha. O esforço foi grande. Mas o maestro não tem dúvidas de que Belém merecia um presente assim.
(Michelle Daniel/Diário do Pará)
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