“Durante um ano inteiro foi desenvolvido de maneira interdisciplinar um produto artístico e documental que se deu por meio da imersão fervorosa no cotidiano da feira do Ver-o-Peso sentindo e captando sons. A proposta foi ouvir a feira. Ouvir a feira significa em primeiro lugar se desamarrar de alguns vícios, principalmente o imagético”, descreve o pesquisador Rafael Sales, sobre o processo que levou à audio-exposição “O Corpo Sonoro da Feira: Cantos do Ver-o-Peso”, aberta hoje e amanhã (19 e 20), das 9h às 17h, na maior feira a céu aberto da América Latina.
O projeto é resultado do Prêmio Proex de Arte Cultura da Ufpa, onde foi selecionado na categoria “Memória e Patrimônio”, ao permitir através da “paisagem sonora” do Ver-o-Peso trocas multissensoriais e uma religação com a origem cultural de sua população, o rio de ela saiu. Do inicio ao fim da experiência, a mostra deixa uma indagação: “Consegues escutar?”. Rafael Sales, relata que apenas o exercício de ouvir, primeiro vivenciada por ele, e agora dividida com outras pessoas já é uma experiência fantástica. “Ando aprendendo com a feira que ouvir é desacelerar”, diz ele.
E sendo a paisagem sonora da feira uma composição de sons, segundo ele, se torna bem complicado especificar apenas um. E talvez, justamente por isso, as ondas sonoras de baixa frequência, dentro de um espaço tão ruidoso, realmente acabaram chamando sua atenção.
“Alguns sons que passam despercebidos como o dos passarinhos que sempre estão entre as coberturas da feira também me causam boas sensações, assim como o intrigante som do vendedor de gaita, sujeito que pouco verbaliza para venda de seu produto, mas que em compensação cria uma identidade envolvente para si quando toca a gaita e consegue causar a ilusão de estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Se acham muitos sons curiosos quando aguçamos nossas percepções”, afirma Sales.
A pesquisa está em andamento, a exposição é apenas um resultado prévio que convida outras pessoas à experiência de refletir junto ao pesquisador sobre esse meio urbano que como identidade traz, em sua composição, a influência direta de um rio vivo que transporta mercadorias e pessoas, possibilita relações culturais diversas, carrega mitos consigo e acalanta os ouvidos com seu som relaxante.
“O compartilhar de sensações com quem vem à exposição contribui bastante nessa empreitada reflexiva e reveladora”, comenta o pesquisador, que considera a particularidade que o Ver-o-Peso tem – em ser uma feira ribeirinha – e o potencial histórico, representativo e afetivo que o espaço carrega consigo, são motivos bem estimulantes para qualquer pesquisa que se proponha a um olhar mais sensível diante das muitas facetas do lugar.
“Compreender melhor a cidade de Belém em sua dinâmica cultural, a meu ver, passa por conceber o Ver-o-Peso como um organismo multifacetado, que releva a cidade cumprindo um papel de microcosmo. Minha sensibilidade hoje, para essa investigação, é a escuta”, diz ele.
Durante a exposição, o público irá se deparar com uma instalação em forma de cubo escuro, que se revela internamente como um corredor composto por fotografias. O visitante cria uma interação direta com o trabalho do pesquisador, sendo um personagem dessa composição, quando entra no ambiente e liga seu foco de luz dando início a condução de seus próprios passos e apreciações. O visitante estará isolado auditivamente do ambiente externo, um readphone faz a conexão dessas paisagens sonoras que vibram no corpo da feira, com o corpo, também diverso, que é o nosso.
A equiepe que colaborou com a instalação inclui o fotógrafo Luiz Sepeda, a cenografia de Wallace Horst, a arte sonora e edição de áudio de Armando de Mendonça, os grafites de Cleber Cajun e uma narração poética realizada por Tereza Maciel.
BATE-PAPO
A exposição recebe ainda dois pesquisadores, com experiências diferentes, convidados para um bate-papo sobre “Paisagem Sonora”, às 9h de hoje (19). A mesa abre um diálogo com os visitantes abordando o assunto a partir de seus aspectos culturais e artísticos fazendo um paralelo com a intervenção sonora na cidade.
ULTIMO DIA
Áudio Exposição “O Corpo Sonoro da Feira: Cantos do Ver-o-Peso”
Quando: Hoje, último dia, das 9h às 17h
Onde: Feira do Ver-O-Peso
Quanto: Aberto ao público.
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