Estava guardando esse texto para quando o carnaval acabasse. Já sonhava em fazer esse trocadilho às avessas com a música de Chico Buarque fazia tempo. Pois bem, eis que lá estava eu: Era carnaval! Vem meu amor, vem amor, manda a tristeza embora, nesse dia ninguém chora. Devo então me preparar para dias de alegrias estarrecedoras, arrepios e aplausos ao pôr-do-sol. A alegria é uma espécie que voa. Penso imediatamente no filósofo Espinosa, cuja ética é a da alegria. A alegria, segundo ele, não necessita de uma causa exterior, muito menos de uma causa. O motivo da alegria, quando existe (nesse caso o carnaval) é apenas um causador, que nos leva a uma experiência muito maior: a potência de viver. Toda alegria é sempre uma alegria de viver. De repente a Banda de Ipanema me arrasta (não há tempo para filosofia), o som mal se ouvia, havia muito calor, havia uma música entoada com fúria e precisão Chora! Não vou ligar. Não vou ligar. Chegou a hora. Vais me pagar. Pode chorar. Pode chorar. E havia a alegria.
O segundo dia do desfile das escolas de samba do grupo especial chega e eu ainda sem ingresso, consigo através do fotógrafo e portelense Guy Veloso o contato de um cambista chamado Roberto Carlos (cabelos azuis, sem camisa, poucos dentes): “fui até candidato a vereador, pode confiar em mim”. Combinamos a entrega, e ele segue com intimidade ao telefone: “Amiga! Vem logo, os ingressos vão acabar!”. E não acabaram. Vou querer sete. Eu, Keyla, Eugênia, Aline, Franklin, Margarida e Michelly. Éramos sete. Começo a achar tudo meio místico, desde então. O carnaval deve ser coisa de aquariano, eu de capricórnio desconfio, sobretudo, do excesso de riso frouxo. A alegria custa a rodear os anéis de Saturno.
Pausa (feito nos textos de dramaturgia)
A única lembrança que tenho de ter me fantasiado um dia, acho que foi na escola, eu estava de Clara Nunes, com 7 ou 8 anos, não lembro mais. Mas, o som dos chocalhos amarrados na canela nunca esqueci. Minha mãe me introduzia à Portela.
Mãos suadas, coração disparado, rescue remedy a cowboy, barras de cereal, muita água, o samba da Portela decorado em cima da hora. Rebuscamento na letra, melodia ondulada, um samba difícil para os pés, mas coerente com a tradição dos belos sambas de Oswaldo Cruz e Madureira. Eu sou a águia, falem de mim quem quiser, mas é melhor respeitar, sou a Portela! Éramos 7, mas quando aquela águia atravessou a Marquês de Sapucaí éramos apenas eu e ela e aqueles chocalhos amarrados na canela novamente. Enfeitei meu coração, de confete e serpentina, minha mente se fez menina, num mundo de recordação.
Eu estava de azul e branco, mas nos ombros uma camiseta rosa denunciava a outra predileção. Mas, houve o antes, a ave da paz e seu turbilhão. A Acadêmicos do Salgueiro é anunciada e apresenta a “Ópera do Malandro”, uma obra em seis atos, embalada por um samba em homenagem à nata da malandragem e seus pássaros de gira. E foi então que tudo girou, a arquibancada de súbito lotou, a euforia da potência elevada a mil nos empurra feito papel de um lado para o outro. Uma mulher de ombros e braços largos avisa: “Quem encostar em mim vai levar chute!” A segunda mulher, cabelos longos, chapéu de abas branco, short e blusa vermelhos, unhas da mesma tonalidade: “Vou fazer vários selfies aqui, bem daqui!” O cabelo rebatendo na minha cara. Minha tia de 80 anos quer retrucar, apenas aviso “é a vez deles tia, deixa passar, deixa passar”. Gira sorte, gira mundo, malandro deixa girar, como disse ando mística neste carnaval. A pombagira e o vento sopra a meu favor.
Confesso aqui, publicamente, que este ano meu coração portelense ficou dividido entre o azul e branco e o verde e rosa da Estação Primeira de Mangueira, samba decorado desde o ano passado, homenageada que me carrega pela voz: Maria Bethânia, a menina dos olhos de Oyá. Havia algo diferente no ar, havia o sono deixado pela Imperatriz Leopoldinense, havia sorrisos na arquibancada. A Mangueira é anunciada, o samba trazia uma familiaridade como há muito tempo não víamos: quem me chamou? Não dá mais pra segurar, explode coração! Eram muitos os refrãos, deixo o samba me levar sa-ra-vá. E o carcará nos sobrevoa tão majestoso quanto a águia e seu Moisés ou a pombagira e suas saias rodadas. Talvez ensinando que a beleza de qualquer ave é seu canto.
Nesse momento começa a ventar forte na avenida, entreolho as pessoas ao redor e sim era ela, rodando com sua saia vermelha, trazia nas mãos uma Adaga e seu Eruexim, o rabo de Búfalo dado por Oxóssi para afastar e aquietar os eguns. Grande senhora que domina os raios e as tempestades. Entreolho minha irmã e digo: “tá sentindo esse vento?” O vento sopra e anuncia: Oyá! Mangueira campeã! E todas elas lá, Iansã, Santa Bárbara, Maria e seus rosários. Todas de mãos dadas anunciando a alegria. A mesma de Espinosa. Todos os outros afetos, a partir daí, são derivações dela. Estou esperando a vitória da Portela há 30 anos. Achei que seria desta vez. Mas, acontece que a Mangueira veio com uma missão bem maior: nos lambuzar de mel, pitanga e dendê. Veio abrir a lembrança de quem somos. Ô abre alas para as religiões de matriz africana, ô abre alas para Maria Bethânia, mulher guerreira-guerrilha, como diria Reynaldo Jardim, ô abre alas para toda diversidade e toda cor para além do verde e rosa.
E este texto, dedico a minha mãe Eugênia Fonseca e Clara Nunes; a Maria Bethânia e Cartola. Mas, principalmente à vendedora de mate que junto comigo na praia, 42 graus, ouviu a transmissão da apuração do desfile pela “MEC AM” e, ao saber do resultado, era o retrato da alegria. Ligou o chuveiro, molhou-se de roupa e coração. Êxtase e transverberação. E meio sem precisar ter razão, repetia o refrão, repetia o refrão. Era dessa alegria que eu queria falar, era sobre essa alegria que eu queria escrever. A alegria é uma ave que canta no chuveiro, negra, de plumagem reluzente verde e rosa e vende mate na praia o ano inteiro.
(Danielle Fonseca)
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